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5 mitos sobre as mulheres que precisamos desconstruir de vez

“A roupa define quem você é”. “Mulheres competem entre si”. “Todas nasceram para ser mães”. Essas e outras ideias preconcebidas que queremos ajudar a derrubar.

Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Se você não quer ter filhos, é julgada. Mas, se resolve ser mãe, carrega o estigma de ter se tornado uma profissional menos competente. Parece que até a roupa que vestimos diz mais aos outros do que nós mesmas. Neste Dia da Mulher, queremos ajudar a desmitificar ideias preconcebidas que as pessoas ainda carregam sobre nós.

“Toda mulher nasceu para ser mãe”

Em dezembro do ano passado, uma entrevista com a jornalista Maria Júlia Coutinho, 40 anos, apresentadora de meteorologia e do Jornal Nacional da TV Globo, gerou polêmica e muito debate na internet. O motivo? Maju disse que não tem vontade de ser mãe. Nas redes sociais, os questionamentos eram muitos: “Mas você não gosta de crianças?”, “E o seu marido, o que pensa disso?”. Em Porto Alegre, a secretária de gabinete Dóris Macedo, de 42 anos, costuma ouvir as mesmas perguntas toda vez que comenta sobre sua decisão de não ter filhos. Principalmente durante o casamento, que durou 10 anos.

– Quando era casada, ele tocava no assunto, mas nunca me pressionou. Mas ainda é um grande tabu. As pessoas ficam muito surpresas quando falo sobre isso. Dizem que, quando encontrar a pessoa certa, vou mudar de ideia – conta. – E sou professora de formação, sempre trabalhei com crianças. Mas simplesmente não me vejo no papel materno.

Apesar de sempre terem existido mulheres que não querem ser mães, o assunto vem sendo cada vez mais discutido nos últimos anos, com a chamada Primavera das Mulheres – que colocou (ainda mais) em pauta temas como assédio e equidade de gêneros, por exemplo. Psicóloga há mais de 25 anos, Lígia Baruch diz que, quando começou a clinicar, poucas mulheres manifestavam o desejo de abdicar da maternidade abertamente no consultório.

– Nos últimos tempos, vejo várias falando mais à vontade sobre isso. Um dos motivos é a nova onda do feminismo, em que as mulheres podem repensar seu destino e se sentem mais autoras da própria vida, e isso inclui o querer ou não ser mãe. Não é mais o que era há 30, 50 anos, quando a maternidade era inquestionável – pondera a doutora em Psicologia pela USP. – Existe uma decisão consciente. Antigamente, o único destino da mulher era a procriação, e ela se tornava um ser desnaturado se não seguisse esse roteiro biológico.

Para Dóris Macedo, apesar da maior liberdade para manifestar e ter a sua vontade respeitada, não é raro que seja questionada ou até desacreditada reafirma sua certeza absoluta de não querer ser mãe. Lígia Baruch endossa essa percepção com base nas reclamações ouvidas com frequência de suas pacientes:

– A maior parte das pessoas acha que essas mulheres podem mudar de ideia. Nas mais jovens, veem como uma rebeldia passageira, acham que é um modismo, como outros comportamentos mais liberais de hoje. A decisão ainda é vista com descrédito. Mas, à medida que mais mulheres optam por não ter filhos, essa possibilidade será vista com muito mais naturalidade daqui a 20 ou 30 anos.

“Mulher não consegue ser uma boa profissional quando se torna mãe”

É, no mínimo, curioso: ao mesmo tempo em que (ainda) existe uma obrigação social para que a mulher tenha filhos, quando ela opta pela maternidade, muitas vezes passa a ser desqualificada enquanto profissional. Na maior parte dos casos, esse descrédito vem de forma sutil, explica Livia Mandelli, especialista em remodelagem comportamental de executivos e consultora na área de Gestão de Pessoas na Mandelli & Loriggio Associados. Nas aulas que ministra em MBAs da Fundação Dom Cabral, a também professora costuma questionar os executivos, que dizem não ter preconceito algum. Até que eles próprios percebem que, muitas vezes, a visão de que aquela funcionária exemplar vai deixar de ser tão boa quando for mãe vem de forma inconsciente.

