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Jornada de artista para retirar próteses de silicone nos faz pensar sobre a indústria da beleza

A artista curitibana Karla Keiko teve uma longa e dolorosa jornada para remover as próteses de silicone, que muito mais do que uma ferramenta estética, se tornaram um transtorno na vida dela. Aos 20 anos foi convencida pela irmã de que precisava colocá-las, mas não imaginava que seria tão difícil manter e conviver com os peitões. O processo para voltar a ser amiga de seus seios naturais foi objeto de estudo e resultou num impactante trabalho artístico que acende o debate sobre estética, escolhas, autoestima e amor próprio.

Embora colocar silicone não seja como uma ida ao shopping center, é quase isso, por mais louco que seja. A dificuldade para colocá-las é mínima, tanto que o Brasil, a terra onde brotam personagens como Dr. Rey e Ângela Bismarchi, perde apenas para o Estados Unidos quando o assunto é quantidade de cirurgias plásticas realizadas. Veja bem, estamos falando de 1,22 milhão de cirurgias plásticas para fins estéticos realizadas no país somente em 2015, segundo dados da Isaps (sigla em inglês para Sociedade internacional de Cirurgias Plásticas para Fins Estéticos). O público é majoritariamente feminino (85,6%), que em grande parte se rende às pressões da sociedade em busca do papel de deusa grega.

As violências que as mulheres passam são muitas. Primeiro, a de não conseguir aceitar o corpo do jeito que ele é. Desejam entrar mais no padrão. Segundo é que realmente a maioria dos médicos são homens. Não escutei ninguém dizendo que fez a cirurgia com uma mulher. Sinto como se as mulheres fossem uma pedra de mármore e eles são os escultores. A partir dos princípios deles a gente fica bonita.

Ao longo de alguns meses, eu e Karla fomos conversando sobre os traumas, a experiência, a vida sem o silicone e a maternidade recém descoberta. Investigando o processo, a artista — que hoje tem 28 anos — me contou toda a trajetória frustrante da cirurgia. As próteses mamárias são aparentemente reversíveis, mas a experiência narrada aqui prova o contrário.

De volta ao Brasil após uma temporada em Londres, a Karla de oito anos atrás foi comprar um biquíni na companhia da irmã e, insatisfeita com tudo o que provou, acabou indo parar na sala de um cirurgião plástico. Ganhou de presente as primeiras próteses de silicone de sua vida.“Minha irmã gosta muito de cirurgia. Tem prótese, aplica botox, já fez três lipos e acabou de diminuir estômago. Enfim, gosta muito dessa coisa toda e é totalmente diferente de mim”, contou.

Feito o primeiro procedimento, Karla já lamentou sua escolha precoce, que a fez carregar 300 ml a mais em cada mama. “A hora que eu acordei da primeira cirurgia e sentei na cama, eu vi que fiz cagada. Pelo peso, pelo desconforto, por sentir que eu tinha feito uma agressão com meu corpo”. Esse era apenas o começo de uma porção de questionamentos e queixas ao redor do assunto.“A lista de incômodos é infinita, sim. Botar um biquíni era desconfortável porque não era o meu peito. Eu não conseguia dormir de bruços, nem abraçar as pessoas. Não tinha prazer no sexo, porque meu mamilo não tem mais a mesma sensibilidade. Usar um decote para mim não tinha significado nenhum. No final das contas eu queria que se fodesse o negócio de ter o peitão!”.

Para piorar o cenário caótico, logo veio à tona um problema cirúrgico: contratura capsular, perda da elasticidade que envolve o implante e consequentemente deforma os seios. “Não sabia o que fazer. Marquei o médico e fui sozinha. Ele foi super agressivo comigo, me culpou e cobrou o mesmo valor novamente. Na segunda cirurgia, eu queria diminuir e ficar com 100 ml. Aí o médico me convence a colocar 200 ml porque, segundo ele, o que eu queria era muito pequeno. Resultado: acordei com 300 ml! E isso acontece com muitas meninas. Não assinamos termo nenhum na consulta. Então ele adiciona mais porque deduz que vamos ficar mais gostosas com o decote farto, né.

