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Gorda compra, sim! Mulheres comentam o mercado de moda plus size de Salvador

Recentemente, o Ministério da Saúde divulgou que a população brasileira está engordando. De acordo com a pesquisa Vigitel 2012 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), 51% dos brasileiros com mais de 18 anos estão acima do peso ideal definido pelas organizações de saúde. Em Salvador, são 53,8%. O aumento do peso da população impacta diretamente no mercado de moda. Por quê? Porque isso está ligado ao aumento das silhuetas e por isso, homens e mulheres estão usando manequins maiores.

Foto: Helemozão/Divulgação

A estilista Najara Black, que é plus size e uma das criadoras da N Black, loja que atende tanto corpos slim quanto plus, acha que o mercado tem recebido essa procura, mas ainda oferta poucas peças com tamanhos a partir do 44. “As marcas estão começando a perceber que tem essa demanda, mas não fazem da forma correta. É preciso ter uma pesquisa para ver o que a gente acha bacana vestir”, opina. “Um dos motivos de criar a marca foi esse, a dificuldade de encontrar peças. Na época usava 46 e nunca achava coisas que eu gostava”, complementa.

De olho nessa diferença entre demanda e oferta foi que ela resolveu produzir peças plus size em sua marca. “Comecei a perceber que várias clientes com tamanhos maiores iam à loja pedindo peças. Algumas diziam que se inspiravam na forma com eu me vestia e me pediam para reproduzir”, conta. Depois de fazer uma pesquisa ela percebeu que faltava em Salvador algo que se comunicasse com esse público.

A mesma coisa aconteceu com Kika Maia que percebeu que poderia usar roupas legais mesmo sendo gorda. “Queria coisas legais, modernas. Não queria ser magra, mas queria me vestir com estilo e via coisas do eixo Rio, São Paulo e Minas que eu gostava”, conta ela. Foi assim que surgiu a Kika Maia, sua marca de multimarcas. A loja itinerante atende a domicílio e traz peças garimpadas em lojas dos principais centros do Sudeste do país.

Foto: Marcelo Trevisan/Divulgação

Ela conta que em quase dois anos de marca, suas clientes já a procuram sabendo que vão gostar das peças. “Quando comecei a comprar para revender trazia peças que eu não gostava tanto, mas que achava que as pessoas gostariam, só que não vendia”, conta.  Depois de um tempo ela percebeu que as clientes gostavam mesmo era de usar coisas que ela também usava, ou seja, gostavam de se sentir à vontade com peças da moda. “Fui estudar moda para saber de tendência e estou estudando consultoria de imagem”, diz ela, que costuma fazer uma espécie de acompanhamento com suas clientes.

Foto: Angeluci Figueiredo

As consumidoras
E ela não está totalmente errada. Recentemente uma grande rede de fast fashion com negócios no mundo inteiro inaugurou uma loja em Salvador. Sua coleção plus size, tão famosa quanto a marca e desejada por muitas clientes não veio para Salvador. Lá se vão cerca de cinco meses desde a chegada em Salvador e ainda nem há previsão das coleções plus size desembarcarem na capital.

Apesar disso, a produtora e instablogger Carla Galrão consegue fazer um garimpo nas principais lojas de fast fashion da cidade. Antes ela costumava comprar peças que não eram exatamente para o corpo dela, mas conseguia reformar. “Ficava presa sempre a lojas de departamentos, comprando roupas e dando jeitinhos como comprar roupas masculinas”, conta.

Ativismo
Tentando encontrar outra forma de vestir, Carla resolveu garimpar para si e decidiu mostrar os resultados de seus garimpos para outras meninas gordas. Foi aí que criou o perfil @gordaroupa no Instagram. “Penso que se é tão difícil para as meninas encontrarem peças, por que eu não ser uma facilitadora nesse processo”, diz. “Minha intenção é mostrar o que tem de disponível no mercado”, completa.

No ‘gordaroupa’ ela mostra onde costuma comprar suas peças, mostra algumas que compra ou apenas fotografa looks e indica valores. “É um trabalho de ativismo e empoderamento. O que eu gosto mais é o retorno, elas respondem muito, brincam comigo, usam a hashtag pra mostrar o look que estão usando, é bem bacana. Achava que não ia mudar nada na minha cabeça, mas com o retorno das meninas, me senti muito mais mulher e um ser importante. Assim como eu me senti linda e forte, posso ajudar outras pessoas também”, revela.

Foto: Divulgação

Onde ir?
Para quem ainda não sabe onde encontrar, a saída é comprar em lojas que vendem todos os números e garimpar entre as araras ou em brechós. Para a grafiteira Sista Kátia, essa última é a melhor saída. “Já que as modelagens mais antigas no Brasil tinham um tamanho maior, e os tecidos eram mais nobres, então a maioria das peças tem um durabilidade maior”, explica. Ela também conta que outra saída é trocar peças com outras mulheres. “Bazar, feiras, eventos de moda sustentável têm acontecido constantemente em Salvador”, complementa.

Carla aposta nas lojas do centro da cidade. “Lá tem lojas com formas maiores, na Avenida Sete de Setembro, na rua Carlos Gomes e brechós da Lapa, principalmente. Dentro dos shoppings tem mais malha para mulher gorda”, observa. Ela alerta que achar uma peça pode ser demorado. “A questão do garimpo é um exercício de paciência, tem que olhar, ir para o fundo da loja. Eu escolho um dia da semana e vou.”

Foto: Helemozão/Divulgação

Gordofobia
Outra coisa pontuada entre mulheres gordas na hora de buscar uma peça de vestuário é o preconceito. “Que mulher gorda nunca passou por isso, de entrar numa loja e não ser vista?”, questiona Kika. Lourani acredita que um dos motivos para isso ainda acontecer é o despreparo do próprio mercado. “A maioria das gordas que vão em lojas comprar uma roupa passa por constrangimento. Acho que as pessoas estão despreparadas para o atendimento”, opina.

Quanto a isso nem as clientes de Kika nem as de Najara poderão reclamar. Ambas acompanham seus clientes e recebem diretamente o feedback deles durante a compra. “É muito bacana quando você chega numa loja e encontra peças bacanas, atuais, é recebido bem, tem consultoria. Isso faz com que o cliente volte, que a autoestima das pessoas melhore”, lembra Najara.

E para superar o preconceito, Sista dá algumas dicas para quem não tem acesso a esse atendimento mais especializado. “Permitir-se e entender que se a moda ainda nos vê como minoria, façamos então nós mesmas uma moda que no acolha. Apoie e incentive marcas independentes e marcas locais, porque essas podem ter a sensibilidade de te atender como você merece, crie, incentive as costureiras do seu bairro, cidade, aí você terá peças únicas e feitas pensadas no seu corpo”, comenta. “Acima de tudo lembre que você é do tamanho do seu sonho”, finaliza a grafiteira.

Fonte: Correio da Bahia

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