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Mulheres na luta: desafios do passado, presente e futuro nas artes marciais

Com a maior franquia de MMA do mundo, o UFC, movimentando a mais nova categoria feminina criada, o peso-pena, há quem pense que o mundo das lutas se mostra completamente receptivo às mulheres. De fato, houve uma evolução significativa ao longo dos últimos anos para as lutadoras nas artes marciais. No entanto, a realidade delas está longe de ser a ideal, principalmente quando comparada aos homens, e a correção da desigualdade que persiste é projetada para um futuro, que as mulheres esperam que não esteja tão distante.

Uma das maiores atletas da história do MMA, Cristiane “Cyborg” Justino é a prova de que a discriminação pode ser um obstáculo também para atletas de alto nível. Ao relembrar o início de sua história no esporte, ela mostra que o preconceito pode começar dentro de casa.

– No começo da minha carreira, sim, sofri preconceito, não era “normal” uma mulher lutar. Até na minha casa mesmo, minha mãe dizia: “Não quero minha filha lutando”. No começo, não falei para ela que eu fazia luta. Quando aparecia com um olho roxo, falava que era no handebol, nunca falava que era da luta. Até porque ela não concordava, confundia briga com luta. Agora minha mãe sabe que é luta, que uma profissional luta com outra profissional, que as duas estão preparadas para isso, que você recebe, é trabalho. No começo, sofri um pouco de preconceito, mas nunca liguei para o que as pessoas pensavam, sempre fui muito determinada com as coisas que quero. As atletas ficam mais fortes e com o braço maior quando treinam. Você fica diferente da “mulher comum”. Às vezes, as pessoas gostam de ter preconceito por isso – diz Cyborg, em entrevista ao Combate.com.

Foto: Evelyn Rodrigues

Lutadora da categoria peso-galo do Ultimate, Bethe Correia contou que escuta frases preconceituosas com frequência. Ela destacou que a luta é constantemente relacionada a um comportamento “masculino”.

Isso acontece sempre, são as mesmas piadinhas de sempre. As pessoas dizem: “Ela é um menino, não é menina”. Também acham que todas as lutadoras são lésbicas. Orientação sexual independe do trabalho que você escolhe ou de outras atividades na sua vida. Sempre ouço gente dizendo que nós, lutadoras, somos homens – conta Bethe.

Infelizmente, os episódios de machismo não ficaram no passado. Uma das pioneiras do MMA feminino no Brasil, Carmem Casca-Grossa, hoje aposentada, revelou que foi vítima de preconceito ao participar de um evento como árbitra.

“Assim que entrei no ringue para a primeira luta, fui chamada de ‘sapatão’, fui vaiada, me ofenderam e falaram para eu ‘procurar o que fazer em casa’. ”
Carmem Casca-Grossa

Há um mês, fui convidada para ser árbitra de um evento que contava com lutas masculinas e femininas. Assim que entrei no ringue para a primeira luta, fui chamada de “sapatão”, fui vaiada, me ofenderam e falaram para eu “procurar o que fazer em casa”. Precisei parar a luta, pegar o microfone e falar. Critiquei todo aquele preconceito. Depois me aplaudiram de pé pelas palavras. Acho ridículo isso.

Especialista em questões de gênero e esporte, a professora da Universidade Estadual de Maringá Patricia Lessa afirmou que o machismo no mundo das lutas é reflexo da sociedade, de uma maneira geral, que dita quais lugares pertencem ou não às mulheres. Lessa garantiu que essa desigualdade acarreta em prejuízos como: menos investimentos, falta de campeonatos específicos para as mulheres e falta de patrocínio.

– O MMA não é diferente de outros esportes, segue a mesma tendência sexista. O esporte, como uma instituição ancorada em valores dominantes, teve ao longo da história muitas práticas que foram e ainda são interditadas às mulheres. A ideia de que as mulheres possuem maior vulnerabilidade ou mesmo uma fragilidade inata deixou muitas mulheres de fora de eventos desportivos oficiais. Ilustrativa no Brasil foi a legislação desportiva de 1941, quando o então Conselho Nacional de Desportos (CND) criou o Decreto Lei nº 3.199, que no artigo nº 54 dizia que as mulheres não poderiam praticar esportes “incompatíveis com sua natureza”. A participação das mulheres nos esportes estava limitada pela legislação e pelo controle do Estado sobre seus corpos, não sendo permitida às mulheres a prática de vários esportes, inclusive lutas de qualquer natureza, e isso durou até 1979. A entrada das mulheres nas competições oficiais do UFC, por exemplo, deu-se muito tempo depois da masculina, isso causa uma desigualdade e mesmo uma “hierarquia de gênero” – afirma a pesquisadora.