Deja vú, a história se repete, com direito a mais corte e costura. “Na hora que eu sentei na cama eu fiz a mesma coisa que antes: me decepcionei e fiquei quieta”. Como todo trauma, a sucessão de erros fez com que Karla sofresse calada, coisa recorrente na vida de várias mulheres. Falar que um investimento deste tamanho não estava bom e um suposto “corpão” desejável desses incomodava era praticamente um pecado mortal. Quando tentava falar com alguém, logo cortavam o assunto alegando que eu estava linda. E aí eu não tinha vontade de continuar as conversas. Achava que eu era louca. Estava sozinha, né. Preferi me preservar e ficar quieta por sete anos. Acho que também é um medo de admitir um erro, que parece ser tão grande…porque você além de se abrir, literalmente, colocar uma prótese e passar por uma cirurgia delicada, você paga uma nota para isso. Gastei uns R$ 50 mil no meu seio que nem precisava de nada disso”.

O lado psicológico é capaz de pesar mais do que qualquer implante no corpo. A cabeça fica a milhão. Olhar no espelho dói. As pacientes, por vezes, se veem desamparadas, perdidas entre seus transtornos e questionamentos. Dificilmente você encontrará alguém que entrou num consultório do tipo e ouviu “você não precisa de plástica aí. Não vou fazer”. Também é raro encontrar casos nos quais as pessoas ao redor são sinceras o suficiente umas com as outras, ou informadas o suficiente sobre o verdadeiro significado da cirurgia plástica para desincentivá-la em quem não precisa recorrer a este recurso.

Quando Karla fez a operação, todos iam perguntar se ela estava bem e logo afirmavam que estava ótima com suas novas formas. Porém, ao retirá-las, não ouviu as mesmas perguntas e tampouco as mesmas afirmações de que estava linda. Foi em 2016, durante uma residência artística, que ela pode refletir sobre seus demônios e escolhas novamente.

Começava então um novo capítulo dessa história, menos solitário, no qual entrevistou mais de 50 mulheres que passaram por cirurgia plástica e, novidade, viu que os problemas eram recorrentes e os casos ainda mais escabrosos do que os dela. “Tinham meninas, inclusive muito novas, que eu conhecia há muito tempo e nem imaginava que colocaram silicone. Ouvi gurias que tiveram próteses trocadas por tamanhos enormes. Outras foram fazer cirurgia para desvio de septo e acordaram com nariz de Barbie. Uma delas tinha 15 anos e ficou em crise. E teve até história de retirada de útero sem autorização. Uma mulher de 36 anos foi apenas retirar um cisto e o médico julgou que ela já não teria mais filhos, então a deixou sem útero! Isso até me arrepia”. Numa pesquisa rápida pela internet, não é difícil encontrar queixas de pacientes e contos de terror vividos em salas cirúrgicas.

No grande dia da retirada das próteses, Karla contou com o apoio do último médico que tinha a operado, agora aparentemente mais preocupado com as escolhas dela. “Fazia sete anos que não o via. Retomei o que ele havia feito e ele não acreditava, tentou se explicar. Depois de ver o meu sofrimento, fez a cirurgia sem me cobrar. Estou pagando apenas as despesas do hospital e a equipe dele”. A cirurgia foi gravada e colocada em um de seus trabalhos artísticos.

Eu já raspei meu cabelo várias vezes e as pessoas sempre ficam tão chocadas…questionam como que eu tive coragem de raspar o cabelo. Quando eu tirei as próteses e fiz esse trabalho, ninguém da minha família veio falar comigo sobre isso. Ninguém me perguntou se eu estava bem, ninguém disse que eu estava linda, ninguém falou mais nada, sabe. Então eu vejo que o tabu é muito maior nesse caso inverso, o de retirar e não de colocar. Para as outras meninas que estão se operando também não ouço a pergunta ‘nossa, como você coragem de abrir seu peito e enfiar um troço de plástico ali dentro?’

