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Futebol é coisa de mulher: conheça luta para combater o machismo nas arquibancadas

Com o surgimento estimado em III ou II a.C. nos moldes como conhecemos hoje em dia, o futebol é um esporte que une famílias, amigos e até desconhecidos, sejam crianças, homens ou mulheres. Porém, quando trazemos para a verdadeira realidade, a inclusão das mulheres no universo futebolístico, seja como profissional ou torcedora, passa por uma série de outras questões mais amplas e que ganham cada vez mais espaço atualmente.

Um pouco de história

Quase sempre, a figura feminina no futebol ou em outros esportes considerados “masculinos” pela sociedade foi relegada a um mero papel de coadjuvante. A forma como as mulheres nas arquibancadas eram retratadas em grande parte das matérias publicadas pelos periódicos dos anos 1970 ou 1980 era de atrair homens para os estádios. Para além disso, o futebol feminino era tratado como uma espécie de espetáculo de circo, que servia de “esquenta” para as partidas masculinas oficiais.

Na verdade, os primeiros registros de mulheres jogando futebol sob as regras que conhecemos atualmente é de 1892, em Glasgow, na Escócia. No Brasil, os escassos registros do futebol feminino datam da década de 1930. Porém, entre 1941 e 1979, houve um decreto-lei que proibiu a participação do sexo feminino no futebol, sob a justificativa de que o esporte as deixaria masculinizadas e sem capacidade de terem filhos. De “sexo frágil” a explicações científicas da ciência (pouco desenvolvida até então), os argumentos serviam como forma de evitar que as mulheres participassem da cena esportiva na época, seja trabalhando ou torcendo nos estádios.

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país. (Decreto-Lei nº 3.199 do Conselho Nacional de Desportos (CND), 1941).

Nos anos 1980, a prática do esporte por mulheres foi retomada, porém, voltou a ser vista com enorme preconceito. Não somente as profissionais do futebol sofreram com represálias sociais, mas também as jornalistas e torcedoras que acompanhavam, especialmente, o futebol masculino.

De uns tempos pra cá

Os anos passaram, e a luta das mulheres para garantir o espaço no esporte foi se tornando mais forte e concentrada. O interesse pela prática ou a torcida provavelmente sempre existiram, mas eram deixados de lado para “não afetar o ‘sexo frágil’”. Ficou bastante perceptível o crescente interesse do sexo feminino pelo futebol.

Aos poucos, os clubes começaram a se dar conta da presença feminina cada vez maior nas arquibancadas. Os comentários misóginos podem ter perdido a força que tinham em outra época, mas, infelizmente, eles ainda existem e se mostram das piores formas, seja subestimando a capacidade de uma mulher entender o que acontece em uma partida de futebol ou duvidando da qualidade do esporte feminino. Assédio e outras demonstrações de falta de respeito sob a alcunha de “piadas” ou “brincadeiras”.

Uniões e torcidas

A internet foi e é uma aliada fundamental para a união das mulheres com interesses em comum pelo futebol. Os grupos formados nas próprias torcidas organizadas ou, até mesmo, fora delas, migraram também para a rede mundial e se disseminaram, aumentando a quantidade de adeptas. Perfis nas mais diversas redes sociais feitos por e para elas foram conquistando cada vez mais espaço nesse universo.

Além desses, outros tipos de grupos uniram ainda mais as torcedoras. O “Torcedoras do Leão” é um coletivo (não torcida organizada, como elas fazem questão de frisar) de mulheres apaixonadas pelo Fortaleza Esporte Clube e que se uniram por vários objetivos. “Viajamos com o Fortaleza em caravanas, vamos em todos os jogos do nosso clube”, explica Jack Rocha. O movimento começou a se desenhar em 2016, por meio de uma ação que reuniu várias torcedoras de outras equipes da Capital, como Ceará e Ferroviário.

Também é bom enfatizar que um dos nossos objetivos é demonstrar o protagonismo das mulheres, quebrar paradigmas, dizer que estádio não é só de homens. E que nós estamos aqui para fazer companhia, orientar e ajudar as torcedoras da melhor forma possível. Eu mesma já sofri e sofro por ir ao estádio, com piada de colegas e familiares. Já me perguntaram porque ao invés disso eu não vou assistir novela. (Audrey Oliveira, integrante do coletivo Torcedoras do Leão).

Quase todas as mulheres do coletivo fazem parte de torcidas organizadas ou outros movimentos e grupos, mas se juntaram em prol não somente do clube, como também de atrair outras para o ambiente esportivo. Para isso, elas realizam a campanha “Estádio Sem Medo”, que tem o objetivo de levar mais mulheres aos jogos do Fortaleza. “A ideia do projeto surgiu depois que uma torcedora deixou uma mensagem na nossa página falando que torcia para o Fortaleza e que tinha muita vontade de ir para o jogo, mas não ia por medo, por receio, e porque não tinha companhia”, explica Desereé Martins, uma das integrantes do movimento.

O coletivo cearense está também ligado ao movimento nacional “Mulheres de Arquibancada – Resistência e Empoderamento”, que realiza encontros nacionais em cidades Brasil afora, com o objetivo de unir as mulheres que amam futebol. Beathris Neves, uma das organizadoras do próximo evento, que será realizado na capital cearense, fala que o primeiro encontro Mulheres de Arquibancada aconteceu no dia 10 de junho de 2017, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, e mulheres do país inteiro estavam presentes. No evento, elas praticam várias atividades, abordando o tema das mulheres nas torcidas de times de futebol. “São palestras, rodas de conversa, apresentação de seminários, discussão de pautas sobre o que deve ser mudado no estádio, desde a forma da abordagem das mulheres. [Durante o evento aqui em Fortaleza], iremos promover debates e trocas de experiências com mulheres de torcida organizada e mulheres que frequentam estádios.“, explica.

A gente só quer ocupar um lugar que também é nosso, mas, por causa de tanto pensamento e atitude machista, por tanto assédio, as mulheres acabam se afastando. Eu sinto que temos que fazer isso para que cada mulher possa estar onde ela se sente bem. Não só no futebol, mas em qualquer outro esporte. Minha luta diária é no futebol.

Beathris enfatiza que os principais objetivos do movimento são conquistar igualdade de direitos e garantir o empoderamento feminino nos locais esportivos, por meio de algumas reivindicações. “Queremos policiais capacitados para fazer a abordagem, a presença de policiais mulheres em todos os estádios, construção de fraldário, implantação de uma Delegacia de Defesa da Mulher, conscientizar os veículos de mídia (especialmente as esportivas) do papel das mulheres nas arquibancadas e torcidas organizadas, a fim de coibir o pensamento de que o público feminino serve apenas para ‘embelezar’ os estádios”, afirma.

A luta continua

Esses são somente alguns relatos de mulheres que buscam o básico: a igualdade e os mesmos direitos e liberdades que os homens que frequentam o mesmo tipo de ambiente possuem. Este dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é apenas um dos 365 dias nos quais se pode refletir sobre o papel das figuras femininas na sociedade atual, seja no esporte, na política, na economia, no cinema, na música ou em qualquer outro setor em que elas estejam inseridas. Combater o preconceito, levantar ainda mais a voz e dar vez às mulheres são algumas das premissas mais básicas para a conquista da equidade, em todos os âmbitos.

Fonte: Verdinha

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