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Dá para diminuir os perigos de um aborto? Uma médica arriscou a carreira para dizer que sim.

DESESPERO. Essa é a principal sensação de quem bate à porta de Débora Anhaia de Campos. Médica de família, ela ficou conhecida por ajudar mulheres que desejam interromper a gravidez. Primeiro, as pacientes querem tirar dúvidas básicas: “Estou mesmo grávida? De quanto tempo?”. Depois, muitas fazem logo a pergunta que as levou ao consultório: “Como posso abortar?”. Outras, com medo de uma denúncia, guardam o questionamento para si. Foi pensando nelas que Campos decidiu criar um vídeo-manual de redução de danos de abortos.

A médica ainda estava na faculdade quando sua irmã interrompeu uma gravidez e foi deixada sangrando por profissionais de saúde. A experiência em casa e a falta de informações sobre o assunto no curso de medicina, onde, diz ela, o aborto ainda é tabu, a levaram a mergulhar no tema. Quanto mais vulnerável a mulher, diz Campos, maior a chance de recorrer a “métodos inseguros”. Cabides, arames, agulhas de crochê e até soluções de água com soda cáustica ou sabão são usados por mulheres em tentativas de aborto, enumera. Em maio deste ano, Ingriane Barbosa tentou interromper uma gravidez colocando um talo de mamona no útero – a mamona é uma planta com propriedades tóxicas, comumente encontrada em jardins. A mulher de 30 anos morreu e deixou órfãos seus três filhos, ainda crianças.

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A médica Débora Anhaia de Campos defende que a mulher que decidir interromper uma gravidez fará um aborto, sendo legal ou não. (Foto: Reprodução/Facebook)

São esses riscos desnecessários à saúde de quem já está decidida a interromper a gravidez que Campos quer ajudar a evitar. Seja num posto de saúde de Londrina, Paraná, ou em seu canal de YouTube, ela faz questão de deixar claro: aborto ainda é crime. Mas, ciente de que isso não impede que meio milhão de brasileiras recorram à prática, a médica fala abertamente sobre o assunto – que, feita de forma insegura pelas mais pobres, negras, adolescentes e periféricas, pode levar à morte.

Em uma conversa por telefone, Campos falou sobre o manual, o tratamento que as mulheres que abortam recebem nos serviços de saúde e o que cada mulher pode fazer para evitar complicações.

Vale lembrar: Uma ação que pretende descriminalizar o aborto no Brasil até a 12ª semana de gestação está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal. Mas, atualmente, só é permitido por lei o aborto em caso de estupro, risco de vida da mulher ou anencefalia do feto. Ou seja, no Brasil, interromper uma gravidez ainda é crime – que pode ser punido com prisão de um a três anos. Quem facilita um aborto também pode ser condenado à mesma pena.

Você é médica de família há mais de três anos. Já viu casos de mulheres que tiveram problemas de saúde ou morreram por abortos inseguros?