A sensação de ter finalmente chegado ao seu objetivo e retomado o controle do próprio corpo a levou às lágrimas assim que acordou operada na cama do hospital. Acontece que, cerca de cinco meses depois, o assunto voltaria à sua cabeça, de maneira definitiva: Karla descobriu que estava grávida de uma menina. Os seios teriam um novo papel. Começava um ciclo inédito de descobertas e, talvez, o fechamento perfeito para essa história. “Estou descobrindo a divindade natural de ser mulher e de que ter esses peitos de volta. Este é o nosso símbolo e existe uma utilidade além de dar prazer para esse monte de homem babão que fica vindo atrás da gente.Então assim, foda-se a mulher gostosa. A gente tem que estar bem e ser amada. Eu acho que, enfim, estou vivendo um momento de glória”.

Até a publicação dessa matéria, mãe e filha saíram da concha.

Consultando um médico

Depois de me deparar com a história da Karla e alguns números, fui atrás de um médico para esclarecimentos. Por que a maioria dos médicos são homens? Quem estabelece o que é melhor ou mais bonito? Quais são os critérios? Por que existe tanto profissional ruim atuando na área? Por que não se analisa o lado psicológico da paciente? Por que a cirurgia estética é maior do que a reparadora? Por que não existe uma conscientização maior sobre esses procedimentos? Uma infinidade de porquês rondam a mente, afinal, que atire a primeira pedra quem nunca teve uma amiga ou parente siliconada.

Recorrendo novamente aos dados, descubro que o número de cirurgiões plásticos do sexo masculino é infinitamente maior do que o feminino. Segundo pesquisa do Conselho Federal de Medicina (CFM), são 3.213 homens e apenas 799 mulheres atuando na área. Apesar de haver um número crescente de médicas entre os novos profissionais, o mercado ainda deve permanecer com maioria de homens por duas décadas ou mais, já que até os anos 1970 a profissão era predominantemente masculina, como consta na análise de Roberto Luiz d´Avila(Presidente do Conselho Federal de Medicina) e Renato Azevedo Júnior (Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). Dentro dos conselhos e órgãos relacionados ao ofício, a cena de clube do bolinha se repete: homens brancos, de meia idade, são a classe dominante. A falta de representatividade é óbvia.

Segundo Dr. Luís Henrique Ishida, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (Regional São Paulo), que me atendeu por telefone, as mulheres são minoria na área de cirurgia plástica por razões desconhecidas, porém, ele dá o seu parecer. “Acho que a mulher identifica melhor os problemas, os detalhes, tem uma sensibilidade estética maior e atua muito mais do que homens na área da dermatologia, por exemplo. Mas, tradicionalmente, nas áreas cirúrgicas existe uma incidência maior da presença masculina. Não dá para explicar o motivo disso. Talvez o homem não se importe tanto com sangue e com o ato cirúrgico. Mas isso é uma longa história”. As dúvidas seguem nebulosas e essa é uma questão a ser investigada.

Expliquei rapidamente a história da Karla para ele e comentei sobre os erros cirúrgicos, a falta de apoio e o fato da retirada das mamas nunca ser uma opção dada às pacientes. “Não tenho como julgar. Nesses casos, você pode tirar a prótese e fazer enxerto de gordura, por exemplo, ou colocar outra no lugar. Mas também pode retirar, pode fazer o que quiser”.

Ao longo do nosso papo ele analisa que boa parte dos problemas que terminam em drama e frustração pós-cirurgia acontece por causa da comunicação.“Acho que a coisa mais importante é a relação médico-paciente. Isso tem que ser um consenso, tem que ser bem conversado. Se a pessoa entendeu todos os prós e contras não tem problema retirar a prótese. A coisa mais importante não é nem a cirurgia, é o comum-acordo. O que falta na nossa medicina e a maior queixa do público, de forma geral, é o atendimento”, argumentou.

