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Manuela Avena: da Bahia para a Copa do Mundo

As mulheres já conquistaram bons espaços, mas estamos longe do ideal. Em uma sociedade que valoriza mais a beleza, delicadeza e submissão feminina do que sua competência, questionar essa imposição, ser bem-sucedida e ocupar espaços que até então eram hegemonicamente masculinos, são um ato de revolução.

E em nossa opinião Manuela Avena faz parte dessa mudança. Quer saber por quê? Futebol é coisa de mulher.

A Copa do Mundo 2018 começou hoje e Manuela Avena – uma das três primeiras mulheres a narrar a Copa do Mundo na televisão Brasileira – bateu um papo com a gente sobre suas expectativas, a seleção para a Fox Sports e sua paixão pelo futebol.

 

P.D – Manuela, conta para a gente um pouco da sua vida, de onde você veio, onde nasceu, sua formação e as coisas que você fez até chegar onde chegou.

M.A – Eu sou baiana, nascida em Salvador, mas morei dos meus 5 aos 15 anos em Petrolina, Pernambuco. Formei em Publicidade e Propaganda e

Foto: Reprodução

trabalhei durante sete anos em agências na capital, mas sentia que me faltava algo.  Resolvi então fazer uma pós-graduação de Gestão Esportiva – onde conheci muita gente legal, gente do mercado – e aprendi muito. Logo na primeira semana o coordenador do curso me convidou para participar da radio web, um programa semanal. Em seguida fui convidada pelo dono da rádio para um novo projeto – o programa do Bahia. Na divulgação desse projeto nas minhas redes sociais, fui indicada para uma entrevista para a CBN em Salvador. Foi aí que tive minha primeira oportunidade na área. Foi Elton Serra, editor Chefe da CBN, quem me deu minha primeira oportunidade. Apesar deu não ter experiência na área, ele gostou de mim e viu que eu adorava muito futebol. Virei então repórter de campo, cobrindo os adversários da dupla BAxVI em 2016. Após continuei meus estudos de rádio e TV. Hoje estou na Rádio Sociedade desde Fevereiro.

Sempre tive um contato positivo com o futebol. Assistia aos jogos com meu pai e ia aos estádios com os meus primos. Vivi o futebol e já sonhei em dirigir um clube, uma equipe, ser jogadora, mas eram apenas sonhos. Jamais imaginei trabalhar com isso.

 

P.D – Qual foi seu primeiro contato com o futebol? E o que te encantou tanto sobre esse universo?

M.A – Sempre fui apaixonada por futebol. Joguei desde pequena na escola, no interclasse e nos campeonatos. Fazia parte do time de futsal e sou sortuda por ter tido muitas amigas que também gostavam de futebol e jogavam no time. Os lugares onde estudei valorizavam muito o esporte e tínhamos times só de mulheres. Era muito bacana! Em Petrolina, por exemplo, nós disputávamos campeonatos municipais. Nosso time era muito bom, inclusive fomos Campeões do Pré-mirim na época. Meu xodó sempre foi o futsal. Até hoje eu jogo bola.

Amo futebol e o esporte entra na minha vida de forma muito fácil. Adoro jogar, estudar assistir futebol, independente de qual campeonato seja. Viver, e agora, poder trabalhar com isso é muito bom.

 

P.D – O futebol sempre foi tido como um esporte majoritariamente masculino, você já sofreu por ser mulher e estar inserida neste meio? Se sim, poderia citar algum exemplo?

M.A – Cresci nesse meio masculino, mas nunca dei muita ousadia para isso não. Sempre fui muito ciente do que gostava, de quem sou e respeitei – até mesmo o preconceito das pessoas -, porque acho que a gente combate isso não dando atenção. Sou muito tranquila com tudo que faço. Sei que muitas vezes as pessoas preferem perguntar informação para um homem, mas isso tem melhorado. Hoje em dia eu já me sinto parte de um todo e a gente vai conquistando isso degrau por degrau. Buscando crescer e evoluir. Hoje já vemos um pouco mais de igualdade.

Eu sei que existe o preconceito, nunca fechei os olhos para isso, mas tenho a felicidade de não ter passado por nenhum tipo de preconceito ou assédio em meio ao trabalho. Sempre fui respeitada e tratada de igual para igual nas equipes de rádio e por onde passei. Isso é o que considero mais importante. Espero que em breve isso possa crescer para as torcidas e outros lugares. Que o respeito impere sempre.

 

P.D – Existe uma objetificação da mídia do comportamento feminino e dos lugares de fala que devemos ocupar. Você por ser mulher e trabalhar com jornalismo esportivo já precisou provar a sua competência só por ser mulher? 

M.A – Acho que a gente prova nossa competência todos os dias, independente de onde trabalhamos – nos provamos para o mundo no geral, para um torcedor que reclama ou pessoas que não estão satisfeitas com nada. Todo mundo passa por isso. Então todo dia é uma prova de competência. Eu não ligo muito. Quero apenas falar de futebol à vontade. Fazer o que faço todos os dias, dar minha opinião, estudar e aprender. Aos poucos vamos mostrando nossa qualidade e que homens e mulheres podem falar de futebol do mesmo jeito.

Sempre existirá alguém que não gostou de algo que comentei, ou que algum colega comentou. Isso não importa. O que importa é que não haja distinção por gênero.

 

P.D – Antes mesmo de escolher essa área, você já sofreu algum tipo de violência de gênero?

