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Dançar num show de strip-tease plus-size me ensinou a ser gorda e sexy

Sempre senti que sensualidade era algo reservado para pessoas magras. O strip-tease ajudou a mudar isso.

Fotos por Jacquie Ray.

Em 14 de dezembro no ano passado, mostrei meus peitos para uma sala com umas 300 pessoas. Minha bunda também. E chacoalhei os pneuzinhos para o deleite deles.

A música com a qual tirei a roupa foi “Criminal” da Fiona Apple, editada para dois minutos e meio, porque era minha primeira vez fazendo strip-tease e eu acreditava fortemente que não duraria mais que isso.

Não sou uma mulher que as pessoas olhariam e pensariam “Ela poderia ser uma stripper”. Por quê? Bom, porque sou gorda, e corpos gordos, mesmo em 2019, são excluídos de serem erotizados.

Um show de strip plus-size parecia o lugar perfeito para desafiar isso, porque strip-tease é agressivamente sexual, deixa pouco espaço para a imaginação e, me disseram, era empoderador. Então eu e minhas amigas Linda Douglas e Elizabeth Flores decidimos estrelar nosso próprio show de strip plus-size chamado Thicc Strip.

A stripper in a red fishent top, swinging on a pole

Fizemos um anúncio de elenco, convidando qualquer pessoa que se identificasse como mulher em Los Angeles para participar, independente de nível de experiência, depois fizemos uma página no Indiegogo. Não atingimos nossa meta no site, mas conseguimos um patrocinador (um aplicativo de encontros chamado HUD) que nos deu dinheiro suficiente para realizar o evento.

Treinamos com uma dançarina e life coach de positividade corporal chamada Cera Byer. Levou algum tempo, mas eventualmente encontramos nosso grupo final de 13 mulheres. Em vez de fazer testes, deixamos qualquer pessoa que se mostrou dedicada ao projeto participar. Algumas já vinham do mundo profissional do strip-tease e burlesco, enquanto outras iam dançar pela primeira vez. Considerando que cada uma tinha uma origem, personalidade, vibe e atitude diferentes, não pude deixar de nos comparar com GLOW, mas, tipo, mais safado. Como éramos muito diferentes, a escolha da música, estilo de performance e nível de nudez ficou por conta de cada artista. Algumas se sentiam mais empoderadas mantendo a fantasia enquanto dançavam, enquanto outras se expuseram completamente.

Sou alguém que se mostra seminua regularmente no Instagram, então eu não achava que estava me sentindo constrangida demais com meu corpo. Mas o processo de me obrigar a sair do reino da internet, onde minhas exibições se escondiam atrás de uma tela, me fez perceber que eu ainda tinha muitas questões para trabalhar em se tratando do meu corpo e erotismo.

Crescendo como uma pessoa gorda, nunca me vi como sexual porque acreditava que meu corpo era incapaz disso. Ser sexy, eu achava, era algo reservado para corpos magros e só eles. Em vez disso, me voltei para o humor. No começo da minha vida adulta, eu me envolvia em atividades sexuais sem me sentir realmente sexy. Eu deixava os homens me comerem, mas me convencia de que eles não queriam estar realmente ali.

A stripper kneeling on a stage

No meio da faixa dos 20 anos, finalmente comecei a questionar por que me sentia desse jeito. Aprendi muito sobre positividade corporal e a noção radical de que todo mundo tem direito ao amor e apreciar a si mesmo. Percebi que meus sentimentos negativos com minha aparência foram impostos por forças exteriores, e não eram como eu realmente me sentia com minha aparência. Foi aí que comecei a desejar ser mais abertamente sexual. Eu queria parar de me esconder atrás de camisetas folgadas, e realmente me tornar a mulher que eu fantasiava ser. Meu eu de fantasia mostrava o corpo sem dar a mínima, usava minissaia e lingerie, e gostava de provocar excitação sexual nos outros. Então foi isso que me tornei. Uma safada gorda com orgulho.

Não teve jornada de perda de peso, nenhum programa de exercícios ou mudança na aparência de nenhum tipo. Acho que até ganhei peso no processo. A única mudança foi uma mudança de atitude.

Avance dois anos, e expor minhas coxas grossas e minha barriga saliente na internet é uma segunda natureza pra mim. Mas ainda incorporo o humor o quanto posso. As fotos que posto são sexuais, mas as legendas geralmente contrariam a sexualidade com uma piada mais leve. Foi só depois de participar do show de strip-tease que percebi quanto esse humor ainda é uma muleta pra mim.

Thicc Strip me obrigou a parar de me esconder atrás de piadas e levar minha sexualidade a sério. Eu tinha que realmente tirar a roupa, sem acabar num tombo de bunda pastelão. Algo que nossa instrutora Cera sempre nos dizia durante os treinos: é muito fácil mulheres gordas nuas se tornarem a base da piada, e temos que trabalhar o dobro para provar que não somos uma piada. Para conseguir isso, não dava só para fingir ter confiança. Tínhamos que realmente ser confiantes. Como alguém que tinha certeza de que essa confiança já estava lá, strip-tease abriu meus olhos para quão vulnerável e assustada eu ainda estava. Aquela garota constrangida ainda vivia dentro de mim, transformando sua exibição em comédia para se proteger de ser levada a sério.

Alison Stevenson stripping on a stage
A autora.

Coloquei o medo e as dúvidas de lado enquanto as semanas passavam. As mulheres com quem eu estava dançando me ajudaram muito com isso. Elas me deixaram saber que eu não estava sozinha. Quando perguntei para a Linda como ela colocou de lado os pensamentos negativos que tinha sobre si mesma, ela disse “Eu estava cansada de deixar esses pensamentos destrutivos ficarem no caminho. Não deixo outra pessoa me colocar pra baixo assim, então por que fazer isso comigo mesma?”

A quantidade incrível de respostas positivas que recebemos das pessoas descobrindo sobre o show também foi um grande impulso para aquelas entre nós ainda duvidando de si mesmas. Os ingressos à venda na internet se esgotaram em uma semana. Quando isso aconteceu, Elizabeth, Linda e eu soltamos um “caralho, está acontecendo mesmo” coletivo. Ficamos aliviadas em ver que o desejo por um evento assim em Los Angeles não estava só na nossa cabeça. No final, o Thicc Strip conseguiu doar $ 551,55 dos lucros para o Downtown Women’s Center, uma organização de fornece assistência para mulheres sem-teto em Los Angeles.

Strip-tease me obrigou a sair da minha zona de conforto. Isso me ajudou a me tornar uma mulher que não sente mais a necessidade de sempre se esconder atrás de uma piada para expressar sua sexualidade. Cada pessoa participando do Thicc Strip tinha seu próprio motivo para estar ali. Esse era o meu. Todo mundo deveria ter uma coisa como o Thicc Strip na sua vida, algo que te desafia a confrontar suas inseguranças e superá-las de cabeça erguida (e às vezes até pelada).

A woman in a mask standing in front of a pink curtain
dollar bills on a floor
A stripper on a pole
A stripper in a msk, clinging on to a pole
A stripper on a stage
A stripper swinging on a pole
A stripper on a stage

Por Alison Stevenson; fotos por Jacquie Ray; Traduzido por Marina Schnoor

Fonte: Vice

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