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Gabriela Souza: Quando enfrentar o machismo é premissa do próprio trabalho

Advogada de 31 anos montou um escritório especializado em direitos das mulheres e quer defendê-las de um Estado ineficaz: “Só 17% dos casos de violência contra a mulher chegam à delegacia.”

“A informação é um instrumento de empoderamento da mulher que, quando consciente de seus direitos, se torna mais forte”. Esta frase é uma das primeiras afirmações feitas pela advogada Gabriela Ribeiro de Souza à reportagem do HuffPost Brasil, assim como na carta que entrega às clientes de seu escritório de Advocacia para Mulheres. É isso mesmo, Gabriela só atende mulheres – e só trabalha com mulheres e só contrata serviços de mulheres.

Ela fundou o escritório em maio de 2017, em Porto Alegre, depois de dez anos trabalhando para grandes empresas de advocacia. Aos 30 anos, estava em crise com a profissão, cansada das jornadas intermináveis, do salário insuficiente, do terninho com salto alto. Para moldar e viabilizar a ideia do escritório feminista, ouviu mais de 50 mulheres colegas de profissão, amigas, primas, empreendedoras – e dois homens: o marido e um irmão. Todas as entrevistas e insights foram registrados junto com o planejamento do negócio em um caderninho, que ela ainda guarda e mostra orgulhosa.

“A violência pode ser física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Mas as pessoas só conhecem as que deixam manchas roxas.”

Foto: Reprodução

Hoje a equipe que trabalha ao lado dela conta com mais três advogadas e uma estagiária. A nova sede do escritório está em reformas, e, no dia da entrevista ao HuffPost, uma mulher fazia a pintura da sala.

A maioria dos casos que elas atendem são de divórcios litigiosos, violência doméstica, estupro (inclusive marital), feminicídios tentados e consumados. “A violência pode ser física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Mas as pessoas só conhecem as que deixam manchas roxas, e olhe lá”. Gabriela cita o exemplo da violência patrimonial a que são submetidas muitas mulheres em relacionamentos longos. “Isso mexe com a estrutura do patriarcado. Como assim, um homem que pagou tudo a vida toda estava cometendo uma violência?”.

A violência fica institucionalizada e enlaçada pelo matrimônio sagrado, e ninguém toca. Ainda mais em casamentos longos. É um feminicídio a conta-gotas.

Foto: Reprodução

Para Gabriela, o poder Judiciário é, em geral, muito machista, pois não compreende as diferentes dimensões da violência doméstica. “Somente 17% dos casos de violência contra a mulher são levados para a delegacia”, afirma ela. Os mais extremos, portanto. Todas as demais sutilezas de uma vida inteira de submissão, de agressões verbais, dependência e humilhações são relativizadas, e as clientes deixam as audiências “completamente desacreditadas”, afirma. Os maiores problemas, segundo ela, envolvem as medidas protetivas de mulheres contra seus companheiros durante a separação. Primeiro porque, mesmo protegida, a mulher é obrigada a estar na audiência junto com seu agressor. “Há uma incapacidade do Judiciário de entender a violência psicológica, eles acham que é ‘mimimi’. Ela pode não apanhar, mas vai passar mal por três dias depois da audiência”.

Depois, na hora de dividir a guarda dos filhos, um momento muito delicado do processo, as medidas protetivas são fatores complicadores. Muitas mulheres, afirma Gabriela, são orientadas pelos juízes a retirar a medida contra o pai das crianças uma vez que se resolve a frequência das visitas – um revés de uma iniciativa que, normalmente já é muito difícil e traumática para elas. “Eles acham que a protetiva vai atrapalhar. Mas homens que são bons pais também agridem as mães”, diz a advogada.

Elisa Samúdio pediu quatro medidas protetivas e foi chamada de maria-chuteira. Acabou morta.

Foto: Reprodução

As audiências são encaradas como batalhas pela equipe de Gabriela. “Vamos preferencialmente em duplas, e temos sempre o telefone da corregedoria da OAB no celular”, revela. Casos que envolvem assédio sexual no ambiente de trabalho também são defendidos pelo escritório. “Nas audiências, temos de ouvir perguntas como ‘que tipo de roupa ela usava? estava com decote? a saia era curta?’ A gente ainda culpa a vítima”.

O assédio sexual no ambiente de trabalho deixa a mulher vulnerável justamente no ambiente em que ela questiona a ordem patriarcal.

Foto: Reprodução

Para lidar com o sofrimento das clientes, consolar o choro e também para fazer seus próprios desabafos, a equipe do escritório faz terapia em grupo pelo menos uma vez por mês. “Dividimos o trabalho, as angústias. Me sinto acolhida aqui”, diz Gabriela, emendando quase com naturalidade que foi ameaçada de morte recentemente, junto com uma cliente transexual. “Enviaram e-mails dizendo que iam me matar, jogar a cabeça aqui, as pernas lá, usando endereços reais da minha família. Eu bloqueei, disse que não estava assustada. Só fui chorar no dia em que Marielle morreu, como se fosse uma amiga minha”, conta Gabriela – que, realmente, não parece assustada. Deve ser porque herdou o “topete” do pai advogado, “isso de ir lá e fazer, sem me importar muito”.

Só 17% dos casos de violência contra a mulher chegam à delegacia. Em geral, a mulher que registra BO contra o companheiro já sofreu violência antes, não é a primeira vez.

Foto: Reprodução

Gabriela e sua equipe estão formatando um projeto para ajudar outras mulheres advogadas – seja a abrir um negócio, seja para trocar ideias ou emprestar o espaço para uma reunião. “Foi muito legal ser a primeira no Estado, mas não quero ser a única. Não vai ser sozinha que vou conseguir mudar a jurisprudência do Rio Grande do Sul”. Está lá, na mesma cartinha de boas vindas: “nos momentos difíceis, precisamos de uma boa advogada e, mais ainda, de boas amigas para dividir o peso”. E quem não?

 

Fonte: HuffPost Brasil

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