M.A – Não me recordo de nada que tenha de fato marcado minha vida, mas sempre preferi ir ao estádio a fazer qualquer outra coisa e muitas pessoas já estranharam isso. Ia para o estádio sozinha, com minha mãe, pai, primos pequenos…

Sempre achei o ambiente do estádio maravilhoso para frequentar, tanto com amigos quanto com a família. Nunca concordei sobre ser um espaço restrito a certas pessoas – seja por sexo, cor ou raça. Para mim o estádio tem que ser um espaço de todos.

Foto: Arquivo pessoal Manuela Avena

 

P.D – Apesar de termos grandes mulheres encabeçando as listas de melhores esportistas do mundo, sabemos que existe muito preconceito por parte das próprias emissoras e do formato de consumo que é criado envolta do esporte. Como você lida com isso e com manifestações machistas?

M.A – Acho que isso está mudando e fico muito feliz. Antigamente tínhamos mulheres na televisão apenas por serem bonitas. Hoje temos mulheres – que apesar de serem bonitas, do que vestem ou preferem – estão ali por entenderem muito do que fazem. Mulheres competentes trazendo informação para a população. Temos que incentivar cada vez mais isso.

A nossa busca agora nesse processo de narração – trazendo as primeiras mulheres do mundo a narrarem uma Copa do Mundo – é abrir mais um caminho e oportunidade para nós.

Quanto ao machismo, eu acho bizzaro! Uma pessoa pode até me criticar por não gostar do meu trabalho – ela tem esse direito -, mas ela não pode me criticar apenas por eu ser mulher, pois eu também tenho direito de fazer o que amo.

Irei responder ao machismo sempre com amor e carinho, pois acredito que essas pessoas estão precisando disso. Para elas terem tanto problema com os outros, é porque o problema deve estar dentro delas.

P.D – A mídia ainda objetifica a mulher ao ponto de ouvirmos “pode até falar de futebol, mas tem que ser gostosa”. Você acha que isso ainda cabe nos dias de hoje?

M.A – Isso é a coisa mais “tosca” que a gente pode ver no mundo de hoje. A pessoa tem que entender o que ela quer. Ela quer ver mulher bonita? Ela pode ver outros programas. Falando de esporte, a pessoa tem que querer ver o comentário, querer saber de esporte. Eu acho que a pessoa que busca isso, está no lugar errado.

 

P.D – Você foi uma das três selecionadas – dentre 300 mulheres inscritas – pelo concurso “Narra Quem Sabe” da Fox Sports. Como foi essa experiência? E qual sua expectativa?

M.A – Foi uma experiência incrível. Uma das melhores experiências da minha vida. Foi um negócio muito louco (rs), pois eu nunca tinha narrado. Quando anunciaram a oportunidade, recebi links de vários amigos e familiares e acabei mandando uma narração. Quando Vanessa Riche me ligou, eu não acreditei! Jamais imaginei que isso fosse acontecer. Mandei o vídeo de forma muito despretensiosa e nem achei tão bom (rs), não tinha gostado.

Naquele momento eu estava entre as seis selecionadas de todo o Brasil. A única baiana a representar o Norte/Nordeste. Foram 45 dias intensos de seleção. Eu viajava toda semana – ia quinta e voltava sábado -, pois eu trabalhava nos outros dias. Foi tudo muito rápido e mal sobrava tempo para dormir ou comer. Era foco no trabalho e estudo, mas quando fui, foi com muita tranquilidade e curtindo o momento.

Foto: Arquivo pessoal Manuela Avena

Tivemos experiências incríveis. Tive a oportunidade de ir na CBF, conversei com Tite e o Gaspar. Fomos no museu do futebol. Conhecemos todos os narradores, comentaristas, reportares da Fox e conseguimos entender melhor o dia a dia deles. Foi primordial para essa nossa nova etapa.

Minha expectativa é a melhor possível, pois estamos fazendo algo que é inédito. E estamos tentando fazer isso da melhor forma possível, com muito estudo e muita tranquilidade. Queremos abrir caminhos para que outras mulheres possam seguir o sonho de narrar.

 

P.D – Como é estar entre as três mulheres que irão narrar pela 1ª vez os jogos da Copa do Mundo na TV Brasileira? E o que isso representa para você?

M.A – Recebi a notícia com muita alegria. Sempre foi um sonho trabalhar com futebol e estar fazendo a Copa. Sou Canceriana, nascida no final de junho, então muitos aniversários foram comemorados em jogos do Brasil e Copa do Mundo. Estar entre as três mulheres que vão narra pela primeira vez a Copa na TV é um prazer imenso. Torço para que eu consiga fazer um bom trabalho, uma boa Copa e conquiste o meu espaço. Trabalhar com esporte é a coisa que mais amo.

Esse momento representa uma oportunidade de trabalhar com algo que sempre amei, apesar de nunca imaginar. Sabe aquele sonho que você sonha sempre, mas acha que nunca vai acontecer? Aconteceu!

P.D – Hoje, se te dissessem que futebol é coisa de “macho”, o que você responderia?

Diria que ela é ultrapassada! (rs) Que ela precisa se atualizar, se enriquecer. Deixar o passado para a enciclopédia. (rs) Mas brincadeiras a parte, Futebol é coisa de qualquer pessoa que ama futebol, independente de gênero, classe social ou de qualquer outro critério que venha a ter.

 

Assista um pouco da preparação de Manuela Avena no Narra Quem Sabe da Fox Sports:

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