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Carreira, luta e Feminismo. Um #PapoSério com Jéssica Senra.

As mulheres já conquistaram bons espaços, mas estamos longe do ideal. Em uma sociedade que valoriza mais a beleza, delicadeza e submissão feminina do que sua competência, questionar essa imposição, ser bem-sucedida e ocupar espaços que até então eram hegemonicamente masculinos, são um ato de revolução.

Convidamos Jéssica Senra para falar sobre feminismo, referências e os mecanismos que devemos usar para superar as opressões em um #PapoSério, confira entrevista completa:    

PD: O que é feminismo para você?

JS: O feminismo é uma luta de todas as pessoas que desejam mais igualdade entre os seres humanos. O nome às vezes assusta, porque parece ser o oposto do machismo no sentido de colocar mulheres superiores ao homem, o que não é verdade. É igualdade entre os gêneros.

Também, na tentativa de enfraquecer a luta, colocam um tom pejorativo nas feministas, como se ser feminista fosse coisa de mulher mal-amada, que odeia os homens e coisas do tipo. Mas é uma luta tão bonita que vai encantando a gente conforme vamos aprendendo e discutindo mais o tema. É o esforço por enxergar o valor de cada ser humano e acabar com privilégios de poucos.

PD: Qual foi o seu primeiro contato com o feminismo?

JS: Eu fui educada, mesmo sem saber, por uma feminista. Minha mãe nunca usou este termo, talvez nem ela saiba que é feminista, mas desde criança ela se queixava das diferenças no tratamento de meninos e meninas. Seus irmãos eram autorizados à certas coisas que minha mãe e suas irmãs não poderiam e ela se rebelou quanto a isso a vida toda!

Meus pais se separaram quando eu era bem pequena e fui criada por uma mãe que voltou ao mercado de trabalho e se dividiu entre os papéis de mãe e pai dentro de casa e de profissional na rua. Nunca aceitou ficar em um lugar imposto pela sociedade – seja o da esposa infeliz que aceita tudo do marido, o da mulher frágil e dependente ou da profissional que só pode chegar até um patamar. Me lembro de inúmeras vezes o pneu do carro furar e minha mãe descer para trocar. Era ela quem trocava lâmpadas, desentupia as pias de casa e todas essas coisas que supostamente seriam coisas de homem. Minha mãe sempre fez os “papéis de mulher e de homem” com igual habilidade e sempre foi extremamente carinhosa e amorosa comigo e meus irmãos. Mulher batalhadora mesmo, retada, forte. Nunca tinha pensado sobre isso, mas acho que meu feminismo vem daí.

PD: Quando você se descobriu feminista?

JS: Não sei dizer quando ouvi o conceito pela primeira vez, quando me identifiquei como feminista. Como disse, sempre fui feminista mesmo sem saber. Porque sempre tive essa ânsia pela igualdade entre as pessoas.

Escolhi ser jornalista para mudar o mundo, por exemplo. Durante o meu trabalho, sempre tive que noticiar casos tristes de mulheres violentadas sexualmente ou agredidas e mortas por companheiros e ex-companheiros. Isso me fez buscar explicações para estas violências tão graves e tão comuns na nossa sociedade. E me deparei com o machismo, com a ideia de dominação das mulheres por parte dos homens, com o senso de propriedade que homens têm em relação às mulheres, com a objetificação das mulheres…

Acho que foi a partir dessa busca por respostas e por maneiras de prevenir essa violência que fui me aprofundar no tema.

“Eu sou bem informada, tenho opiniões, coragem, sei me comunicar com meu público…

Ofereço muito mais que minha aparência!”

PD: Como a mulher é vista na sua área de atuação?

