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Drª Luisa Cherubini: O amor é o remédio.

Luisa Cherubini, médica endocrinologista, bateu um papo com a gente e falou um pouco sobre sua experiência em levar cuidados médicos a comunidades em Moçambique, através da ONG Missão África. O que ela não sabia é que aprenderia muito mais do que esperava.

Confira entrevista completa:

PD: O que te motivou a escolher a sua profissão? Antes de ser médica, pensava em outro segmento?

LC: Decidi que queria medicina no primeiro colegial, após meu namorado ter passado por um acidente onde ficou muito mal, daquele dia em diante, decidi que queria ajudar a curar a dor das pessoas. Pensei em uma única coisa antes, oceanografia, tenho paixão por animais.

PD: Fale um pouco sobre a sua área de atuação.

LC: Hoje em dia trabalho muito mais do que já imaginei trabalhar. Atuo na área de endocrinologia e medicina interativa, mas tenho uma grande paixão que é a emergência hospitalar. Acho que não vou conseguir deixar a emergência nunca. É paixão sabe? Ali você consegue ajudar quem realmente precisa e a gratidão dessas pessoas não têm preço. Não tem coisa melhor que ouvir um muito obrigado.

PD: Vivemos em uma sociedade que impõe padrões quase que inatingíveis. Qual a sua opinião sobre a busca incessante ao corpo perfeito?

LC: A busca pelo corpo perfeito hoje em dia chega ser hipocrisia. Vivemos em uma sociedade onde nunca se está satisfeito, sempre se quer mais. A sociedade impõe tantos padrões que as pessoas acabam cometendo loucuras para ter o famoso corpo perfeito e se esquecem que a saúde é primordial em nossa vida. A beleza não dura para sempre. Precisamos cuidar de dentro, precisamos de menos capas e mais conteúdo.

PD: Você é uma mulher muito bonita. Em algum momento da sua carreira, você já sofreu algum tipo de assédio? Já subestimaram a sua capacidade profissional por conta da sua aparência física? Caso isso tenha acontecido, como reagiu?

LC: Muitas vezes! Primeiro acham que mulher não pode ser médica, já começa aí o preconceito. Ser mulher, bonita e médica? É considerado absurdo. “No mínimo tem que ser burra”. Eu sempre reagi da mesma forma. Em primeiro lugar, me imponho e depois como médica. Tenho essa carinha, mas sou bem brava! A partir do momento em que se está no meu consultório, eu exijo respeito para poder respeitá-lo. O assédio é diário, principalmente com brincadeirinhas, mas minha reação é sempre fingir que não ouvi ou continuar explicando a situação do doente até ele ficar sem graça e perceber que não estou de brincadeira.

Foto: Reprodução/ Luisa Cherubini

PD: Você participou do “Missão África” em Moçambique, que é considerado um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo. Por que escolheu esse lugar?

LC: Quando entrei no meu primeiro ano de medicina esse sonho simplesmente nasceu. Ninguém me motivou ou me chamou. Um belo dia disse pra minha mãe: “Mãe, quando eu acabar a faculdade vou pra África.” Óbvio que ela aplaudiu e achou super bacana, mas no fundo acho que não acreditava que eu estava falando sério. Nunca falei pra ninguém dessa minha vontade, apenas pra ela e pra uma tia. Assim que me formei, me mudei para Limeira e comecei a procurar como poderia ir pra lá. Foi quando descobri a ONG Missão África. Não sei explicar o amor que tenho por aquele país, não sei explicar o por quê daquele lugar, mas mudou a minha vida. Eu achei um pedacinho que faltava no meu coração como se fosse um pedacinho que tinha se perdido em algum momento da vida. Lá encontrei uma paz que nunca tinha sentido em momento algum. Foi quando Espírito Santo me tocou.

PD: Só médicos podem participar? Conheceu pessoas de outras áreas de atuação? Se sim, como é que elas contribuíam para a missão?

LC: Não são só médicos que podem participar. Eu costumo dizer que todo mundo que tiver amor para dar, pode participar. Amor de verdade, do coração. As pessoas ajudam com doações, com as tarefas do dia-a-dia, a preparar o leite para as crianças, a fazer atividades infantis. Existem dentistas também, que fazem um trabalho super importante. Eu gostaria de ter tido tempo de brincar mais com as crianças, elas têm tanto amor pra dar.

