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Comemorei meu aniversário rodeada de crianças que não sabem a data que nasceram

Sempre achei que não daria conta de um trabalho voluntário. Qualquer um que fosse. Nunca tive jeito com crianças, não tenho formação na área de saúde e ficava me perguntando como uma pessoa comum (e desajeitada), como eu, poderia fazer a diferença no mundo.

Tudo começou a mudar em outubro de 2018 quando uma postagem no Instagram me apresentou o trabalho da Volunteer Vacations. Magicamente uma empresa unia a minha grande paixão por viagens com aquela inquietação dentro de mim, que ainda não encontrei uma etiqueta para classificar.

O primeiro passo era decidir onde eu iria voluntariar.

Me deparei com um site com mais de 20 destinos diferentes. E eu só tinha certeza de uma coisa: queria fazer a viagem na semana do meu aniversário – 15 de janeiro. Fiquei imaginando clicar em todos os destinos disponíveis rezando para um deles ter a famosa #semanaVV na data que eu queria, e  então bateu aquela preguiça. Por mágica, inspiração divina ou coincidência (o que eu particularmente não acredito), não segui a ordem do site, apenas pensei “qual desses países está à minha espera?”. Então cliquei no Haiti e meu coração parou ao ver que a #SemanaVVHaiti seria de 12 a 19 de janeiro.

Foi a primeira emoção que o Haiti me trouxe. Agora era arrumar o dinheiro necessário e partir. Os três meses que antecederam a viagem foram de muita pesquisa e emoção. Formamos um grupo de WhatsApp com todos os voluntários e a Mariana Serra, idealizadora e co-fundadora da empresa.

Foto Mara Saccon

Éramos 9 voluntários. Sete mulheres comprovando a estatística de que cerca de 90% do voluntariado da VV é feminino. Que orgulho. E que tristeza.

Justificar falando que a maternidade inerente às mulheres contribui para essa estatística por si só já vem carregada de erros patriarcais. De forma até rasa posso apontar pelo menos 2 equívocos: o primeiro é classificar as mulheres como maternas, como se filhos fossem uma obrigação feminina e não uma escolha individual e o segundo é ignorar uma sociedade que prega a frieza e a insensibilidade masculina desde a infância, seja na escolha de roupas, cores, brinquedos, etc. Ainda temos muito a evoluir.

Cada pequeno passo em direção ao Haiti era um nó diferente na garganta. Marcamos uma capacitação online e foi aí que eu pude perceber a seriedade da empresa e, pela a primeira vez, eu senti a força e energia de Mariana. Todas as instruções nos foi passada, assim como um breve relato sobre o país.

O Haiti deve a sua independência a nós, mulheres. Os livros de História não contam que as escravas começaram a envenenar a elite branca e que esse foi o ponto de partida para liberdade.

Chegou o grande dia.

Eu podia sentir meu corpo todo tremendo. De São Paulo sairiam eu e mais duas outras voluntárias. Nos conhecemos e todas tínhamos o mesmo frio na barriga. A nossa viagem incluía um workshop de fotojornalismo ministrado por um dos voluntários, Anderson Stevens. Isso atraiu outros amantes da fotografia e eu que sou mais do papel e da caneta fui presenteada com inúmeros registros que eternizaram essa viagem.

Em tempos de mostrar sempre uma vida perfeita, às vezes até nas situações mais delicadas como uma missão no Haiti, tentamos nas fotos retratar o amor, a alegria e felicidade. E sim, lá há muito disso mesmo! Cada criança faminta que recebia um pão imediatamente o repartia com outra criança.

Eu comemorei o meu aniversário vivendo rodeada de centenas de crianças que não sabem a data que nasceram.

Crianças no Haiti cantando parabéns para Nicole no dia do seu aniversário.

A atuação da VV  foi muito mais que brincadeiras e sorrisos. Diante desta realidade, deixamos nos dois orfanatos que atuamos, cadernos catalogando peso, altura, idade (mesmo que não exata), controle de consultas médicas, gostos e preferências. Informações e dignidade para essas crianças saírem da generalização e serem verdadeiramente indivíduos. Fizemos também uma roda de conversa com as meninas um pouco mais velhas para orientações específicas e empoderamento.

Foto Mara Saccon

Foto Mara Saccon

Enquanto no meu mundo a barriga só dói de gargalhar, conheci no Haiti uma menina que não sorria. E como foi incrível ver a sua primeira gargalhada.

Foto Mara Saccon

Foram 7 dias com mais de 100 crianças impactadas, e sem dúvidas, com nossas 11 vidas completamente transformadas.

Conhecer a realidade de um outro país, fora da nossa zona de conforto, sem ter a nossa casa pra voltar no final do dia talvez seja a experiência mais forte que alguém possa passar.

Aprendi com a Semana VV no Haiti sobre planejamento e organização. Cada saída nossa tinha um objetivo, um propósito. Era plantação. Era arar a terra e até fazer chover. E como trabalhamos. E como dançamos. Vimos alguns frutos, outros ainda nascerão. E é isso que é belo.

Foi acima de tudo: criar raízes. Raízes que dão asas.

Foto Mara Saccon

Foto Anderson Stevens

Fizemos história. Fomos ouvidos e demos voz. Levamos comida e nos alimentamos de amor. Caíram lágrimas e levantamos sorrisos. Em um lugar que muitos apenas só sobrevivem, nós vivemos. E levamos vida. E trouxemos vida em nós.

Todos nós mudamos. Ou melhor, plantamos em nós sementes que ainda estão germinando. E às vezes o brotar flores dói. Como uma lagarta que precisa fazer muita força pra romper o casulo e virar borboleta. Está desafiador, é estranho, algumas horas assustador a volta para a realidade da casa.

Mudamos nossos olhos. O Haiti não é mais o mesmo depois de nós. Nós não somos o mesmo depois de lá.

Foto acervo pessoal Nicole Tavares

Foto acervo pessoal Nicole Tavares

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