Foto: Reprodução

JS: As mulheres já conquistaram bons espaços na televisão, mas estamos longe do ideal. Eu, por exemplo, hoje apresento um programa jornalístico popular, que sempre foi território exclusivo dos homens. Aos poucos, vamos mostrando nossa capacidade, mas, em via de regra, a mulher na TV ainda ocupa um papel semelhante ao que se entende por nosso lugar na sociedade – o de servir ao homem. Neste caso, ser um objeto belo para ser apreciado. Sim, há uma exigência estética geral na TV, mas para o homem há mais flexibilidade para estar acima do peso, com mais idade ou não corresponder aos padrões. A mulher na TV, antes de ser competente, tem que ser bela. E muita gente acha que falar da beleza é o melhor elogio que se pode fazer à mulher. É legal se sentir bonita, mas nós queremos e somos mais. Com tudo o que conquistei, por exemplo, ainda gostam de se referir a mim como “a bela das manhãs”. Ora, eu não sou líder de audiência há dois anos por causa dos meus belos olhos! Eu sou bem informada, tenho opiniões, coragem, sei me comunicar com meu público… Ofereço muito mais que minha aparência! Alguém se refere aos meus colegas homens como “belo da tarde”? E veja que muitos programas ainda objetificam a mulher, como se ela fosse apenas um pedaço de carne, objeto sexual. Vide os inúmeros programas que mostram mulheres seminuas e rebolativas. É uma pena que muitas mulheres ainda se submetam a isso.

Recentemente, vimos o caso de uma entrevista absurda num programa de esportes que fazia perguntas de duplo sentido à musa do time do Goiás. Foram feitas perguntas sexistas como “Se o seu nutricionista mandar você chupar uma laranja porque faz muito bem para a saúde, você chuparia um saco por dia?”, “Em um clássico contra o Vila, se o juiz põe para fora, você mete a boca? “e “para uma musa não sofrer dores localizadas, é importante o médico colocar compressa?”  Graças a Deus, o programa foi tirado do ar. Não há mais tolerância para esses absurdos.

PD: Você já sofreu algum tipo de violência de gênero? Conte um pouco dessa experiência.

JS: Não me lembro de ter sofrido violência física, mas psicologicamente já fiquei abalada em relacionamentos com pessoas machistas e que me fizeram acreditar que eu tinha um comportamento inadequado. Quando um familiar, amigo ou companheiro te diz que “isso não é coisa de mulher”, ele/ela te censura, tenta te impor limites na expressão do seu ser, tenta te convencer que você está sendo inadequada. Já tentaram dizer que eu queria ser “o homem da relação”, que não me comporto como uma mulher, que sou muito rebelde e questionadora. Como se isso fosse um defeito. Ao fazer isso, tentaram me colocar num lugar que o sistema patriarcal escolheu, o de mulher submissa e obediente. Quando você não faz isso, é criticada, oprimida e tentam te fazer sentir como se você não fosse “normal”, como se você fosse problemática, como se fosse errado ser quem você realmente é. Isso traz danos, lógico. Sobretudo na nossa autoestima. Isso nos enfraquece. Mas estudar o feminismo, entender esses mecanismos, buscar o autoconhecimento… Tudo isso ajuda a superar essa opressão.

PD: Qual é a importância do feminismo?

JS: Cada dia vejo mais a importância do feminismo para tantas coisas! Para nossa autoestima, para a luta pelo fim da violência contra a mulher, contra os abusos sexuais, pela igualdade de direitos entre os seres humanos, pelo direito de existir, pelo fim das diversas formas de opressão… O feminismo provoca muitas discussões e nos faz repensar a nossa sociedade como um todo.

PD: Estamos na terceira fase do feminismo e temos ganhado cada dia mais espaço. Como você enxerga o feminismo nas próximas gerações? Podemos ter esperanças de um futuro mais justo para as mulheres?

