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Festa de Iemanjá e suas diversas manifestações de fé

Antes de tocar os pés no mar é bom levar no corpo alguma proteção: uma oração pedindo a Iemanjá, Oxum e Xangô que dê andamento aos desejos e faça com que os inimigos não te alcancem. O ritual, acompanhado de batida de folhas, pó de pemba, arroz, sementes de girassol e milho branco – tudo bem regado a essência com cheiro de lavanda e jasmim – é o conselho é da Ialorixá Renata de Jesus.

Desde a madrugada, dispostas em estandes espalhados pela praia, pelo menos 50 outras mães de santo cuidaram igualmente dos fiéis e curiosos que circulam pelo bairro do Rio Vermelho, durante a festa em louvor à Rainha do Mar, no dia 2 de fevereiro, quando as águas calmas e areias quentes das praias do bairro recebem milhares de pessoas. Normalmente trajados de azul e branco – embora não exista regra para a expressão da fé -, eles vão munidos de devoção e presentes.

Foto: Bruno Concha/Secom

Ritual – É partindo dessa devoção, tanto à orixá, que representa a maternidade e a fertilidade feminina, quanto ao mar, companheiro de todas as horas, que a artista plástica carioca Uceli Cardoso e o baiano Raimundo Nonato – o mestre de capoeira Tico Camaleão -, ambos surfistas, participam há mais de três décadas de uma tradição alternativa durante o dia de homenagem a Iemanjá.

Na companhia de outros 40 surfistas, a dupla comanda um ritual de pura espiritualidade, envolvendo o estilo de vida que escolheram – com o surf no centro das ações – e a fé contida no entorno da atividade. Todo dia 2 de fevereiro, antes do amanhecer, a comitiva deixa a Praia da Paciência rumo à Colônia de Pescadores. À frente, um pranchão carrega um balaio ornado com as cores de Iemanjá. Em seu interior, estão perfumes, flores, espelhos e frutas, como é comum à tradição da deusa.

Foto: Bruno Concha/Secom

“Após a entrega do presente, nos reunimos na areia, dispomos as pranchas em círculo e oramos, pedimos proteção e agradecemos por mais uma alvorada. No final todos aplaudem e fazem seus rituais particulares em reverência à Rainha”, descreve Tico Camaleão, 60, que é morador de Itapuã, mas frequentador da Festa de Iemanjá desde a infância. Baiana por opção, Uceli Cardoso, 62 anos, completa a fala do companheiro de mar e fé. “É uma honra poder entrar no mar todos os dias, sob as bênçãos de Iemanjá. A representatividade da mulher, a força, a tradição, todo o contexto envolvendo Iemanjá é de grande importância para quem tem amor, fé e devoção pelo mar”, diz emocionada.

Eterno retorno – No Rio Vermelho, a fertilidade – e até mesmo a sensualidade – presente na tradição de Iemanjá é posta à prova desde o nascer do sol até o poente, conforme explica a surfista. “Uma das cenas mais lindas que já presenciei nestas águas aconteceu há uns dez anos. Durante a travessia de pranchas, percebemos que um dos pequenos barcos que carregavam presentes estava um pouco distante e alguns de nós paramos para ver o motivo. Chegando um pouco mais perto percebemos que havia um casal em intimidade. Bem desinibidos, eles não se incomodaram com nossa presença e prosseguiram com seu ritual particular. Afinal, o amor também é um presente”, concluiu.

A tradição familiar é o que faz a dona de casa Jaqueline Santos, 32, e a filha, Leandra, de oito anos, vestirem o azul de Iemanjá todo dia 2 de fevereiro. Elas herdaram a devoção da mãe de Jaqueline, a Ialorixá Suzana Santos, 63, que, em contraste com as duas figuras femininas ao seu lado, veste branco, “para pedir paz”. “Temos muito a agradecer à Rainha do Mar. Agradecemos pela saúde e força para viver e trabalhar. Minha mãe é filha de Iemanjá e nós seguimos a tradição de devotar a vida à Grande Mãe”, confessa Jaqueline.

Foto: Bruno Concha/Secom

Presentes – Com o azul predominante, os presentes destinados a Iemanjá tomam conta não só do caramanchão erguido em frente à praia, na Colônia de Pescadores, mas se arrastam numa fila que segue desde a estrutura até a Igreja de Santana.

Tranquilos mesmo sob condições desafiadoras propostas pelo sol, fiéis de todos os cantos seguiam o ritual de todo ano, carregando de pequenos cestos a balaios que só se permitiam sustentar por, no mínimo, uma trinca de homens fortes. Os mais discretos apostavam na trinca composta por flores, espelho e alfazema. Outros, com viés artístico, apresentavam barcos, pequenas representações de caravelas, saveiros e modernos navios de cruzeiros. Em comum todos traziam os três presentes característicos, as cores e a efígie da deusa, sempre na proa das microembarcações, como se lhe pedissem algum senso de direção.

Foto: Bruno Concha/Secom

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