– Nesses momentos, todo mundo percebe que tem algum tipo de preconceito imbuído – afirma Lívia.

Para a especialista, há vezes em que a mulher, inclusive, tem medo de contar que está grávida no escritório. Ela lembra do caso de uma cliente sua, que demorou seis meses para falar da gestação à chefia. O que se indica, em momentos como esse, é ter conversas “adultas e transparentes” para pensar em um plano de ação durante a licença, por exemplo. A profissional acredita que é preciso deixar claro que você continua atenta ao seu trabalho – e que a maternidade não é sinônimo de incompetência.

– Quando a mulher se torna mãe, muda o foco por algum tempo, e esta mudança passa a mensagem social de que o trabalho ficou menor do que o filho. Não dá para generalizar que todas as mulheres, depois de terem filhos, deixam a profissão em segundo plano. Principalmente se ela tem um forte propósito de carreira.

Diretora da Consultoria LHH na Região Sul, Rose Russowski percebe que a dedicação de uma boa profissional não muda quando ela se torna mãe:

– Na minha opinião, quem faz uma coisa bem, faz tudo bem. Se a mulher tem competência para ser uma boa líder, vai ser ótima também no papel de mãe. Quem é dedicada consegue fazer tudo com qualidade.

O importante é estar 100% atenta e ter um tempo de qualidade quando você está com o seu filho ou em uma reunião com cliente.

Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Júlio Cordeiro / Agencia RBS

“O que você veste define quem você é”

Toda vez que uma mulher é estuprada e vira notícia, os comentários que se multiplicam nas redes sociais seguem um certo padrão. Entre os que se comovem e pedem justiça à vítima, sempre há quem questione que roupa ela estava usando. Mas vai além: do trabalho à balada, as mulheres ainda têm sua capacidade e seus valores postos à prova por conta do que vestem. Na festa, se ela aparece com minissaia, é porque só quer pegação. No escritório, se não está de terninho, não é vista como uma mulher competente o suficiente naquela reunião importante.

– Em geral, usamos roupas conforme as circunstâncias da vida. Um tipo de roupa para ir à academia, outro para um casamento. Isso é uma coisa. Outra é julgar as pessoas, especialmente as mulheres, pelas roupas que estão usando – observa Jane Felipe, professora titular da Faculdade de Educação da UFRGS e integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (Geerge). – Acham que, se a mulher usa determinado tipo de roupa, eles estão autorizados a cometer assédio, o que dá margem à cultura do estupro. Acham que está disponível por usar um decote, ou que não é uma boa mãe por usar uma roupa curta.

Para a pesquisadora, não há como negar que o que vestimos ainda atende a convenções sociais e culturais. Não se costuma usar uma legging de academia para dar uma palestra, por exemplo. Mas Jane ressalta que, quando se trata das mulheres, as roupas “adequadas” ou não se tornam um problema muito maior do que para os homens.

– Para elas, recai esse olhar atento, vigilante e normativo, que vincula a roupa a uma conduta moral. Ao mesmo tempo, isso talvez não seja cobrado com a mesma intensidade dos homens.

Jane Felipe atenta para uma questão: é, no mínimo, curioso, que ao mesmo tempo em que as mulheres ainda estão cobradas para atender e se encaixar em padrões de beleza, também sejam tão  julgadas em relação aos trajes e ao próprio corpo.

– Somos cobradas a estar de acordo com esses padrões, a seguir processos de embelezamento. É uma contradição interessante e complexa.

“Mulher precisa agir como homem para ser respeitada na empresa”

Dados divulgados pelo IBGE no ano passado comprovam: mesmo com ações afirmativas e discussões sobre equidade no mercado de trabalho, as mulheres vêm perdendo espaço nos cargos de gestão. Em quatro anos, os números caíram de 40% para 38%. Com dados como esse – e sabendo de outros mitos que permeiam a vida profissional da mulher –, não é de espantar que ainda exista a ideia de que, para se dar bem na carreira, elas precisam adotar um comportamento ligado aos estereótipos masculinos.

