papo_delas_logo

SIGA O PAPO NOSSO CANAL /PAPODELAS
sem_filtro

Monalisa Pires: mulher Policial

Com as mudanças na sociedade e a inserção cada vez mais crescente do público feminino no mercado de trabalho, expressões como “não é coisa de mulher” vem gradativamente perdendo o seu sentido. Ainda que saibamos que as mulheres têm conquistado espaços inimagináveis, nos faltam referências reais. Mulheres que compartilhem conosco as suas experiências no decorrer do caminho para a igualdade que tanto almejamos.

Se nos postos de trabalhos “mais comuns” vemos situações de desequilíbrio salarial entre homem e mulher, assim como, diferenciações de tratamento, quando falamos em carreira policial isso fica ainda mais evidente. Muitos continuam a acreditar que essa profissão é essencialmente masculina e o preconceito ainda é uma questão a ser combatida.

Para entendermos melhor o quadro sobre a vida de uma mulher dentro de uma função majoritariamente ocupada por homens, convidamos a Policial Rodoviário Federal Monalisa Pires para um papo sobre a sua rotina dentro da corporação e seus desafios cotidianos na área. Vem com a gente?

PD – Monalisa, conta pra gente um pouco da sua vida, de onde você veio, onde nasceu, sua formação e o que você fez até chegar onde chegou.

Monalisa – Oi, Sara e todos que acompanham o “Papo Delas”, é um prazer participar desse projeto tão enriquecedor e trocar um pouco minha experiência com vocês. Então, sou baiana, nascida em Feira de Santana. Vivi até minha adolescência em algumas cidades do interior por conta do trabalho do meu pai, mudamos diversas vezes por isso. Aos 15 anos vim morar em Salvador, local que fiz a maior parte dos meus amigos, e também cursei Direito. Após formada, comecei a vida de estudo para concurso público. Nos meus estudos para concurso sempre foquei na área policial, queria ser Delegada da Polícia Federal. Fiz na época o concurso para o DPF e também para a Polícia Rodoviária Federal, já que as provas foram aplicadas em datas próximas, e acabei passando para a PRF.

PD – Por que você escolheu seguir essa profissão? Há quanto tempo você exerce?

Monalisa – Na faculdade sempre tive um encantamento pela matéria de Direito Penal, a relação da sociedade com o fenômeno criminal e o comportamento humano diante do crime. Acredito que a profissão é uma maneira de ajudar a combater a criminalidade, e principalmente agir de forma a prevenir a sua prática. Estou na carreira de Policial Rodoviário Federal há 03 anos, no próximo dia 25 de agosto farei 04 anos na instituição, com muito orgulho, pois é um órgão muito sério e profissional, do qual a sociedade brasileira deve se orgulhar também. Afinal de contas, a Segurança é um dos três pilares que, com a Saúde e Educação, sustentam um país.

PD – Quais são os maiores desafios no seu dia-a-dia como policial?

Monalisa – Quanto aos desafios da profissão, eu poderia te dar uma lista infindável, sendo sincera! Além de toda a carga de responsabilidade, por ser um órgão de segurança pública que visa à manutenção da ordem pública, combate às infrações (tanto as criminais quanto às administrativas, uma vez que a PRF também é autoridade de trânsito, buscando reduzir mortes e lesões graves nas rodovias federais com campanhas e conscientização para evitar imprudências pelos condutores), o maior desafio que vislumbro é voltado ao nosso efetivo de policiais, pois, precisamos constantemente buscar a motivação suficiente para continuar exercendo o papel de policial com profissionalismo, entusiasmo e dedicação, mesmo diante do sucateamento das condições de serviço, da falta de investimento do Poder Público nas áreas de Segurança Pública, sem olvidar o cenário de criminalidade que nunca deixará de existir, afinal de contas, é uma utopia o alcance de uma sociedade livre de desvios sociais e da prática de crimes.

Ser policial é uma luta sem fim e sem os instrumentos ideais. Muitas forças policiais fazem verdadeiros milagres em irem paras as ruas e darem tudo de si em prol da sociedade.

PD – Você acha que existe algum tipo de preconceito contra as mulheres dentro da própria corporação? Se sim, você já passou por isso?

Monalisa – Diria que a atuação da policial em uma corporação predominantemente masculina é também um desafio para quem é atuante, pois, preconceitos sempre existiram. As mulheres policiais escutam alguns comentários, principalmente da sociedade, tais como: polícia “não é profissão para mulher”, as mulheres são frágeis… Eu observo tais ocorrências e entendo-as como uma herança social que precisa ser superada, e acredito que estamos no caminho certo.

Todo policial ingressa na carreira passando pelos mesmos testes, fazendo os mesmos treinamentos, seja ele homem ou mulher. Não me considero nem mais, nem menos apta. Me considero igualmente apta a exercer as atribuições do cargo e acredito que todas as minhas colegas policiais comungam deste mesmo pensamento.

Queremos nosso espaço, de igualdade, sem minimizar o homem, mas apenas almejando o respeito e reconhecimento da nossa capacidade. Muitas mulheres acabam tendo que se “masculinizar”, esconder a sua feminilidade para ser “aceita” ou sofrer menos preconceitos ou críticas, mas acredito que podemos mostrar a nossa força e nossa competência através de nossos atos.

PD – Existe algum tipo de diferenciação entre o trabalho de homens e mulheres dentro da polícia?

