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Como a maternidade inspirou a criação da maior marca de cosméticos orgânicos e veganos do Brasil

Ela conseguiu levar cosméticos orgânicos e naturais para desfiles da São Paulo Fashion Week, um dos eventos mais relevantes do mundo da moda. Publicitária por formação e editora-chefe da revista CatarinaPatrícia Lima mudou o rumo da sua vida quando viu que era possível sim fazer a diferença por meio da sustentabilidade com a sua marca orgânica, vegana e produzida no Brasil, a Simple Organic. Em 365 dias de existência, já ganhou três prêmios, incluindo o de melhor hidratante, dado pela Indie Beauty Expo, o Oscar da beleza no Estados Unidos.

Num processo de pouco mais de três anos, Patrícia trocou o trabalho no nicho fashion por estudos cosméticos, viajou para mergulhar nas tendências do mercado internacional, teve uma filha e, enfim, fundou a empresa, que tem suas raízes muito bem traçadas e definidas: é orgânica, vegana (sem ingredientes de origem animal), natural, cruelty-free (sem teste em animais) e sem gênero. Nenhum produto contém ingredientes sintéticos, parabenos ou conservantes artificiais, como derivados de petróleo (como óleo mineral e parafina), conservantes nocivos (como parabenos e formol), metais pesados (como chumbo e mercúrio), silicone, sulfatos, formaldeídos, ingredientes geneticamente modificados, aromas e conservantes em sua constituição.

Foto: Reprodução

Dividindo-se entre Florianópolis (SC), onde mora, Palhoça (SC), onde tem a fábrica da linha Wellness, e outros tantos lugares onde realiza reuniões e participa de eventos, Patrícia encontrou um tempinho para conversar com o Hypeness. Bem humorada, carismática e pé no chão, ela conversa de igual para igual. O papo flui e quando nos demos conta, já estávamos conversando para além do tempo combinado. Mas, por aqui, falamos sobre o processo de luta contra a indústria convencional e sobre escolhas conscientes e transformadoras que, pouco a pouco, todos conseguimos ter.

Hypeness: Revendo seu passado e a questão da sustentabilidade, já existiam conflitos internos seus com o mundo da moda?

Patrícia Lima: O maior que eu sempre tive foi o abuso masculino. Comecei a mais de 15 atrás e peguei muito a fase dos fotógrafos mais velhos, que eram superestrelas, e eles tratavam a gente, a equipe, como um nada…e as modelos mais novas de forma abusiva. E isso sempre me fez muito mal. Me incomodava muito. Hoje em dia, isso é bem falado e exposto, mas antes era algo tratado como “normal” e estar constantemente no estúdio vendo isso nos torna cúmplices. É muito angustiante. Quando veio a nova geração de fotógrafos, esse comportamento saiu de foco.

Pra mim depois veio a questão do descarte e também a minha luta pessoal de encontrar as marcas que se adaptem ao meu estilo e que sejam corretas, sustentáveis, como a Insecta, que é um case maravilhoso. Nesse sentido o mercado está avançando, mas engatinha ainda. Tenho esperança que uma nova geração de criadores consiga se estabelecer no Brasil e a moda sustentável ganhe fôlego e mercado. Esse boom que teve na beleza, a moda não teve ainda.

Foto: Reprodução

H: Atualmente estamos abrindo nossos olhos para tudo o que é mais natural, nos reconectando com a terra. Como foi essa busca para você?

Começou quando nasceu a minha filha. Quando comecei a amamentar, aos poucos a ficha foi caindo. Quando ela tava um pouquinho maior, com 6, 8 meses, passava muito a mão no meu rosto…e depois acaba colocando as mãos na boca, aquela coisa de criança mesmo, mas foi me incomodando porque era química, né. Na época eu passava muito corretivo, por conta das olheiras enormes da maternidade. Então fui deixando de usar maquiagem e vi que precisava ter uma possibilidade.

H: Aí você mesma resolveu dar um jeito, então!

