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Fabiana Saba: minhas celulites, gorduras e dobras carregam minha história

O universo da moda é objeto de desejo de muitas adolescentes. Holofotes, fama, reconhecimento e grandes oportunidades são fortes chamarizes para grande parte das garotas. Contudo, esse mesmo universo atraente e aparentemente perfeito esconde muitas particularidades perigosas para a autoestima e até para a saúde de quem está envolvido. Peso, medidas, pele: tudo deve estar impecavelmente “no lugar”. E é atrás dessas rígidas regras que se esconde o lado sombrio das passarelas e das grandes capas de revistas: a exigência por um padrão estético muitas vezes inalcançável que afeta a autoestima tanto de modelos quanto da maioria das mulheres.

Conversamos com a modelo curvy Fabiana Saba, que apesar de sua beleza incontestável, afirma que sempre teve problemas em se ver como uma mulher bonita. Nesta entrevista para o Papo Delas, ela relata algumas das suas dificuldades e comemora a aceitação do seu corpo.

Fabiana Saba (Foto esquerda: Wes Leitorezan/ Foto direita: Gail Hadani)

Fabiana Saba

Fabiana é modelo brasileira e ex apresentadora de TV. Nos anos 90, brilhou como garota-propaganda de marcas como Reinaldo Lourenço e H.Stern, além de ter feito a primeira campanha da Maybelline na América do Sul. Lançada com Gisele Bündchen no concurso “Look of the Year”, em 1994, ela chegou a trabalhar na TV em 2000, apresentando os programas “Interligados” e “Superpop”, da Rede TV. Nas passarelas, desfilou nas principais cidades do mundo da moda: Paris, Tóquio, Nova Iorque e Milão.

Foto: Arquivo pessoal

Fabiana Saba e Gisele Bündchen em um editorial da Vogue em 1995 (Foto: Arquivo Vogue)

Fabiana largou a carreira no Brasil para morar em Nova York com o marido, mas a opção pela rotina de mãe e mulher mudou a sua vida como também o seu corpo. Depois de dar à luz e engordar 30 quilos, Fabiana passou a sofrer com comentários indelicados, além de batalhar com sua própria autoestima.

Os ensinamentos de Fabiana ultrapassam o mundo da moda e servem de exemplo para muitas mulheres. Na coluna Elas Inspiram vamos conhecer um pouco mais dessa mulher incrível, sua história e seus aprendizados.

Fabiana e família (Foto: Arquivo pessoal)

PD – Fabiana, conta pra gente um pouco da sua vida, de onde você veio, onde nasceu, sua formação e o que você fez até chegar onde chegou.

Fabiana – Nasci em São Paulo (Capital) em 1977, onde estudei até o segundo colegial (na FAAP), pois foi quando saí do Brasil para modelar. Muitos anos depois, com quase 30 anos, já de volta a NY (tinha largado para trás a moda e a TV e recomeçado a vida aqui), eu tirei meu GED (equivalente ao supletivo) e fiz Psicologia. Infelizmente ainda falta para acabar a faculdade e sempre penso em voltar.

PD – Como foi a sua entrada no mundo da moda?

Fabiana – Aos 13 anos, depois de pedir muito para minha mãe pra ser paquita ou sair na capricho, achando que assim as crianças que me zoavam na escola iam ter que me achar legal – cabeça de pré-adolescente não é fácil, né (risos!) -, ela finalmente concordou em ligar para a revista, pedir o número do fotógrafo – era o Morgade – e fazer um book, achando que assim eu não falaria mais no assunto. Logo depois me chamaram para fazer  a Capricho e não parei mais.

PD – Sabemos que a carreira de modelo exige um padrão estético específico e que muitas agências possuem protocolos bem rígidos. Como você acha que isso afeta o comportamento de modelos?

Fabiana – Pode chegar a deixar muitas meninas doentes, afinal são jovens, formando sua identidade, com inseguranças, sendo pressionadas e julgadas unicamente por sua aparência.

PD – Você chegou a presenciar algum comportamento inadequado entre modelos para se manter no “padrão” exigido? Se sim, qual?

Fabiana – Sim, não são todas, mas vi várias meninas com distúrbio alimentar, algumas nem sabiam que tinham, pois os sintomas nem sempre eram tão óbvios.

PD – Por que você escolheu deixar a carreira de modelo? Em algum momento se arrependeu?

Fabiana – Eu deixei a carreira de modelo para ir para a televisão e para reatar um relacionamento em que eu precisaria voltar a morar em NY.