PD: É impossível não rever conceitos e questionar nossos privilégios após uma experiência como essa. O que mais lhe chocou?

LC: Na verdade a pobreza e a carência são muito grandes. As doenças são destruidoras, e zero de recursos. Não tem água potável, não se tem saneamento básico, não se tem roupas e muito menos comida. As doenças em si não me chocavam tanto, por conviver com enfermidades no hospital, mas a fome… Isso me matou! Como pode uma criança de 14 anos nunca ter sentido gosto de leite? Isso é inadmissível! Isso dói.

A fome foi o que mais me chocou.

Foto: Reprodução/ Luisa Cherubini

PD: Quais eram as atividades que você, quanto medica, desenvolvia em Moçambique? Quais eram as condições de lugar e equipamentos? Cite alguma experiência que retrate.

LC: Trabalhávamos todos os dias em atendimentos, tanto adulto quanto infantil. Acordávamos cedo e íamos até as comunidades. Os atendimentos eram feitos onde dava – embaixo de árvores, em igrejas… Onde conseguíssemos reunir as pessoas para atender, atendíamos. Condições precárias. Só tínhamos o que trouxemos do Brasil. O principal era nosso, exame físico e medicamentos, pois lá não existe hospital próximo, o mais perto ainda era muito distante da comunidade. Era se virar com o que tínhamos mesmo. Um atendimento que dei na segunda viagem me chocou muito. Paciente mulher, 32 anos, com HIV. Fui até sua casa para atendê-la, pois ela não conseguia se locomover. Quando cheguei ela estava deitava em um lençol embaixo de uma árvore junto à umas 4 crianças tipo escadinha (3 anos, 2, 1 e um bebê de colo). Fizeram uma cabaninha com lençol pra eu examina-la ali mesmo embaixo da árvore. Quando olhei as lesões, me deu um desespero, porque sabia que não tínhamos o que fazer. Não tinha hospital, não tinha como levá-la para um ginecologista, não tinha nada que pudesse ser feito. Nada! Nessas horas bate um desespero, um questionamento com Deus. Por que tudo isso? Mas temos que enfrentar a realidade e ajudar da melhor forma possível. Seja com uma doação, uma palavra de afeto ou um prato de comida.

PD: Está intrínseco ao bom médico a necessidade de ajudar o outro, a satisfação em fazer o bem é o que move esse profissional. Mas fazer o bem deveria ser uma atitude corriqueira, feita por qualquer indivíduo. Finalize essa entrevista contando sobre a Luisa antes e depois da missão.

LC:  Essa é muito fácil, mas ao mesmo tempo complicado, porque só em falar, a emoção vem à flor da pele. Eu queria que cada um pudesse sentir o que eu senti. O amor, a paz. A vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. A vontade de largar tudo e virar uma missionária de alma e ao mesmo tempo saber que não é bem assim, que não devemos ser tão extremos. Aquele lugar mexeu muito comigo. E falo para quem quiser ouvir: Eu me tornei uma pessoa melhor, uma mulher melhor e uma profissional melhor. Agradeço por tudo, todos os dias. Hoje eu sou feliz.

Quando fui pra África fui pra levar a Medicina, para ajudar como médica, mas lá eu fui salva. O amor daquelas pessoas me salvou. Fui muito mais ajudada do que ajudei. Acho que tinha feridas na alma e tenho certeza absoluta que quando senti o Espírito Santo eu me curei. Hoje tento a cada dia ser uma pessoa melhor. Tento transmitir pelo menos 1% do que eles transmitiram pra mim. AMOR! O amor cura! A África roubou um pedacinho do meu coração.

Foto: Reprodução/ Luisa Cherubini

2 comments

  • equipe

    Matéria muito linda !!!!! Bom saber, ver e ler que aInda existem pessoas do bem nesse mundo!!

  • equipe

    Parabens Dra Luisa peLo seu amor ao proximo o que a abencoou com seu crescimento profissional e espiritual ! Nunca desiSta ee fazer a diferenca pois ajudar ao proXimo sem que possa ter uma contrapartida. E um sentimento maravilhoso que muitis sentem mas piucis poe em orstics isso e um dom de deus 🙏🌹😘

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