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Drag queen mais famosa do Brasil, Lorelay Fox saiu do interior para inspirar milhões

Lorelay Fox é um fenômeno. A drag queen seguida por mais de 500 mil pessoas no canal ‘Para Tudo’do YouTube, mobiliza multidões com suas dicas de maquiagem, se destaca como referência comportamental, rompendo barreiras e até fazendo participações na  TV como jurada no programa ‘Superbonita’, do GNT.

“Eu acredito muito que falar sobre diversidade nas escolas é a melhor solução para um futuro mais saudável. É na escola onde começamos a aprender a socializar e temos, ali, o primeiro impacto da diversidade. Se dentro da família convivemos com os nossos, dentro da escola convivemos com todos os outros”.

Protagonista da própria existência, Lorelay nasceu em Sorocaba, no interior de São Paulo. Hoje com 31 anos, Danilo Dabague que começou a se montar há mais de 13, se transformou em referência para pessoas que tiveram sua liberdade cerceada pela homofobia que ainda paira na sociedade brasileira.

Em conversa com Hypeness, Lorelay Fox reflete sobre avanços, a infância em uma cidade do interior, redes sociais, criminalização da homofobia e a importância da ‘Parada LGBT’, apresentada por ela no YouTube, para um futuro inclusivo. Diverso.

O dia da Parada é nossa catarse, pra mostrar que temos força, resistimos e somos fortes e felizes por sermos sobreviventes. A sociedade nos deixa invisíveis o ano todo, o simples fato de estarmos nos holofotes celebrando já é transgressor. Nossos corpos e nossa existência são revolucionários.

Confira a entrevista completa para a Hypeness:

Hypeness – Lorelay, sua visibilidade e exposição seriam possíveis sem as mídias sociais? Digo isso porque muito se ouve por aí sobre a influência e o ódio presente nas redes. Qual a importância do YouTube no trabalho de visibilidade LGBT+?

Lorelay Fox- As redes sociais, principalmente o YouTube, trouxeram a chance de termos nossa voz. Antes, éramos representados pela TV, com personagens estereotipados e que nunca representavam nossa realidade. Hoje, todos os LGBTs e outras minorias podem falar sobre suas vivências de maneira real e isso foi uma grande revolução! Meu canal e diversos outros representam recortes de um público que nunca teve com quem se identificar, mas agora tem, graças às redes sociais.

Hypeness –Você é de Sorocaba, no interior de São Paulo. Existe distinção entre a cultura drag nas grandes capitais e cidades interioranas? Viver em um lugar é mais fácil do que no outro?

Lorelay Fox – Viajei por muitas cidades do Brasil e a cultura Drag muda bastante de região para região! Acredito que nas grandes capitais sempre haja mais liberdade de expressão, menos medo de sair montado na rua e mais oportunidades, com mais casas para shows e eventos. Nas cidades do interior, como Sorocaba, o nicho LGBT é menor, a arte Drag é mais rara, tanto pela falta de oportunidades de trabalho como pela falta de material para a construção da Drag em si.

Hypeness – De que maneiras o ‘Mês do Orgulho LGBT’ proporciona avanços substanciais, em termos de saúde (física ou mental), luta contra a homofobia e liberdade sexual?

Lorelay Fox – É um mês que serve para lembrar a todos que existimos! Para levantar as pautas de políticas públicas necessárias, para mostrarmos que nossa união toma as ruas e permeia a sociedade. Além de ser um mês que mostra aos próprios LGBTs que eles não estão sozinhos, mesmo quem não pode participar de uma Parada, acaba se sentindo representado pelas multidões nas ruas.

Hypeness – São 50 anos desde a Revolta de Stonewall. Partindo do ideal de que a Parada LGBT é um ato político. Qual a participação de junho de 1969? 