JS: Eu acho que a luta pela igualdade é um caminho sem volta. Penso que cada dia mais vamos avançar. Vejo que o machismo e o sistema patriarcal estão muito ultrapassados e não condizem mais com tudo o que buscamos e ansiamos como sociedade. Falta ainda informação, conscientização, mas estamos na Era da Informação, da Tecnologia, em que o conhecimento se espalha com mais rapidez. O sistema patriarcal privilegia uns poucos e oprime muitos, não apenas as mulheres; oprime gays, lésbicas e trans; oprime negros, índios; pessoas com deficiência; classe trabalhadora; oprime as ditas “minorias”, mas que se você for somar vai perceber que formam uma grande maioria. Quando toda essa gente despertar, vai ser difícil manter o privilégio de uns poucos. Quando todos perceberem que o sistema nos faz oprimirmos uns aos outros e isso não traz bem-estar para ninguém, daremos um grande salto. Quando nos dermos conta de que uma sociedade colaborativa é mais lucrativa para todos, derrubaremos essa ideia desagregadora de competitividade.

PD: De que forma podemos ensinar o feminismo a homens e mulheres que não possuem o mesmo acesso a informação que classes mais abastadas possuem?

JS: O feminismo é um grande desafio a todas as classes, não apenas às menos abastadas. Porque o machismo está em todas as classes. As bases do sistema patriarcal e seus discursos são reverberados por Igrejas, Mídias, Estados e diversas grandes forças detentoras de poder. Se utilizam argumentos como “é natural que a mulher seja assim e o homem seja assado”; ou “Deus quer que a mulher seja submissa ao homem”. Os espaços de Poder, como a política, ainda fecham as portas para as mulheres. Detentores do Capital ainda relutam em dar oportunidades às mulheres ou se negam a pagar o mesmo para homens e mulheres na mesma função. São barreiras muito difíceis de serem ultrapassadas, porque o feminismo desafia essa ordem e esse sistema de privilégios. Isso amedronta a muitos, mas creio que a tecnologia pode e vai ajudar neste processo. Seja porque é possível encontrar conhecimento gratuito na internet, seja porque há uma cobrança social muito grande e as grandes mídias precisam se abrir para esses conceitos sob o risco de serem engolidas e desaparecerem. Hoje eu consigo, em plena TV aberta, falar sobre feminismo e acho que isso faz chegar essas reflexões a muita gente, mas sinto que ainda falta repertório, falta educação básica para que me entendam. Então a luta é essa, ir ampliando os espaços de discussão e quando ficar claro que o fim do patriarcado vai beneficiar a maioria, quando homens perceberem que o machismo também é prejudicial a eles, por exemplo, ganharemos muitos aliados na nossa luta.

“Não acredito em mulheres contra homens.

Acredito em homens e mulheres buscando juntos soluções para viverem melhor.”

 

PD: No feminismo, o papel do homem também é importante. De que maneira você acha que os eles podem colaborar para a causa? De que maneira eles devem se posicionar?

JS: Muita gente acha que feminismo é coisa só de mulher. Que todo homem é machista e toda mulher é feminista. Ledo engano. Há homens feministas, assim como há mulheres machistas e o fato de existir homens feministas é extremamente importante para que essas lutas não se transformem em nós versus eles.

Não acredito em mulheres contra homens. Acredito em homens e mulheres buscando juntos soluções para viverem melhor. Vejo o machismo opressor para mulheres e para homens também. Quando falamos da construção dos gêneros, quando definimos as características específicas de homens e de mulheres, obrigamos que todos sejam apenas daquela maneira e não podemos ser quem realmente somos. No caso dos homens, você não acha que também há uma pressão muito grande sobre eles? Para que sejam fortes, corajosos, que sejam responsáveis pelo sustento da família, que não sejam sensíveis… E aí você vê problemas como, numa casa em que o homem ganha menos que a mulher, este homem muitas vezes acaba se sentindo “menos homem”. Porque se impôs que o homem fosse o responsável pelo sustento da família. Quando determinamos que os cuidados com os filhos são responsabilidade exclusiva da mulher, negamos ao homem a possibilidade de participar ativamente da criação dos seus filhos, de estabelecer uma conexão que é reforçada nas trocas de fralda, no dar de comer, no colocar para dormir… O homem, que também tem sentimentos, não pode demonstrá-los porque “isso não é coisa de homem” – “homem não chora”. E muitos acabam manifestando suas tristezas, raivas e frustrações da única maneira que lhes permitem: através da violência. A masculinidade ainda é muito associada à violência e isso é muito prejudicial para toda a sociedade. Ou seja, quando os homens perceberem que este sistema também é prejudicial a eles, como já estão percebendo, faremos mudanças como as que já estão acontecendo, nos lares, nos trabalhos, na sociedade. A parceria entre homens e mulheres é mais benéfica para ambos do que a opressão e a submissão.