PD – Como você lida com a sua autoestima? Já teve algum problema relacionado a ela?

Fabiana – Tive vários problemas com a autoestima em diversas fases da minha vida. Fui muito “zoada” na escola e me sentia horrorosa. Depois virei modelo e mais uma vez meu valor estava somente em meu exterior. Depois de ter minhas filhas eu engordei e comecei a ter problemas com autoimagem.

“Hoje, depois de terapia, de escolher parar de seguir nas mídias sociais quem me faz mal, começar a seguir mulheres maravilhosas que dividem suas jornadas me inspirando e de ter dividido minha história, finalmente consigo ter paz com a menina do espelho. Mas é algo que tem que ser trabalhado constantemente.”

PD – Após o nascimento de suas filhas você engordou e sabemos que em muitas mulheres isso traz desconforto. Como se deu sua mudança com o ganho de peso? Você sempre conseguiu lidar bem com isso ou não?

Fabiana – Não lidei nada bem com isso. Tinham pessoas falando: “como você pode deixar isso acontecer com você? Você era tão linda…” Isso mexia muito comigo. Além disso, o que eu via no espelho era algo inadequado, sem valor, algo assustador. Eu me sentia muito culpada por ter feito isso comigo.

Fabiana Saba em clique antigo e atualmente (Foto: Reprodução/Instagram)

“Com ajuda de mulheres maravilhosas na internet, hoje vejo isso tudo bem diferente, afinal, essa minha barriga fofa carregou duas meninas maravilhosas. Essas celulites, gorduras, dobras… Carregam minha história, minha alma.”

PD – Como as pessoas reagiram ao seu aumento de peso? O fato de ter engordado interferiu nas suas relações no meio profissional?

Fabiana – Sim! Algumas pessoas do meio me trataram diferentes e outras achavam que era ok me dar “dicas” de que eu precisava emagrecer. Mas claro, nem todo mundo, existem também pessoas maravilhosas nesse meio, inclusive que querem quebrar o padrão na moda.

PD – O que te motivou a retomar a carreira?

Fabiana – Saber que eu podia inspirar outras mulheres e mostrar que beleza existe em todos os formatos, aliás, o que é beleza, né?

PD – Como é a sua relação consigo hoje?

Fabiana – Hoje, aos 40 anos, finalmente estou em paz. Claro que ainda tenho dias de insegurança e autocrítica, mas aí eu lembro que tudo isso foi imposto pela mídia e o mercado da beleza, que existe muito mais em mim do que o meu exterior.

“Uma coisa que vem quando a gente vai ficando mais velha: saber que sou uma grande mulher porque passei por muitas coisas pra chegar aqui e mesmo não sendo “perfeita” já tá bom!”

Foto: Naked Fotografia/Instagram

PD – Na sua opinião, a internet piorou a relação das pessoas com o corpo?

Fabiana – Sim e não. Claro que a essas pessoas que mostram corpos “perfeitos” sem nunca falar a verdade de como chegaram ali, que valorizam extremamente o corpo e recebem gratificação (seguidores) por serem assim acabam levando muitas mulheres a se sentirem inadequadas, mas se a gente procurar bem, nessa mesma internet existe uma sororidade maravilhosa. Uma rede do bem que nos ensina, inspira e faz ter certeza que jamais estamos sozinhas.

PD – Para você, qual a importância da autoaceitação na construção da autoestima?

Fabiana – É muito importante a autoaceitação, mas também ter empatia e compaixão por nos mesmas nessa jornada é muito essencial.

PD – Qual o maior aprendizado que tirou das suas mudanças?

Fabiana – Humildade pra saber que sempre tenho o que aprender. Sororidade, sabendo que retribuindo e contando minha história estou inspirando, mas também aprendendo. E que somos muito mais do que rótulos. Nossa beleza está ligada a uma série de coisas e nosso corpo é só uma delas. Ah, e esse corpo é aquele que falei, que carrega sua história, então dê uma chance de olhá-lo com mais amor.

Foto: Naked Fotografia/Instagram

PD – Algo que gostaria de dizer a todas as mulheres.

Fabiana – Precisamos umas das outras. Quando conseguimos tirar os óculos que nos fazem só enxergar um tipo de beleza e vermos o quanto somos lindas, imperfeitas, únicas, quando olhamos para outras mulheres e enxergarmos suas verdadeiras belezas, estaremos prontas pra fazer as pazes com a menina do espelho. E lembre-se, essa merece aquele papo que você daria pra sua melhor amiga, então, comece essa conversa com você com amor, compaixão e paciência.

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