Lorelay Fox – Foi em Stonewall que os LGBTs descobriram o poder que tinham se conseguissem se unir por um ideal. Antes éramos vistos como fracos. Sempre tivemos um estereótipo de piada pronta e fragilidade, por muito tempo nós mesmos nos vimos dessa forma! Mas quando a Revolta começou, quando as primeiras pessoas resolveram revidar a polícia que as maltratava cotidianamente, todos começaram a perceber que éramos fortes e que com nossa união poderíamos conquistar a liberdade. A Parada é a representação dessa união que começou naquela noite de revolta no bar Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969.

Hypeness – É possível pensar em uma rebelião nos moldes da Stonewall no Brasil? Dada a urgência do país líder de assassinatos com motivações homofóbicas. 

Lorelay Fox- Já temos na história do Brasil algo parecido, com o Levante ao Ferro’s Bar, uma revolta protagonizada por mulheres lésbicas ocorrida em São Paulo, na época da ditadura, e que causou um estardalhaço na época. Atualmente nossas revoltas estão mais em nível ideológico e político do que num combate como os de antigamente, a revolução de agora é a da conscientização e ação política.

Hypeness – Falando nisso, você aprova criminalização da homofobia junto ao crime de racismo? Dá pra ter confiança na punição de atos homofóbicos em um cenário onde crimes de racismo são desconsiderados?

Lorelay Fox – A LGBTfobia ser considerada um crime, mesmo que a equiparando a crimes como racismo, abre espaço para que possamos levantar estatísticas oficiais que possam corroborar políticas públicas para uma melhor qualidade de vida para nosso grupo. Não acredito que os crimes diminuirão a curto prazo, mas a longo prazo acredito sim que essa medida tenha efeito. Além do bálsamo de esperança que essa criminalização trouxe para as minorias, numa época onde estávamos com tanto medo do nosso futuro, pudemos ver uma luz no fim do túnel e reabastecer nossas forças para lutar.

Hypeness – A criminalização da homofobia sem o trabalho de conscientização da importância da diversidade dentro das escolas, por exemplo, é suficiente?

Lorelay Fox – Nunca vai ser suficiente punir atos homofóbicos enquanto a sociedade não entender o motivo pelos quais eles merecem ser punidos, e a compreensão disso vem das nossas bases educacionais e familiares. Eu acredito muito que falar sobre diversidade nas escolas é a melhor solução para um futuro mais saudável. É na escola onde começamos a aprender a socializar e temos, ali, o primeiro impacto da diversidade. Se dentro da família convivemos com os nossos, dentro da escola convivemos com todos os outros. Recebo muitas mensagens de professores que passam meus vídeos em sala, para explicar sobre gênero, preconceito etc., já que os próprios alunos trazem esses questionamentos. Fico feliz com isso, mas sinto que ainda existe uma carência muito grande dos próprios professores, falta o preparo para lidar com essas questões tão atuais e necessárias, questões essas que são imersas num mar de fake news alienantes.

Hypeness –  Queria que você falasse sobre sua interpretação sobre a arte de ser drag.

Lorelay Fox – A arte drag é transgressora, coloca em evidência os estereótipos onde construímos o que é ser masculino e feminino. Ver homens com roupas femininas causa repulsa, raiva, deslumbramento, admiração… A arte drag é isso: causar um impacto através de uma performance de estereótipos fora dos lugares convencionais. Mas antes desse ato político todo, a arte drag é diversão.

Hypeness – A Parada do Orgulho LGBT mostra que é possível aliar luta com diversão? Você acredita na convivência das duas coisas?

Lorelay Fox – Lutamos o ano todo, para existir dentro da nossa família, para resistir num mercado de trabalho que nos exclui por causa da nossa voz ou nossa aparência, lutamos para sobreviver na prostituição depois de sermos expulsos de casa e da escola, lutamos para provar que podemos ter uma família com duas mães ou dois pais, lutamos para acreditar que não somos um pecado. O dia da Parada é nossa catarse, pra mostrar que temos força, resistimos e somos fortes e felizes por sermos sobreviventes. A sociedade nos deixa invisíveis o ano todo, o simples fato de estarmos nos holofotes celebrando já é transgressor. Nossos corpos e nossa existência são revolucionários.

Matéria Hypeness/Fotos: Reprodução/Instagram.

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