A minha irmã passou por uma situação assim e foi muito maltratada no hospital em que procurou atendimento. Foi feita uma curetagem e não deram a ela medicação para dor. Deixaram ela sangrando e depois mandaram para casa sem encaminhamento para exames, sem pedido de retorno. Eu já estava na graduação nessa época, no sexto ano. Ainda não tinha pensado em fazer Ginecologia e Obstetrícia, que agora quero fazer. Isso mexeu muito comigo. Aí passei a estudar isso. Vi muitas mulheres ao meu redor abortando. Só de você ser médica e feminista, as meninas já vêm pedir ajuda. Eu vi o quanto elas estavam abandonadas à própria sorte. Eu fui estudando e decidi fazer o manual porque já há manuais para sexo seguro e uso de substâncias, porque são assuntos que atingem homens. Na época em que minha irmã passou por isso, não havia acesso a nenhuma informação real e que fosse segura, mesmo buscando muito na internet. O que havia deixava ela ainda mais desorientada. Não havia acesso a documentos do Ministério da Saúde, por exemplo. Na época, minha irmã estava com cerca de 22 anos. Ela ficou bem, mas demorou bastante tempo. Logo depois da curetagem, ela teve hemorragia por 15 dias e não procurou um serviço de saúde por medo de ser maltratada de novo. Psicologicamente ela ficou muito abalada, não tanto pelo aborto, mas mais pela tortura que ela sofreu. Ela fazia psicologia e largou a faculdade. A vida dela acabou. Quando ela foi no serviço de saúde pela primeira vez ela falou que tinha usado remédio para abortar. Depois ela começou a ser xingada, maltratada, falaram que “se sua irmã soubesse ela não deixaria você fazer”. Nem chamaram o médico que estava de plantão. Não pediram exames de sangue, ultrassom. Você tem que encaminhar pelo menos para o posto de saúde para fazer acompanhamento, passar um método contraceptivo. Ela usava método contraceptivo e falhou. Ela engravidou, terminou o relacionamento, o cara comprou o remédio e deixou ela sozinha. Até hoje nunca falei com ela sobre isso. A gente nunca sentou para falar sobre isso. Ela foi muito humilhada.

Você percebe um recorte social dos casos que acompanhou?

As mulheres mais pobres não vão usar o misoprostol [medicação que induz o aborto, recomendada pela Organização Mundial de Saúde], que é o único método seguro. Então, é grande a chance que ocorram complicações, até morte. Nesses casos, são sempre mulheres pobres, negras, adolescentes, periféricas. Quanto mais vulnerável a mulher, maior a chance de usar um método inseguro, como introdução de objetos, substâncias tóxicas.

Você já viu profissionais tratando mal mulheres que chegam ao serviço de saúde com complicações de aborto? Como os profissionais deveriam agir diante desses casos?

Felizmente nunca vi na minha frente. Não conheço nenhuma que tenha procurado atendimento espontaneamente depois de abortar. Elas têm medo de serem presas. Isso só acontece quando o quadro fica muito grave, e aí outra pessoa leva. Os dois casos mais graves que já vi foram assim. Eram negras, pobres, muito jovens. Uma já tinha outro filho, não tinha parceiro, tinha sido abandonada. Fizeram aborto em gestação avançada, de quatro, cinco meses. Uma delas chegou com uma hemorragia muito grave, entrou em choque e quase morreu. A outra foi de Samu [ambulância da prefeitura] pro hospital e não sei o que aconteceu. Nesses casos, eu suspeitei que tinha sido aborto provocado por causa da gravidade do quadro delas. Mas não perguntei, porque pra gente [profissionais de saúde] não importa. Tem que ver o estado da paciente: se ela está com hemorragia, já é muito grave. Caso ela tenha introduzido um objeto ou substância tóxica, pode ter lesionado outros órgãos. Por isso é tão grave. O único jeito de abortar sem provocar infecção interna é com o misoprostol. Nos outros casos, o aborto sempre é causado por causa de uma infecção. Então, é uma roleta russa.

Há algum tipo de treinamento dos profissionais de saúde para lidarem com essas questões?

Não. Durante toda a graduação eu não tive nenhum treinamento sobre como atender mulheres em situação de aborto inseguro. Nos cursos de urgência e emergência nunca vi ninguém abordar essa questão. É um tabu tão grande que ninguém fala sobre isso. Quando acontece, as pessoas simplesmente não sabem o que fazer. Por isso tem gente que chama a polícia. No caso de uma tentativa de suicídio, ninguém pensa em chamar a polícia. Mas numa tentativa de aborto, sim.

No posto de saúde, as mulheres te perguntam sobre formas de abortar ou há medo? Como é essa aproximação?