PD: Como você enxerga a apropriação do feminismo como estratégia de vendas de determinadas marcas?

Se por um lado pode parecer oportunista por parte de algumas marcas, que utilizam discursos feministas com o objetivo de vender seus produtos, prefiro enxergar como mais uma conquista, mais uma arma na nossa luta. É reconhecimento da nossa importância, do nosso empoderamento, é mais uma voz a falar por nós e replicar nossos valores. Acho que as grandes marcas são muito importantes nesse processo e são muito bem-vindas. Comemoro e fico alegre a cada comercial que reforça nossos valores; com cada marca que deixa de produzir comerciais machistas e sexistas, como as cervejarias já estão fazendo. Isso mostra que estamos avançando.

PD: Para uma mulher que não conhece o feminismo quais referências e títulos você indicaria para começar essa jornada?

Foto: Reprodução Instagram

JS: Eu acabei de ler um livro muito legal e de fácil leitura, que é o Feminismo em Comum, de Márcia Tiburi. É um bom livro para começar a entender o feminismo, de onde ele vem e como ele colabora para que a gente discuta a sociedade como um todo. A autora parte do feminismo para mostrar como o sistema patriarcal utiliza a construção dos gêneros, determinando o que é “natural” e adequado a cada um, como forma de opressão às mulheres e maneira de manter seus privilégios. E como essa submissão feminina colabora com as desigualdades sociais e a violência. E ela vai além. É bem interessante. Pensar o feminismo é pensar sobre toda a estrutura social baseada na opressão de muitos por alguns poucos, é questionar o que nos foi imposto como “verdade” e “natural” e buscar mudanças que tragam mais igualdade e bem-estar para todos.

Há o clássico “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir – É um livro grande, em dois volumes, que dá um bom repertório sobre o assunto. Estão na minha fila de leitura também “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”, de Judith Butler, que discute a construção dos gêneros. Isso é muito importante. Veja que o sistema se fortalece quando a gente diz que só há dois gêneros possíveis, o feminino e o masculino, e que há características “naturais” de cada um: o homem é forte, corajoso, inteligente, ousado; a mulher é frágil, sensível, resignada. Percebe como as características de empoderamento estão colocadas para os homens? Mas quantas mulheres fortes, corajosas e ousadas você conhece? Quando nos manifestamos assim, somos logo criticadas, dizem que queremos ser “homens”, como se essas características só pudessem pertencer a eles.

Também estou para começar a leitura de “Feminino e Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças”, de Rose Marie Muraro e Leonardo Boff, que propõem uma discussão sobre a importância de homens e mulheres, em patamar de igualdade, elaborarem estratégias de salvação da humanidade e do próprio planeta Terra.

 Mas, além dos livros, eu gosto muito de acompanhar perfis na internet, sobretudo no instagram, sobre o tema. Em memes simples, a gente vai entendendo conceitos. Em postagens curtas, vamos aos poucos assimilando as ideias. Mesmo que alguns pareçam bem radicais – é normal, às vezes algumas feministas exageram no tom, talvez para chocar mesmo.

Não quero citar nenhum porque há vários! E quando você segue um, aparecem diversos outros. E há muitos perfis que não se intitulam feministas, mas também colaboram para o empoderamento feminino, como o de mulheres acima do peso que pregam o auto amor, por exemplo. Ou seja, é uma grande teia que fortalece o movimento. E acho que cada um pode ir encontrando perfis e pessoas com quem tenha afinidade.

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