Sempre tive o lado empreendedor e já vinha pensando em dar um slowdown na minha vida. Então veio a consciência, o olhar pra minha filha…e nesse momento eu estava num processo de fazer catálogos infantis no trabalho. A sustentabilidade começou a fazer parte do meu dia a dia e várias coisas foram caindo no conceito. Peguei meu background e coloquei isso num momento novo, porque a beleza está ligada à moda. Aí durante dois anos fui entender os processos de fabricação e fiz todos os workshops que haviam no momento. Também fiz o único curso que tem na Europa, em Londres, que é para entender fórmulas naturais.

Foto: Reprodução

H: Você já gostava de fazer cosméticos em casa, numa pegada faça-você-mesmo?

Eu sou desajeitada! A pessoa tem que ter jeito pra fazer uma receitinha. Se eu for fazer, vou derrubar. Nem todo mundo tem tempo ou perfil para fazer as coisas e, na verdade, eu nunca gostei muito do fazer. Esse nunca foi muito o meu universo, mas sim moda e tendência, duas coisas que procuro aplicar de maneira correta, consciente e sustentável. Gosto de embalagem, do design, da parte técnica. Além disso, também gosto do produto bruto e de extrair as propriedades. Quando vi que queria consumir com consciência e nada me oferecia isso, contratei a equipe e fui estudar. Em todo caso, a pessoa que entende do assunto pode ir, fazer a receita e faz isso muito bem. O produto pronto é para a mulher que não tem tempo, jeito ou vontade de fazer as coisas. Quer praticidade.

Foto: Reprodução

H: Mas parece que o pessoal do-it-yourself fez o nicho de cosméticos crescer, porque começou a aparecer novidades nas feirinhas de rua, na internet…

Sobre essa questão, entra muito o que eu acredito como cidadã. Se eu monto uma empresa, tenho CNPJ, pago imposto, lido com a Anvisa e outras burocracias para manter tudo nos conformes, entrego um produto certificado, garantido para o meu cliente. Nos tornamos sócios da fábrica que produzia os produtos, certificada pela Ecocert,  assim conseguiremos concentrar a produção aqui agora, porque antes era em Milão. E eu acredito na construção de um país novo, em ser uma marca transparente, ter uma cadeia sustentável — da embalagem ao meu fornecedor que recebe de maneira correta e justa-, até a gente ter todos os registros, pagar todos os impostos.

Vejo que tanto a beleza natural quanto a moda independente são corretas num momento e na questão burocrática não conseguem ser tão completas. Por exemplo, quando fui atrás de algumas marcas de sabonete, elas não trabalhava de maneira formal, não tinham nota fiscal ou registro na Anvisa. É um mercado completamente informal. Então não dava para trabalharmos juntos, sabe?

H: Entendi. E realmente é bem difícil manter tudo direitinho no Brasil, né, ainda mais com tanta burocracia e imposto.

É muito, mas muito difícil empreender no Brasil. Estamos num momento de crescimento e exportação. Os cenários são desanimadores, porque é muita coisa para dar conta. Outra coisa é colocar o produto no mercado, um desafio muito grande dentro da slow beauty, porque não tem como chegar para o fornecedor de matéria-prima e pedir para acelerar o processo. Existe uma cadeia para respeitar. E a demanda é gigante e as pessoas querem tudo pra ontem. É difícil fazer produto vegano, substituir matéria-prima…a gente prefere não faturar e segurar nosso produto dentro do procedimento natural. Assumir tudo isso não é fácil. Temos que explicar ao cliente que o estoque depende do crescimento dos materiais que a gente usa. Isso pra mim é a parte mais encantadora e o que mais me faz bem, é a natureza. Eu consigo estar muito mais próxima agora porque o trabalho me leva até ela.

Foto: Reprodução

H: E como é a sua relação, ou da Simple Organic, com as outras marcas do nicho?