Monalisa – A diferenciação, infelizmente, existe, acredito que hoje muito menos que há 20 anos. Converso com policiais aposentadas que contam muitas histórias de grandes superações de preconceitos. O fato de muitas policiais quando ingressam na polícia serem destinadas à área administrativa é uma demonstração de preconceito, ou insegurança quanto à capacidade que temos para exercer a atividade operacional. Mas a mulherada ganhou muito espaço, no meu órgão.

A Inspetora Maria Alice foi Diretora Geral da PRF de 2011 a 2017, por exemplo, trouxe muitos avanços para a instituição, sendo a primeira mulher na Direção-Geral do órgão, além de ser motociclista e fazer parte do Grupo de Motociclistas da PRF. Inclusive, a Superintendência Regional da PRF na Bahia fomenta trabalhos voltados para a valorização da mulher, como a realização de operação temática “Rosas de Aço” que ocorre todo ano no dia da mulher, e este ano fizemos também uma campanha de combate à violência contra a mulher.

PD – Qual foi a reação dos seus pais ao saberem que você queria ser policial? É difícil conciliar a sua vida pessoal com o trabalho de policial?

Monalisa – Meus pais sempre me apoiaram em tudo na minha vida, agradeço muito a Deus a base familiar sólida que eu tenho. Minha mãe ficou um pouco assustada na época, disse que rezaria sempre para que eu nunca precisasse usar minha arma e estivesse sempre protegida. Meu pai demonstrou estar orgulhoso por eu ter galgado este posto por mérito próprio e me passou segurança quanto à minha capacidade para exercer a profissão. A vida policial não atrapalha a minha vida pessoal, porém, muitas vezes me deparo com discussões em rodas de amigos acerca da situação da criminalidade do país nas quais muitas pessoas falam o que a mídia mostra, sem nenhum senso crítico ou conhecimento de causa. Isso às vezes traz alguns embates, por estar dentro da situação e conhecer a realidade do trabalho policial e saber que o que é noticiado muitas vezes está bem distante da realidade ou ao menos mostra uma realidade distorcida.

PD – Atualmente você está atuando em eventos que fomentam o combate à violência contra a mulher. Como se dá esse trabalho?

Monalisa – Hoje, internamente, nós temos um trabalho muito forte através da Comissão Regional de Direitos Humanos que desenvolve ações para prevenir práticas não apenas de assédio, mas também de preconceito de gênero, raça e promover um melhor ambiente organizacional. Inclusive recentemente, em 2018, foi criada a Subcomissão de Valorização da Mulher para tratar de questões voltadas ao respeito e valorização das mulheres policiais. Externamente, há ações voltadas à defesa dos direitos das minorias, não apenas para o combate à violência contra a mulher, mas também, contra a abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, tráfico de pessoas, sobretudo de mulheres e crianças.

PD – Quais são as denúncias mais recorrentes quando o assunto é violência contra a mulher?

“Infelizmente a violência contra a mulher é uma realidade que preocupa o país, sendo bastante evidenciada no âmbito familiar, no qual a ocorrência é silenciosa e progressiva.” diz Monalisa.

A vítima tem dificuldade de assumir que sofre esse tipo de violência, porque envolve aspectos psicológicos, de dependência emocional e/ou financeira, a esperança de que o(a) companheiro(a) pratica a conduta de forma esporádica e, ainda, que tais atos não se repetirão, sem olvidar a vergonha ou o medo (de arrepender-se, do escândalo, da família se desfazer, etc.), que influem para que o agressor muitas vezes não seja denunciado.

PD – Como saber que estamos sendo vítimas de agressão – seja ela física ou moral? Como denunciar? 

Monalisa – A violência no ambiente familiar ou nas relações afetivas podem ser praticadas de diversas maneiras: seja com palavras afetem a dignidade da mulher (xingamentos, frases que “diminuam” a pessoa ou faça com que reduza a autoestima), autoritarismo e controle excessivos (acerca da forma de se vestir, se comportar, ou até impedir de frequentar lugares), evoluindo para proibição de saídas, convívio com familiares e amigos, ameaças, outros maus-tratos psicológicos, agressão verbal, agressão física, que podem ser lesões graves, ou até levar à morte. A vítima da violência deve procurar as autoridades.

PD – Qual foi o maior aprendizado que você já teve na sua carreira?

Monalisa – A maior lição que a pessoa pode tirar do trabalho policial é aprender a ter prudência, saber que o seu trabalho impacta diretamente na vida do outro. Passei a ter mais senso crítico e senso de responsabilidade do meu papel na manutenção da ordem social, de maneira a garantir o convívio social mais pacífico possível.

Foto: Arquivo Pessoal Monalisa Pires

PD – Cite, na sua opinião, o que é a melhor e a pior coisa da vida de uma policial.

Monalisa – A profissão policial é muito honrosa, digna, por ser fundamental para a existência da vida em sociedade, esse é o seu aspecto mais positivo e da qual me orgulho. Eu não diria que existe a pior coisa, mas sim, os ônus inerentes à atividade: o risco, a falta de estrutura e investimento adequados, e a grande cobrança social e da mídia, que no afã de atribuir a culpa da falência da estrutura social como a nossa, estão sempre a postos para apontar os erros e exigir que os policiais sejam verdadeiros super-heróis e resolvam os problemas da violência e marginalização que assola nosso país desde seu surgimento.

Insira suas palavras-chave de pesquisa e pressione Enter.