Mulher mais graduada do mundo, primeira a conquistar a faixa preta no jiu-jítsu e responsável pela solicitação do primeiro campeonato feminino da modalidade, Yvone Duarte se orgulha do pioneirismo, mas destaca as dificuldades de chegar ao topo, tanto no passado quanto no presente. Para ela, a dupla jornada feminina é um dos fatores que dificultam a continuidade das mulheres no esporte.

“Nós, mulheres, temos que lutar no tatame, mas temos outras lutas fora, como a luta contra o preconceito. O machismo está presente em todos os esportes, incluindo o jiu-jítsu.”
Yvone Duarte
Quando comecei no jiu-jítsu, lutava em uma academia, no Rio de Janeiro, que tinha um grupo de mulheres, mas fui a única que chegou à faixa preta. Ser mulher na América Latina implica em acúmulos. Ser mãe, trabalhar, eu ainda tinha o jiu-jítsu… Acho que minhas colegas de academia não conseguiram a faixa preta por causa dessa cobrança da sociedade brasileira. Nossa primeira competição foi em 1985, depois que conversei com o Rickson Gracie, que levou o pedido para o Helio. Não digo que foi difícil, mas precisamos explicar. Ainda há um resquício de machismo na sociedade, e isso também aparece no jiu-jítsu. As equipes de meninas ainda são muito menores se comparadas às masculinas. Nós, mulheres, temos que lutar no tatame, mas temos outras lutas fora, como a luta contra o preconceito. O machismo está presente em todos os esportes, incluindo o jiu-jítsu – afirma.
POUCAS CATEGORIAS PARA MULHERES 

Foto: Reprodução/Facebook

As mulheres ainda precisam lidar com o número limitado de categorias nas principais competições do mundo. Olhando especificamente para o UFC, Carmem Casca-Grossa destacou o baixo número de possibilidades na franquia. Enquanto os homens contam com nove categorias, as mulheres ganharam a terceira há pouco tempo. Casca-Grossa, que atuava no vale-tudo na categoria pesado, destaca que mulheres mais pesadas não têm oportunidade de atuar no Ultimate.

– O MMA feminino também tem poucas categorias, deveria ter mais. Pelo menos no pesado. As mulheres mais pesadas que sofrem mais. Para o homem tem tudo, já para a mulher… As mulheres também não têm muita visibilidade na mídia. Precisamos nos unir, são muitas atletas.

Originalmente da categoria peso-pena, Crys Cyborg passou por dificuldades nos cortes de peso do UFC, precisando ao se submeter a processos extremamente agressivos ao corpo ao lutar em peso casado mais leve. A lutadora revelou que o peso-pena do Ultimate só foi criado quando se recusou a descer de categoria para lutar.

– Na verdade, eles não queriam criar essa categoria. Queriam que eu baixasse para a categoria galo. Dei o meu máximo para tentar, e consegui o peso casado. Depois que lutei, quando eu disse que não poderia mais fazer isso para reduzir peso, e só lutaria no meu peso, eles abriram a nova categoria. Agora que a gente é jovem, não sente muito o impacto do corte, mas depois se for ver as consequências no corpo… – diz Cyborg.

DESIGUALDADE SALARIAL

Outra dificuldade que ainda persiste no mundo das lutas femininas é a desigualdade salarial. Se o Fórum Econômico Mundial aponta que homens e mulheres só receberão o mesmo pelo trabalho em 170 anos, a situação de desequilíbrio também aparece no mundo do MMA. Carmem Casca-Grossa afirmou que sofria com as bolsas desiguais na época em que estava em atividade, problema que acredita acontecer até hoje.

– Logo no início era difícil encontrar outras mulheres para lutar. Com o tempo, foi mudando, foram aparecendo outras meninas, criaram mais eventos… Mas foi complicado logo no início de carreira. O que eu recebia era muito pouco, precisava ter patrocínio para sobreviver. A bolsa era maior para os homens na minha época, mas acho que isso acontece até hoje. Agora está muito melhor, eu mesma já estaria morando nos EUA e com certeza lutaria no UFC, mas ainda tem muita diferença, sim. Tem diferença de salário entre homem e mulher, sim.

