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Por que uma mulher que fala sobre sexo incomoda tanto?

Jordana Laitano reflete sobre a reação da sociedade diante de mulheres dispostas a se expressar livremente sobre o assunto

Duas colunas no ar e perdi as contas de quantos comentários ofensivos, desinformados ou que relacionavam a minha fala a algo partidário (sim, inacreditável). Teve gente que, gentilmente, me alertou a parar de ler o que vinha depois que meu texto era postado.

Claro que não vou fazer isso. Primeiro porque algumas coisas me arrancam boas gargalhadas, outras me dão um quentinho no coração e, infelizmente, a maioria me faz pensar até fritar o cérebro: por que a sexualidade feminina incomoda-irrita-amedronta tanto ambos os sexos?

Gostaria que a porcentagem de comentários (bons ou ruins) fosse de 50/50, mas não é isso que acontece. A avassaladora maioria de quem comenta essa coluna é composta por homens, heterossexuais, pais de família, o padrão de sempre. O que sobra fica divid12ido entre os que endossam o coro do “mulher tem que ser livre pra fazer o que quiser” e companheiras que dão a cara à tapa expondo suas opiniões e, lado a lado, recebendo críticas comigo.

Ora, somos abençoadas com um órgão exclusivo para nos levar ao êxtase e, tenho certeza, ele não está ali por acaso. Ele quer ser usado. Ele DEVE ser usado, descoberto, aproveitado.

Me entristece saber que muitas mulheres esperam iniciar a vida sexual para serem tocadas por outras pessoas – antes mesmo de conhecerem as belezas, truques e felicidades presentes no templo que habitam.

Enquanto desde cedo as garotas não tiverem intimidade com o próprio corpo, dificilmente saberão guiar o parceiro para o caminho da felicidade.  Não é a toa que, segundo o Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (Prosex) da USP, a conclusão de uma pesquisa realizada em 2017 foi de partir o coração: metade das brasileiras não têm orgasmo nas relações sexuais. Arrisco um palpite aqui: muitas, possivelmente, sequer sabem o que é ter um orgasmo.

Claro que nem tudo é culpa de quem está dividindo a cama, mas me parece o reflexo de anos e anos de descompasso entre como os homens são incentivados à sexualidade o tempo todo e nós, bom, nós ficamos para trás. E quando resolvemos falar, somos massacradas pela torcida da moral e dos bons costumes. O que é uma perda imensa para ambos os lados, não acham? Acredito que mulheres bem resolvidas, cientes daquilo que lhes dá prazer é uma fonte inesgotável de experiências memoráveis. Para a outra parte, inclusive.

Não raro, vira e mexe ouço entre garotas do meu círculo que elas acham normal o homem ter nojo de fazer sexo oral – higiene é fundamental para todos os corpos, por que com o nosso seria diferente? Aí eu penso em mulheres cheias de tesão, cheirosíssimas da cabeça aos pés, que se obrigam a fazer sem receber por medo do que o cara vai pensar do seu CHEIRO. Que nada mais é do que um cheiro de corpo. O maravilhoso cheiro selvagem do tesão.

Em tempo: chega também desse papo machista de que mulher e sexo só podem estar relacionados quando a serviço do homem. O pensamento terrível que muitas ainda têm de “preciso transar para não perder o marido” deve ser erradicado do universo.

Mulher, me ouve: o sexo, a masturbação, as carícias, são um caminho sem volta de autoconhecimento e evolução legítimos. Isso deve ser valorizado. Vamos aprender, cada vez mais cedo (mas também nunca é tarde para começar ) a descobrir a nossa potência sexual. Na bagagem, o empoderamento e a autonomia vêm de brinde.

Sempre fui protagonista da minha própria sexualidade e, por isso, o tempo foi passando e passei a expor cada vez mais a minha vida íntima. Em casa, na rua, na internet. Por sorte, meus pais nunca me reprimiram nem nunca pareceram constrangidos em ter uma filha “assim”. Leia-se o “assim” como a bagaceira da família, a desbocada, a precoce, a que gosta de aparecer e por aí vai…

E assim, muitas como eu, mulheres dispostas a se expressar livremente, passam a ser vistas como uma grande afronta aos (infelizes) olhos alheios. Para reprimidxs, a única saída é o ataque.

Para nós, a melhor saída é o orgasmo. Aceitem.

Fonte: Jordana Laitano é publicitária, produtora de conteúdo, feminista, entusiasta das conversas de bar e das histórias de amor. Escreve semanalmente sobre sexo e relacionamento em revistadonna.com.  

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