O médico pode ainda se negar a operar a partir do momento em que julga o resultado que o trabalho teria, seja por se sentir incapaz ou se discorda do que a paciente quer fazer. Eventualmente, se não houver acordo com a paciente — e diria que isso acontece com frequência; comigo são em cerca de 20% das consultas — , simplesmente pode falar que prefere não fazer, que se procure um profissional conivente com seu desejo”, explicou o cirurgião. Isso reflete no próprio número de atendimentos que Ishida faz. Mais de 70% são correções de problemas cirúrgicos feitos por outro profissional. 

A falta de aceitação dos latino americanos com sua própria imagem e cultura é algo histórico. Sofremos uma doença crônica por aqui, que começou lá na colonização. O complexo de inferioridade, chamado popularmente de complexo de vira-lata, é tamanho que não por acaso os brasileiros e as brasileiras querem se assemelhar, a todo custo, aos europeus ou aos norte americanos. Seja na pose ou na faca. Talvez isso influencie parte das escolhas estéticas do país que quase lidera o ranking de cirurgias plásticas. A banalização do tema também incomoda a medicina e distorce seu verdadeiro papel.

É lógico que existem os exageros…são eles que viram notícia. A mídia relata casos de pessoas públicas que fazem cirurgias realmente muito fúteis, sem indicação e de forma descontrolada. E na realidade não é bem assim. A paciente típica não é aquela que quer empinar o nariz. É uma paciente que tem uma alteração ou desproporção no corpo, que vai aumentar sua autoestima e proporção por meio da cirurgia, para melhor aceitação da sociedade.

O paciente que busca a cirurgia plástica como se fosse um produto é apontado como o pior para os cirurgiões, porque acaba gerando um ciclo de complicações. “O paciente jovem geralmente quer um nariz menor, mais baixo e arrebitado, que nem sempre é compatível com o rosto ou a estrutura óssea. Operar um nariz não é questão de gosto e sim de adequação. A gente explica que não é compatível e não opera. Aí a pessoa se prejudica com quem topa fazer e depois tem que corrigir o problema”, explicou o profissional.

Percebe que existe aqui um problema estrutural? Primeiro a pessoa se sente mal esteticamente por causa dos padrões de beleza. Na sequência ela quer corrigir seus “defeitos”. Na falta de orientação — inclusive psicológica —  e de recursos, recorre ao médico (ou suposto médico) que seria mais fácil de pagar. O resultado é pouco satisfatório e o real problema, que está na cabeça, não foi resolvido na mesa de cirurgia. Distúrbios psiquiátricos, como depressão e o transtorno dismórfico corporal (TDC), seguem negligenciados e pouco investigados inclusive neste meio.

Descobri que também há muitos crimes sendo cometidos nessa área, como consultas intermediadoras, na qual um médico faz a consulta e outro faz a operação; a divulgação de pacientes e procedimentos; profissionais que não são cirurgiões plásticos realizando procedimentos; e contratos publicitários. O código de ética da medicina é super restrito e bem definido, não existe muita discussão. Não podemos colocar foto da paciente, nem fazer propaganda da clínica numa entrevista, por exemplo…Quando você vê algumas pessoas na TV ou qualquer outro meio fazendo isso, estão quebrando o código de ética. São picaretas por distinção.”

Para assistir

Abaixo, você pode conferir os trabalhos artísticos de Karla, descritos por ela.

BALANSOPHY: minha primeira dança em 2012, um ano após a segunda cirurgia. Este filme foi feito por mim e pela Lara Jacoski, como um chamado à leveza e ao equilíbrio.

PENDÊNCIAS: dirigido por Sara Bonfim, o filme representa o processo de tomada de consciência do incômodo que me acompanhava há 8 anos, carregando 600 ml de próteses em silêncio. A vídeo-arte foi feita e co-criação com diversos artistas, foi realizado em meio a residência Mulheres Inventadas e apresentado como processo de trabalho para a residência artística 20minutos.MOV.

“la danza de su hijo dentro suyo”:  Registro de Ernesto Baca em Super8, no início da gestação e poucos meses após a retirada das próteses. Sobre as transições desta vida: minhas despedidas e a celebração deste novo corpo, sempre em movimento e agora com um propósito maior: a criação de uma vida.

Fonte: HYPENESS

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