– Quando a mulher vê um homem em posição de liderança, acha que precisa ter também aquela agressividade, a sensação de autossuficiência. E isso acontece não porque ela quer ser assim, mas porque acredita que é isso que funciona para se dar bem, então repete aquele comportamento – explica Lívia Mandelli, especialista em remodelagem comportamental de executivos.

Ao mesmo tempo, se a mulher adota – ainda que inconscientemente – características mais masculinizadas, muitas vezes, é mal-interpretada. Para a Lívia, se a profissional apresenta um comportamento agressivo, dizem que é porque o filho está doente, ou ela não teve uma boa noite de sono. Quando trata-se de um chefe mais rude, a percepção é de que ele é “faca na bota”, é “fera”.

– Para a mesma atitude, temos comentários diferentes por conta da expectativa social.

Para Rose Russowski, ainda existe a percepção de que era necessário adotar uma postura masculinizada para se dar bem em gerações passadas. Mas, para as mulheres entre 30 e 40 anos, que vivem seu auge profissional, essa concepção vem mudando:

– Elas não abrem mão de sua feminilidade, conseguem se expressar muito melhor e são mais ouvidas, estão mais seguras. Acredito que, aos poucos, quebra-se essa ideia de que precisa ser durona para ser respeitada – explica. – Mas o número de mulheres em gestão ainda é baixo. Temos uma longa caminhada.

Entre as características apontadas por Rose, estão a visão sistêmica e macro das situações, na vida e no trabalho.

– A mulher é polivalente. E também tem a empatia mais desenvolvida.

“Mulheres estão sempre competindo umas com as outras”

Assim que Lady Gaga foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Nasce uma Estrela, os boatos da suposta rixa com Madonna voltaram tona. Houve até quem dissesse que a rainha do pop estaria “furiosa com o sucesso de Gaga em Hollywood”, porque o sonho da popstar era arrebatar os críticos de cinema. Foi por isso que tanta gente se surpreendeu quando Madonna convidou Gaga para sua festa pós-Oscar – e ainda compartilhou uma foto com a vencedora do Oscar de Melhor Canção, com o hit Shallow.

– Gaga ganhou o Oscar que Madonna sempre quis, e todo mundo esperava que isso gerasse um recalque. Mas aí elas fazem aquela foto icônica celebrando o Oscar de Gaga – analisa Joanna Burigo, fundadora da Casa da Mãe Joanna.

Mestre em Gênero, Mídia e Cultura pela London School of Economics, em Londres, Joanna Burigo percebe o momento entre as cantoras como mais uma quebra daquele velho mito de que as mulheres estão sempre competindo entre si. Que mesmo amigas podem ser rivais. Mais um exemplo? A recente parceria de Ivete Sangalo e Claudia Leitte na música Lambada, candidata a hit do Carnaval. Quem não lembra das manchetes e fofocas apontando as duas como rivais?

– Esse é um mito construído e sustentado por muitos anos, justamente para nos manter divididas. Existe uma falácia da rivalidade entre as mulheres que pode até encontrar alguma realidade, porque as mulheres são seres humanos complexos, e podem, eventualmente, não gostar umas das outras. Mas a minha experiência diz que as mulheres são muito mais amigas, se dão muito mais suporte, criam mais solidariedade e comunidade do que rivalidade – diz Joanna.

A psicanalista Rose Paim reforça: as parcerias entre as mulheres são muito mais evidentes do que possíveis rivalidades.

– É histórico ver mulheres formando redes de apoio. Nas antigas aldeias, os filhos não eram apenas da mãe e, sim, da comunidade. Naturalmente, essas redes se formam inclusive em momentos importantes e cruciais, como nos tradicionais chás de fralda. Nada mais é do que uma rede de apoio para ajudar uma mulher que está esperando um bebê – justifica. – A gente observa que o universo masculino é mais restrito no sentido destas trocas. As mulheres fazem das amizades suas riquezas e fortalezas.

Fonte: Revista Donna 

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