Temos uma boa relação com as novas marcas e com os maquiadores, que entram em contato interessados na sustentabilidade. Eu acredito muito no movimento como um todo. Acho que ninguém é concorrente. A nossa briga é com o sintético e não entre nós. Estou criando o Green Beauty Brasil, um movimento de união das marcas, para levar a informação. Precisamos levar a linha natural para outro nível no país e se todos estiverem unidos, ganhamos representatividade. Chamei a Souvie, que é enorme, para movimentar o núcleo e trazer as outras marcas para levar essa mensagem, de forma verdadeira ao consumidor. Assim a gente cresce lá fora, todo mundo junto. É uma troca de energia com marcas que têm a mesma crença, que fazem parte do mesmo universo e têm os mesmos desafios, incluindo os pontos de venda, que são dominadíssimos, embora muito prósperos. Esse ano vamos fazer bastante diferença!

H: As pessoas têm compreendido todo esse processo de produção, mais lento e com menos “palavrões” nos ingredientes? É um trabalho educativo também, não? Porque estávamos todos acostumados com uma coisa e agora temos que nos adaptar a outra se queremos algo melhor…

Apesar de tudo o que falei sobre os processos, acho que nosso maior desafio atualmente mesmo é levar a mensagem de beleza natural e quebrar esses paradigmas de que só o sintético vai dar conta das demandas, seja se a pigmentação é boa ou a qualidade. Estamos conseguindo derrubar essa ideia e me deixa bem feliz. A gente é uma marca de opção. A pessoa pode não gostar, mas não porque é natural. Digo isso porque no mercado internacional o produto feito com só uma matéria-prima é reconhecido. Aqui as pessoas ainda ficam na dúvida de como um produto simples funciona, se funciona…ainda mais por causa do greenwashing.

H: Me conta melhor essa coisa do greenwashing!

Esse termo é usado por marcas que não são sustentáveis, mas te induzem a acreditar que são. Usam o marketing a favor deles para induzir o consumidor a acreditar que é natural. Vemos isso acontecendo cada vez mais e é o nosso maior problema, porque essa confusão prejudica a nossa imagem. Não testar em animais e não usar parabenos está muito longe de ser uma marca genuinamente natural. Não testar em animais não significa que é uma marca vegana. A gente se quebra um monte pra fazer tudo direitinho. A pessoa pode usar o que ela quiser. Eu não acredito em radicalismo, acho que isso é excludente e a Simple nasceu para incluir pessoas. Só que existe ética e transparência. Deixe claro quem você é. Isso é o básico, é muito fácil você fazer. Você ser vegano, natural, cruelty free, orgânico, ter uma cadeia justa…isso pra mim tem a ver com transparência e fazer tudo isso é um esforço gigantesco. Fazer o consumidor comprar gato por lebre não é legal. Esse processo de catequizar e levar essa informação para as pessoas é bem de formiguinha, não esperamos que seja fácil ou rápido, mas transparente.

Foto: Reprodução

H: Você consegue notar a diferença desse processo educativo que vem fazendo? De mostrar para as pessoas como as coisas funcionam e deixar a opção na mão delas?

Vejo muito a geração mais nova criando interesse. Nosso público é bem amplo. Não tem gênero, nem idade. Mas cada geração chega pra gente com determinadas dúvidas de consumo. As mulheres de 30 a 40 querem produtos para solucionar melasma. As clientes dos 15 aos 20 querem saber do nosso processo, querem conhecer a fábrica, é mais curiosa e consciente da sociedade em que vive. Então a gente vai percebendo a mudança de comportamento e preocupações. As mulheres grávidas ou amamentando questionam o que podem usar também, e é exatamente o processo que eu passei. Todas as pessoas estão entrando num processo de consciência de beleza, alimentação, moda. No geral, as pessoas começam a entender o que o sintético faz com elas e reveem suas escolhas.

H: E os feedbacks te animam?