Apesar de ser uma das grandes estrelas do MMA, Cris Cyborg também viveu seus momentos de aperto no esporte. Depois de conseguir a chance de lutar fora do Brasil pela primeira vez, em 2008, a lutadora precisou ir em busca de recursos para pagar a passagem até os Estados Unidos, já que a organização não incluía o valor do translado na bolsa.

Foto: Divulgação

Para a minha primeira luta nos Estados Unidos, fiz tipo uma rifa para arrecadar o dinheiro e conseguir fazer minha primeira luta fora, contra a Shayna Baszler. A gente meio que arrecadou, foi pedindo para um e para outro para conseguir ajudar na passagem, porque o valor que eu receberia de prêmio era equivalente ao da passagem. Eles preferem gente que more nos Estados Unidos, não fora. Mas era a primeira luta (nos EUA), então era a oportunidade que eu tinha. A partir dessas lutas, várias portas se abriram para mim, foi a partir disso que assinei contrato no EliteXC, lutei com a Gina Carano no Strikeforce. No final, valeu à pena, foi ali que o mundo passou a conhecer a Cyborg – conta a lutadora.

Vinda de uma época em que a luta era praticada apenas por amor, Yvone Duarte comemora a possibilidade de as lutadoras se tornarem profissionais.

– Na minha geração, o jiu-jítsu era amador. Essa é uma nova geração que ganha dinheiro com artes marciais. Fico satisfeita em ver que essa é uma possibilidade de chegar ao mercado de trabalho.

O FUTURO DAS MULHERES NAS LUTAS

As mulheres precisam continuar lutando, literalmente, para que a igualdade seja finalmente alcançada. De olho nas próximas gerações de lutadoras, Cris Cyborg afirmou que é necessária a criação de mais categorias e também de novos eventos. Para a lutadora, esse suporte mais amplo pode fazer com que mais mulheres tenham a oportunidade de entrar no universo das lutas.

– Acho que as mulheres têm direito de ter mais categorias, assim como os homens. Também entendo que o esporte feminino está crescendo, que não tem tantas meninas, mas acredito que, a partir do momento que eles derem mais suporte e abrirem mais categorias, meninas de outras modalidades vão migrar para o MMA. Acho que em breve eles devem abrir outra categoria, mas precisam aparecer mais mulheres. Elas precisam de mais eventos com suporte, preparando para entrar no UFC. Você não vê muitos eventos pequenos para começar, amadores. Esse é o primeiro passo, criar mais eventos para as meninas começarem e verem o que elas gostam mesmo, onde querem lutar e tentarem vários pesos para saberem onde se sentem melhor – acredita Cyborg.

Foto: Reprodução/Facebook

A pesquisadora Patricia Lessa declarou que a resistência é o caminho para vencer o preconceito e superar as desigualdades históricas que acontecem entre homens e mulheres.

– Avançamos no campo desportivo quando homens e mulheres começam a ter as mesmas oportunidades, ou seja, competições especificas, premiações e valores iguais ou próximos, ou mesmo reconhecimento e respeito da parte da mídia esportiva. Todos estes elementos compõem uma gama de valores e de lutas que se traduzem em conquistas para as atletas. O caminho é longo e ainda é necessário muito trabalho. Existe uma histórica resistência à participação das mulheres nos esportes, porém, as interdições não aconteceram sem resistência. As mulheres continuam lutando por espaço, seja no octógono, seja no tatame, nas quadras, no campo ou na política desportiva, a cada passo uma nova conquista garante que mais atletas possam ter a oportunidade de participar e de competir.

Presente no início da jornada feminina nas lutas, Yvone Duarte garantiu que o assunto precisa ser sempre discutido para que as mulheres continuem alcançando conquistas nas questões de igualdade de gênero.

– Quero acreditar que, no futuro, a participação delas vai ser mais igual em campeonatos e também no mercado de trabalho, e que teremos um equilíbrio nas oportunidades. A participação de mulheres no jiu-jítsu tem apenas quatro décadas, isso é muito pequeno. Quando eles começaram? Nos anos 40. A tendência é diminuirmos essa desigualdade. E é importante dar espaço para que as mulheres se expressem, para que elas lutem dentro e fora do tatame, sempre discutindo políticas que promovam a igualdade e dando a elas a oportunidade de contribuir. Precisamos continuar resistindo, assim como resistimos em vários pontos da história. Não podemos nos deixar oprimir.

Amanda Nunes é exemplo para as mais jovens, como essa criança no Instituto Reação (Foto: Jamille Bullé)

Fonte: Sportv

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