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O amor que merecemos

Por que sempre achamos que merecemos mais do que a vida nos dá?

Nós passamos muito tempo de nossas vidas fingindo que amamos. Tratamos nossos parceiros como posses, porque “merecemos”, mas nunca buscamos entender de verdade suas necessidades. Compramos coisas para nós mesmos porque “merecemos”, sendo que geralmente nunca nem mesmo nos esforçamos: nós não fazemos nada para melhorar, para sermos pessoas melhores. Acabamos nos debatendo uns nos outros, passando por cima uns dos outros, porque desconhecemos o que é amor (tanto o próprio, quanto direcionado ao outro).

Dizemos todo tempo, deliberadamente, que amamos. “Eu te amo”, para a pessoa que você acabou de conhecer. E sim, acredito que hora ou outra possa ser um amor genuíno, até o momento que ele se transforma em posse. Em que vocês dois queiram tanto um ao outro, que quase se transformam em um. Por isso tanta gente tem medo de se relacionar, porque está tão distante de si mesmo, que estando em contato com o outro, perderá esse resquício de si em pouquíssimo tempo.

Geralmente ficamos juntos não porque amamos, mas porque nos sentimos sozinhos, porque acreditamos que não nos bastamos, porque abastecemos ódio por nós mesmos todos os dias. Ficamos junto do outro por necessidade, porque temos medo de enfrentar nossos demônios. Quando, na verdade, ficar junto ao outro deveria funcionar como uma troca, em que cada um ajuda o outro a crescer, a chegar ao ápice de suas existências (cada um por si). Mas paramos no meio da escada, destruímos os degraus que vão pro topo, por medo de perder o outro. Porque se você perde o outro, você já nem sabe mais quem é, porque nesse meio tempo você se perdeu. Você virou o outro. Você não tem mais nenhuma personalidade.

Nós criamos status do facebook para mostrar ao mundo que não somos perdedores, que temos alguém ao nosso lado que nos ama, mesmo que seu relacionamento já tenha perdido totalmente o sentido e que agora só restem ofensas. Está tudo bem se para o mundo você pareça alegre e contente. Essa sensação de conquista é levada para si e para o outro. Como um jogo de tabuleiro, sua meta é apenas chegar aos status impostos, sem nem mesmo pensar realmente na pessoa que está ao seu lado, nas suas inquietações, em seus traumas, em suas questões mais profundas.

 

Flavia Leme: Recipiente 5 — da série Mulheres Recipientes, 2002. Foto por Rafael Pillegi.

Aos poucos vamos perdendo a capacidade de nos relacionarmos. De sentir a presença do outro. De sentir a grandiosidade do amor. Porque estamos preocupados, na verdade, obcecados, se aquela pessoa que estamos naquele momento, é a pessoa com a qual vamos casar, com a qual vamos ter filhos. Você nem mesmo está ali, enquanto ela cozinha pra você! Só está imaginando o futuro, traçando planos solitariamente, para ver se aquele ser que está ali na frente vai suprir todas as suas necessidades ou não! Tudo o que importa pra você é o futuro! Se aquela relação é promissora ou não. Se aquela pessoa tem tudo para te oferecer ou não! Mas, na verdade, ninguém tem nada pra te oferecer. Só você pode fazer isso. Só você pode se dar o que precisa. Ninguém mais pode te dar esse poder. O outro está ali para, no máximo, te dar um sorriso pra que você persevere em si mesmo. E isso é o amor. Não é se doar pelo outro completamente até perder a identidade. É ser inteiramente você, inteiramente completo, para que possa dar as benções que o outro precisa em momentos críticos. É estar com o outro para celebrar: celebrar a completude de cada um, solitariamente, mas ao mesmo tempo, juntos.

Texto: Camila Fraga, Via: Medium

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