Muitas perguntam. Já atendi mulheres que estavam com gestação indesejada, manifestando sofrimento. Uma delas disse que não ia prosseguir com a gestação, então tive uma conversa com ela explicando que era crime, mas que, caso realmente decidisse fazer, o único método seguro é o misoprostol. Indico o vídeo que fiz com o manual de redução de danos, digo: “pense bem, não coloque a sua vida em risco”. Tento saber se alguém está pressionando ela a abortar. De qualquer jeito, elas têm muito medo, muitas não perguntam. A maternidade não é incrível para todas as mulheres.

Você disse em entrevista à revista AzMina que, desde que se formou, tem procura diária de mulheres querendo saber sobre aborto. Algum caso te marcou mais?

São tantos casos. Todos me marcaram de alguma forma. Algumas desistiram do aborto. Outras disseram que só queriam falar com alguém sobre isso porque estavam com muito medo. Teve uma menina que o pai a obrigou a abortar. Eu evito ter informações sobre elas, apenas oriento para que elas não coloquem a vida em risco. Como médica, é o que posso fazer.

Conhece outras médicas que atuam assim?

Sim, muitas ativistas, feministas. Principalmente que fazem acompanhamento. Desde só ouvir a mulher que pensa em abortar até acompanhar o processo para ela não ficar sozinha, não correr o risco de passar mal. É um momento muito solitário, e, se a mulher passa mal, ela não consegue pedir ajuda.

Desde a publicação do vídeo, a procura aumentou? Quais as dúvidas mais comuns?

O principal ponto é o desespero. Elas chegam sem saber nada sobre [como abortar]. Digo para assistirem ao manual e respondo se a pessoa ainda tiver alguma dúvida. São dúvidas básicas, como a idade gestacional, se de fato está grávida ou não, ou, se ela já tem o remédio, qual a dose, como usar… Essas coisas. No manual, respondo tudo, não são informações proibidas. O protocolo do misoprostol, do Ministério da Saúde, é público.

Muitas mulheres têm medo de falar sobre o aborto com um profissional de saúde e serem denunciadas. Como é a questão do sigilo médico?

Nós, como médicos, só temos que ouvir e orientar para que não haja um novo abortamento. Para mulheres que já abortaram, há um grande risco de haver outro por falha de método contraceptivo, por exemplo. Mas, sim, tem profissionais que denunciam. Muitos acham que podem ser considerados omissos ou coniventes se não denunciarem, mas não é assim. A gente tem que respeitar a autonomia da mulher sobre o corpo.

Se o profissional denunciar a mulher que abortou, ela ainda tem alguma garantia legal com relação a quebra do sigilo médico?

Ela vai ter que denunciar o profissional no conselho da categoria e entrar com processo contra ele. Mas nunca vi isso acontecer.

Como é a ação do misoprostol no organismo?

A mulher pode ter reações de vômito, diarreia e calafrios dentro da primeira hora. Também vai ter cólica, pode ter sangramento, na hora ou depois de alguns dias. São os efeitos relatados mais comuns. Em algumas horas, os resquícios do remédio são eliminados do corpo.

Como saber quando algo deu errado e é hora de procurar um serviço de saúde?

Se tiver sangramento muito intenso (que encha mais de quatro absorventes em duas horas) e começar a sentir tontura, fraqueza, sensação de desmaio. Se desmaiar ou se tiver febre 24 horas depois de ter usado. Também é importante reparar se há sangramento ou secreção com cor ou cheiro diferentes dos do sangue da menstruação, como cheiro de podre, alguns dias depois. Por fim, se tiver dor que não passe com ibuprofeno.

Na clínica, a mulher é obrigada a responder que fez um aborto?

Não, o paciente nunca é obrigado a falar nada. Ela pode falar só o que está sentindo, por exemplo, dizer que estava grávida e agora está sangrando, com dor e febre. Se houver infecção no útero, nós [os profissionais de saúde] já vamos pensar que talvez ela tenha feito um aborto. Mas o tratamento independe da mulher falar. O médico pode suspeitar, mas isso não quer dizer nada. Não é para fazer diferença no tratamento e na orientação sobre opções de contraceptivos.

