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Brasileiras ainda sofrem preconceito ao amamentar em público

Um paradoxo faz parte do cotidiano das mães brasileiras em fase de amamentação: ao mesmo tempo em que se sentem pressionadas para alimentar os filhos com o leite materno, elas relatam que são criticadas quando amamentam em público.

Rafaella Ferraz confirma. Mãe há quase seis anos e grávida do segundo filho, ela ainda lembra com clareza do dia em que foi orientada a amamentar no banheiro de um restaurante para não “atrapalhar outros clientes”. Ela estava com o marido e o filho de quatro meses em um estabelecimento de Santos, no litoral de São Paulo, quando o bebê acordou e ela decidiu amamentá-lo. Enquanto o pequeno Enrico se alimentava, o maître pediu que Rafaella o levasse para outro lugar. “Eu perguntei se tinha uma área específica ou mais confortável para eu amamentar, e ele me disse para usar o banheiro”, relata.

Sem lugar para sentar e coagida a sentir vergonha de alimentar o filho em público, a blogueira conta que ficou revoltada com a sugestão, ainda mais porque avalia que estava amamentando da forma mais discreta possível. “Eu respondi: ‘fala para quem se incomodar ir comer no banheiro, então.’ Meu filho estava almoçando como todo mundo ali.”

A experiência de Rafaella reflete a situação de quase metade das mães brasileiras, de acordo com a Pesquisa Global Lasinoh do Aleitamento Materno 2017, da empresa de produtos para amamentação Lansinoh. No País, 40% das entrevistadas disse ter sido criticada por amamentar em público.

Ao mesmo tempo, dentre as mais de 2 mil mulheres que participaram da pesquisa no Brasil, 94,2% disseram que se sentiriam culpadas se não conseguissem amamentar seu bebê. É o maior índice entre os nove países pesquisados (Alemanha, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França México, Reino Unido e Turquia).

Mães chinesas são as que mais consideram constrangedor amamentar em público, e 39%  delas nunca nem tentou. Aqui no Brasil, a resposta predominante foi a de que o ato é perfeitamente natural (64%). No entanto, é importante destacar que a pesquisa entrevistou apenas mulheres de 18 a 40 anos que estavam grávidas ou tenham um filho de até dois anos. A impressão das mães é de que a sociedade em geral pensa diferente.

“As pessoas julgam quem não amamenta, mas julgam quem amamenta também. Mesmo outras mulheres criticam. É uma pena, porque a gente vive em uma sociedade tão machista; deveria haver mais sororidade”, defende Sabrina Canoa, mãe de de Sophia, de 2 anos e 3 meses, e de Cecília, de 3 meses.

Além das críticas pela amamentação em público, Sabrina ainda foi julgada por amamentar a filha mais velha enquanto estava grávida de Cecília. “Tem muito mito ao redor disso”, observa Kelly Oliveira, pediatra e consultora internacional de amamentação. “Se a gravidez é de baixo risco, se a mãe, o bebê que ainda não nasceu e a criança estão bem, não tem problema amamentar”, explica.

Rodrigo da Rosa Filho, ginecologista e obstetra, observa que a conexão entre mãe e filho nesses momentos é essencial para criar um vínculo íntimo entre eles. Por isso, em geral é indicado que a mulher espere a criança demonstrar que já não precisa mais mamar no seio.

O médico destaca que, por recomendação da Organização Mundial da Saúde, até os seis meses de idade o leite materno deve ser o único alimento. “Sem suquinho, sem água, sem nada.” A pesquisa aponta que as brasileiras estão bastante conscientes disso: 93% disseram que proporcionar um benefício à saúde do bebê é o principal motivo para amamentar. Além disso, 97% das brasileiras acreditam que a amamentação é realmente a melhor forma de alimentar um bebê. “O movimento pró-amamentação no Brasil está crescendo. A gente tem melhorado os índices e o preconceito está diminuindo, apesar de ainda haver um pouco de tabu”, comemora Kelly.

E os benefícios da amamentação  não se restringem apenas ao bebê.  Já se sabe que para os filhos o leite materno previne infecções gastrointestinais, respiratórias e urinárias, protege de alergias e até ajuda a prevenir diabete e alguns tipos de câncer. Para a mãe, a amamentação também ajuda a prevenir o câncer (no caso delas, o de mama) e um estudo recente indica que pode haver até mesmo benefícios para o coração.

Portanto, é essencial que a mãe se sinta à vontade para alimentar seu filho onde for preciso. Quando há alguma dificuldade, a mulher deve procurar grupos de apoio, médicos ou consultores de amamentação, como indicam ambos os especialistas. Eles explicam que o apoio da família e de outras pessoas próximas também é essencial para tranquilizar as mães. “O estresse e outros fatores psicológicos influenciam muito na produção de leite. Quanto mais confiante a mulher estiver, mais fácil vai ser para amamentar”, afirma Rosa Filho.

Sabrina e Rafaella confirmam que o apoio dos maridos e outras pessoas fez muita diferença nessa fase tão especial para elas. “É um momento de vínculo, de entrega. Não é só alimentação, é aconchego, segurança”, diz Sabrina. “É como se as minhas filhas sempre voltassem para o porto seguro.”

Fonte: Estadão

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