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As mulheres que não querem ter filhos não são contranatura

Por mais que isto não reflita as minhas escolhas pessoais, tira-me a paciência esta contínua expectativa que recai nas mulheres sobre o tema “filhos”. Se chegam aos trinta e ainda não os têm, ou nem sequer fazem planos de os ter, não tarda a típica conversa do “mas estás à espera do quê?”. E caso simplesmente uma mulher não queira ser mãe, diz a generalidade do nosso mundo que algo está claramente mal com ela. Mas, afinal, o que é que está mal aqui? É a mulher, pessoa, que simplesmente não quer ter filhos? Ou serão as expectativas alheias sobre o que é suposto uma mulher ser e fazer na sua vida?

Ainda olhamos com estranheza para as pessoas que não querem ter filhos, como se a eterna regra divina do “crescei e multiplicai-vos” fosse algo inquestionável. Mas se nos homens isto até vai sendo atenuado pela falsa ideia do que é a masculinidade, no que toca às mulheres esta estranheza ganha muitas vezes contornos de repúdio. Afinal, diz-nos a construção social que nos traz até aos dias de hoje que o nosso maior propósito na vida é dar uso à capacidade biológica de gerar uma criança. Se temos a sorte de tal privilégio, porque não havemos de o fazer? Pior, porque raio não havemos de o querer fazer?

SE NÃO QUER SER MÃE É PORQUE NÃO GOSTA DE CRIANÇAS

Há vários mitos sobre as mulheres que não querem ser mães, começando pelo facto de se achar que são mulheres que não gostam de crianças e, portanto, más pessoas. Algo que, embora seja uma assunção totalmente falaciosa na larga maioria dos casos, as torna em seres com contornos de contranatura. Toda a gente sabe que as mulheres são seres com tendência maternal e cuidadora por defeito de fabrico, não é? Poucos pararão para pensar, contudo, que também essas tendências supostamente femininas fazem parte da tal construção do papel e da presença da mulher na sociedade. Um papel praticado e aperfeiçoado durante séculos, de acordo com as diferentes exigências do que é esperado de nós, homens e mulheres, logo à nascença. Mas isso são outros quinhentos.

Também é muito comum acharmos que uma mulher que não quer ser mãe está a desperdiçar o melhor da vida. Em boa parte porque partimos daquele princípio que dita que o “melhor da vida” é igual para todos nós, principalmente para quem tem a capacidade de dar à luz uma nova vida. O simples facto de uma mulher ter sonhos, ambições e vontades individuais diferentes parece automaticamente ser passível de escrutínio alheio. Se ela não quer ter filhos, questiona-se então se é imatura, se é egoísta, se é devassa, se é masculina (como se não querer ter filhos fosse algo próprio, e mais aceitável, dos homens), se é traumatizada, se é doente. Se, se, se. Aliás, se olharmos para o próprio dicionário da língua portuguesa, as definições que surgem em 2018 para a palavra “mulher” incluem a frase “que se distingue do homem pela capacidade de engravidar” (quanto ao facto de o homem ter a capacidade de fecundar, o dicionário já não parece estar interessado… mas isto é tema para outro texto). Associar a mulher à gravidez e ao desejo maternal é uma regras de três simples que, na realidade, tem muito de complicado.

O ETERNO VEREDICTO: “UM DIA VAIS-TE ARREPENDER”

Regra geral, remata-se o inquérito às mulheres que não querem ter filhos com três veredictos: primeiro, “não vais ter ninguém para cuidar de ti quando fores velha” (que embora comum, me parece um dos argumentos mais egoístas de sempre no que toca à parentalidade); segundo, “olha que tens prazo de validade e depois queres e não tens”; terceiro, “um dia vais-te arrepender”. Por mais que este seja um tema totalmente privado, a vontade individual de cada um, neste caso de cada uma, não parece ser tida, nem achada quando se fazem comentários do género. E isso é de uma enorme prepotência e falta de respeito, por mais que as pessoas achem que estão só a dar um conselho sábio.

Pessoalmente, eu quero muito ser mãe e espero um dia poder fazê-lo. Isto faz de mim mais ou melhor mulher do que a minha amiga que não quer gerar uma criança? Por favor, deixemos de ser pequeninos nesta avaliações aos demais. Está na altura de percebermos coletivamente que nem toda a gente tem de ter por objetivo supremo na sua vida gerar uma criança. E algumas pessoas podem simplesmente não ter esse desejo e objetivo em determinado momento e depois passarem a tê-lo noutra altura da sua vida. Mas não são certamente frases como “queres ficar para tia?” que vão mudar seja o que for.

Dizem as regras da boa educação que cada um sabe da sua vida e das suas escolhas pessoais. Portanto, parem de meter o bedelho na vida alheia. Parem diabolizar as mulheres que não querem filhos como se fossem uns seres contranatura. Parem de pressionar as mulheres, os homens e os casais no sentido das expectativas criadas pela sociedade. Umas pessoas vão querer ter filhos, outras não vão. Não é um dever, nem tampouco uma obrigação. Tal ninguém é melhor ou pior pessoa por isso. Custa assim tanto perceber?

Fonte: Expresso

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