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Aprendi a me amar com o Câncer

O câncer de mama é uma doença que se forma através da multiplicação de células anormais na mama que dão origem ao tumor. É o segundo tipo de câncer mais comum entre as mulheres, ficando atrás apenas do câncer de pele. De acordo com médicos especialistas, a chance de cura é alta sobretudo se for descoberto no início. Por esse motivo, existe o constante alerta sobre medidas de prevenção e detecção da doença, como por exemplo a realização do autoexame periodicamente e a regular visita à médicos como ginecologista e mastologista para a realização de exames preventivos específicos.

Contudo, uma vez detectado, na grande maioria das vezes o câncer requer uma série de tratamentos considerados agressivos ao bem estar do paciente. Métodos como quimioterapia e radioterapia são considerados invasivos e podem causar uma série de efeitos colaterais como: anemia, sangramentos, dores, fadiga, alterações no peso, mudanças na pele e nas unhas, náuseas e, o mais conhecido e temido efeito: a perda de cabelo.

Sabemos que geralmente, no caso das mulheres, a auto estima está diretamente ligada à beleza e a como estamos nos sentindo com a nossa aparência. Por isso, efeitos como aumento de peso e a perda de cabelo causados pelo tratamento do câncer podem ser definitivos para desencadear doenças psicológicas como a depressão. Mas, será que isso é uma regra geral? Nossa convidada do quadro Elas Inspiram de hoje está aqui para dizer que não.

Vamos falar sobre a auto estima em situações de adversidade e saber como exercitar o amor-próprio independente da situação pode ser um fator determinante para enfrentarmos com coragem momentos difíceis. Te convidamos a conhecer Tamires, uma estudante de Jornalismo que descobriu-se com câncer de mama aos 25 anos e, desde então, escolheu enfrentá-lo com muita leveza e através dele, compartilhar a sua luta, inspirando a nós e a muitas pessoas nas redes sociais.

Lhes apresentamos Tamires Cardoso:

PD – Tamires, conta pra gente um pouco da sua vida, de onde você veio, onde nasceu, sua formação e o que você fez até chegar onde chegou.

Tamires – Bom, primeiro eu queria agradecer o convite pra poder dividir um pouquinho da minha história com vocês. Me chamo Tamires, tenho 25 anos, nasci em Salvador onde fui criada e resido atualmente. Não sou formada porque iniciei meus estudos universitários – fiz um semestre de enfermagem – e larguei. Depois entrei no curso de direito aonde levei até o oitavo semestre e larguei também por perceber que não era a área que eu tinha vocação e não me encantava. Hoje faço jornalismo, onde estou completamente apaixonada pelo curso e pretendo trabalhar com rádio.

PD – Como foi a sua descoberta do câncer?

Tamires – Comecei apalpando um caroço pequeno no seio direito onde imediatamente corri para minha médica ginecologista que me passou os exames de rotina e a partir deles constatei que estava com um nódulo no seio e na axila. Fui encaminhada para o mastologista que passou a biopsia e tivemos a confirmação que era o câncer denominado Carcinoma invasor de padrão ductal, triplo X negativo que significa a ausência dos três receptores que classificam o câncer de mama (HER2, estrogênio e progesterona), alem de ser o câncer mais agressivo por ser multiplicar muito rápido nas células e poder entrar em metástase muito rápido.

PD – Em algum momento você teve dúvidas da sua capacidade de aceitar/suportar essa fase difícil?

Tamires – Até o momento em que precisa ser forte você não tem noção do quanto pode suportar determinadas situações difíceis da vida. Quando recebi o diagnóstico, em nenhum momento duvidei da minha capacidade de superar a doença e de suportar todo processo longo que seria. Frequento uma casa espírita há mais ou menos dois anos e com o tempo na doutrina entendi que algumas coisas e fases da vida são necessárias e que viemos com essa missão, então sempre tive esse conforto e me vi muito próxima com Deus, onde pude agradecer a tudo que estava passando, mesmo os momentos ruins, o que tornou todo processo mais leve. Minha aceitação foi muito tranquila. Surpreendi a todos que me conhecem. Não me desesperei, não fiquei triste, não me coloquei pra baixo e nem pus em dúvida do “porque aquilo ter acontecido comigo”, simplesmente aceitei a dor, entendi que tinha uma doença e que precisava de tratamento.

PD – Quais foram as mudanças que aconteceram na sua vida pessoal depois da descoberta?

Tamires – Eu nunca fui um modelo de uma pessoa que ama comer bem e praticar atividade física. Com o câncer eu entendi que algumas restrições são necessárias e que atividade física é algo fundamental para um paciente em processo quimioterápico. Outra mudança drástica foi em relação a quantidade de consumo e ingestão de bebida alcoólica. Antes do câncer cheguei a falar abertamente com minha família sobre o uso da bebida e do cigarro, onde eu estava passando dos limites. O câncer te dá um “baque” e você entende que não pode cometer os excessos. Hoje depois da quimioterapia, cirurgia e fazendo radioterapia, onde ainda tenho a quimioterapia oral mais na frente, sei que posso beber uma taça de vinho ou tomar uma cerveja, mas sem excessos.