A demanda que mais me toca entre todas as outras são as das mulheres que tiveram câncer de mama. É muito, muito alto o volume de mensagens que recebemos de novas clientes, que o médico indicou, porque elas não podem mais usar sintético e que passaram ou estão no processo de quimioterapia. Saber que a cliente resgatou a autoestima dela com um produto confiável ou que ela pode usar tem um valor absurdo! Vejo que a minha responsabilidade em cima disso é muito maior do que ela poderia ser. É de chorar. Me emociona demais. Quando você toca a vida de alguém, vai além da beleza, é muito maravilhoso.

Foto: Reprodução

H: Tem também a polêmica do protetor solar! São muitos componentes químicos nos convencionais e, ao mesmo tempo, dizem que os caseiros não dão conta da proteção. Aí a gente que é natureba fica sem muita opção. Como é pra você essa questão?

Acho que todas as receitas caseiras são válidas, máscaras, esfoliação, tem várias coisas…mas o protetor eu já não acho, porque mexe com a questão da saúde. Quando sei que fico longas horas expostas ao sol, passo protetor. Nos outros dias, penso que prefiro ter várias manchinhas de sol, porque não me incomoda. As linhas infantis orgânicas do EUA são ótimas e um exemplo para nós. Com a estrutura que tenho atualmente na Simple, conseguiria lançar produtos com até 20 e 30 fps, inclusive adicionando na maquiagem. Mas preferimos não lançar ainda, mesmo tendo demanda, porque ainda precisa melhorar, inclusive a cor, que geralmente é um branco pastoso.

Foto: Reprodução

H: Falando sobre essa questão da cor, existe muito chão ainda para as mulheres e homens de pele negra, especialmente, que têm uma dificuldade enorme para encontrar maquiagem no tom correto, certo?

Sim. A nossa ideia é desenvolver essa linha toda aqui no Brasil, incluindo as bases, corretivos pastosos, delineador, tudo para a pele negra mesmo. Quero que elas se sintam realmente atendidas, desde o pó compacto ao batom. Primeiro temos que organizar toda a demanda do que já temos no catálogo para depois lançar essa linha. É difícil adaptar a cor da pele no Brasil porque temos muita mistura mesmo, de etnia, de raça. É uma gama gigante de cores! E eu quero melhorar especialmente a base. Então estamos ajustando a cor desse produto. Por enquanto temos três tons mais claros e três mais escuros.

H: Qual foi o seu maior aprendizado durante todo esse processo de criação de marca?

Acho que a troca com as pessoas. Eu tive uma empresa de comunicação e a mesma equipe veio para a Simple. Eu poderia terceirizar uma parte, mas a minha relação com as pessoas, essa troca, a relação, as coisas que posso falar…eu perderia demais se fosse diferente, sabe. A troca de conhecimento com a fazenda orgânica também é absurda. Eu aprendi tanta coisa com eles, sobre plantas, plantio. É muita coisa para diluir na cabeça! Além da parte química, desenvolvimento de produto, áreas que nunca tinha estudado. E esse desafio, aliado a energia das pessoas, é o que mais me surpreende e onde eu mais aprendo.

H: Agora nos revele o segredo, como é a sua rotina de beleza?

É muito simples. Acredito na rotina de beleza como bem-estar. O hidrolato entra para você acalmar, dormir bem…e isso está na rotina de beleza. O processo de beleza fez eu me apaixonar pelas máscaras e criar todo aquele ritual. E se não existe um bom corretivo na minha vida, não dá! Então é algo que eu me preocupo mais.

Quando desenvolvemos a marca, pensamos na praticidade, em um produto para corpo e para rosto, que dá para carregar na necessaire. O demaquilante eu uso no cabelo, como pós-sol, hidratante de cutícula…gosto bastante da multifunção. Eu uso em tudo! Hoje também sou viciada na green water, que vem basicamente do tronco da árvore da pitanga.

Mas mais do que nunca, acredito que a beleza vem de dentro mesmo; do que você come, do tanto que você dorme, da sua conexão com a natureza. Acho maravilhoso você puder ficar sem maquiagem e se sentir bem! Você se olhar e conseguir se amar, se sentir linda. O conceito de slow e beleza natural me transformou porque eu gosto dessa simplicidade.

Foto: Reprodução

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