O Ministério da Saúde tem uma portaria que regula ações de redução de danos resultantes do uso de drogas. Você acha que o ministério deveria criar ações desse tipo relacionadas ao aborto?

Com certeza. Só não existe redução de danos do aborto porque há o recorte de gênero, se trata de mulheres, e na nossa sociedade não há autonomia da mulher sobre o próprio corpo. Como falar sobre algo que as pessoas tomam como inconcebível? Muitas pessoas acham que a pena da mulher que aborta é a pena de morte. As instituições têm que mudar a cultura dos serviços de saúde e da sociedade sobre as mulheres, entendendo que elas são pessoas de direito.

Como o Brasil poderia reduzir a mortalidade de mulheres causada por procedimentos clandestinos?

Descriminalizando e legalizando o aborto até 12 semanas de gestação. Em alguns países, como a França, é até as 14 semanas. E também colocando essa temática na grade curricular dos cursos de saúde, ou seja, o atendimento humanizado a mulheres em situação de abortamento. Mesmo as que sofrem aborto espontâneo são maltratadas. Já ouvi relatos de pacientes e é sempre do mesmo jeito: se pressupõe que a culpa por perder o bebê é da mulher, mesmo que ela não tenha provocado. Ela tem que ser punida e as pessoas se sentem nesse direito em vez de acolher. Teve uma paciente que perdeu o bebê e não conseguia voltar a trabalhar, estava num processo de luto intenso. Nenhum médico queria dar atestado para ela ficar em repouso. Pela lei, ela tem duas semanas de atestado. Os médicos minimizam, como se não fosse nada, sendo que muitas mulheres que têm o vínculo com a gravidez sofrem como se fosse a morte de um filho já nascido.

A pesquisadora Débora Diniz e a pastora Lusmarina Campos vêm sofrendo uma perseguição dura por conta da defesa da descriminalização do aborto durante a audiência pública, em Brasília, na metade do ano. Você contou à Folha de Londrina que já sofreu ameaças de morte por defender a criação do Dia Municipal de Luta contra a Violência LGBTfóbica. A perseguição e as ameaças se intensificaram depois do vídeo?
Não sei dizer se intensificaram porque a gente acaba se blindando. Mas eu sempre sofro algum tipo de ameaça, xingamento. Em uma audiência pública na Câmara de Londrina me chamaram de assassina de bebês. O vereador que me processou até hoje não tirou do ar os posts que fez contra mim, mesmo sendo processado. Em maio, eu fui seguida e multada, me senti ameaçada porque o policial fez um sinal com a mão que não entendi direito. Ele me seguiu numa situação esquisita, tirou fotos do meu carro. Eu fiquei assustada, denunciei o policial, e o caso está na corregedoria da polícia. De modo geral, eu não sou uma pessoa benquista por pessoas conservadoras. Elas me veem como uma ameaça porque questiono as coisas como estão, a medicina como é feita, os preconceitos perpetuados pela prática médica. Muita gente me odeia por causa disso. Até da minha categoria. Mas também tem muita gente que admira o trabalho e apoia, mesmo que escondido. As pessoas têm medo até de dizer que apoiam. Mas nunca deixei de fazer nada por medo.

Você viu casos de mulheres que desistiram de abortar?

A ONG Safe2Choose recebe cerca de 10 mil pedidos de brasileiras por mês. É um número muito absurdo. São mulheres que não têm com quem contar. Várias já desistiram de abortar depois de a gente conversar, mostrar outras possibilidades. Às vezes elas só precisam de uma conversa honesta, sincera, sem julgamento. Uma delas desistiu de abortar e depois me mandou foto do bebê, disse que estava feliz, que só estava passando por um momento de desespero. Quando se pode falar, se organiza melhor as ideias.

Fonte: The Intercept

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