Foto: Arquivo pessoal

PD – Você decidiu compartilhar esse momento da sua vida nas redes sociais. O que te despertou o desejo de dividir isso com as pessoas?

Tamires – Primeiro de tudo eu decidi falar sobre isso de uma forma leve só para meus amigos no Instagram – como um alerta. Depois foi algo que foi se tornando enorme, as pessoas se identificavam com a minha história, e então, não só no intuito de ajudar as outras mulheres que passam pelo mesmo processo que o meu, mas também de sinalizar um câncer que está se tornando mais comum. Por último, como a vida de uma pessoa começa a girar em torno da doença e querendo ou não você tem as suas limitações, foi também uma forma para que eu não entrasse em uma depressão, uma forma que eu ocupasse minha cabeça com algo produtivo e que me fizesse bem.

PD – Compartilhar este momento nas redes sociais tem lhe ajudado? Se sim, nos conte um pouco.

Tamires – Me ajuda muito! Já fui diagnosticada com depressão e tive crise antes do processo da quimioterapia, então o grande medo da minha família durante o tratamento era que isso viesse a acontecer novamente, porém o câncer – com todas as suas dificuldades – ajudou.

Pude compartilhar minha rotina nas redes sociais – principalmente no Instagram – e foi aí que me encontrei profissionalmente e entendi que, assim como eu, muitas outras pessoas sofriam igual ou pior com essa doença. Hoje nos apoiamos e nos entendemos e pude receber força de muita gente, muita mensagem linda que me faz sorrir todos os dias.

Foto: Reprodução Instagram

PD – Sabemos que muitas vezes o tratamento do câncer é agressivo e causa mudanças na aparência. Como você tem se sentido com estas mudanças?

Não vou mentir que essa é a parte mais difícil, principalmente para uma mulher. Para mim também não foi algo simples, mas eu compreendo que é só uma fase. É duro ver os cabelos caírem, ver o ganho de peso e perceber que você não se sente disposta o suficiente para conseguir emagrecer tão rápido quanto gostaria. Mas eu busquei opções para meu conforto.

Tamires – Durante o tratamento usei prótese que ficava com o cabelo igual ao normal. Tenho uma grande amiga,  Priscila, que é minha personal trainer que me ajuda evitando que eu fique sedentária. Além de ter uma família maravilhosa que me apoia em absolutamente tudo no que eu precisar, que seja para meu conforto durante meu tratamento e que seja para me deixar mais alegre.

PD – Você buscou inspiração em alguém para se fortalecer nesta fase? Se sim, em quem e por quê?

Tamires – Na verdade eu costumo olhar o meu caso como o mais tranquilo dentre todos os outros casos de câncer. Fui visitar as obras do GACC aqui em  Salvador e vi o quanto as crianças são mais fortes que nós e o quanto elas tem esperança. Após perceber esse olhar me espelhei neles para poder ter força. E outro caso também é o de minha avó materna e minha tia paterna, ambas tiveram câncer e estão vivas, bem, trabalhando e vivendo suas vidas.

PD – Sabemos das dificuldades em manter a autoestima quando enfrentamos adversidades. Como você trabalha isso internamente e qual o conselho que você pode dar à pessoas que estão batalhando com isso?

Tamires – Entender e internalizar que é “só uma fase” e que “isso também passa” é algo que se torna necessário. Eu sempre repetia essas frases quando me via um pouco mais triste que o normal. Eu compreendi e aceitei minha nova fase e não tive vergonha de falar abertamente sobre minha doença como algo que faz parte do meu presente e que deveria ser respeitado. O que me ajudava muito também era fazer maquiagem, tenho uma amiga chamada Tiana que sempre me chama para tirar foto com makes que ela faz. Na última vez foi fantástico, já que tivemos a presença de Hanna, que levou uma Lace e fizemos fotos com meu cabelo curtinho e com a Lace de cabelo longo. Então, esses momentos de você se valorizar e se colocar em primeiro lugar são imprescindíveis.

Foto: Arquivo pessoal

PD – Você considera que levar esse processo com mais leveza do que o comum foi um fator decisivo na sua melhora?

Tamires – Com toda certeza. Eu costumava dizer para as pessoas que estava passando por uma gripe chata, tirando a carga da doença negativa, e dei trabalho para meu médico porque pedi para que me autorizasse ir no barzinho, ir na praia, ir no cinema. Enfim, pude fazer de tudo, mas com muito cuidado, e é claro, seguindo todas as recomendações. E não posso deixar de agradecer a toda equipe da CLION que fez e ainda faz parte da minha vida. Eles me acolheram e me deram muita liberdade para ser quem eu sempre fui.

PD – O que mudou em você (internamente) com a descoberta do câncer?

Tamires – A forma como eu me enxergo hoje, como eu me aceito, como eu enxergo os problemas das pessoas também mudou. Antes da doença eu jamais tinha pensado em fazer caridade ou doação, era muito mais egoísta. Quando me vi mais vulnerável e me vi com uma doença tão grave, percebi o quanto é importante se colocar no lugar do próximo.

Foto: Reprodução Instagram

PD – Cite uma frase que para você tem grande significado.

Isso também passa (Chico Xavier).

 

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