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Quando um canalha é apenas um canalha

Como lidar com a chamada ‘responsabilidade afetiva’ sem necessariamente recorrer à difamação pública?

A cena já está ficando batida nas redes sociais. Um homem é denunciado por uma mulher. Mas a denúncia não o acusa de assédio, violência física etc., ela fala de certas dinâmicas de uma relação passada e da conduta do cara denunciado. Essa parte das denúncias fala de relações (efêmeras ou não) das mulheres com homens que têm certos padrões de comportamento. Homens que se mostram interessados e depois somem, homem sedutores, mas com dificuldades de criar vínculos afetivos, homens cujos discursos são feministas, mas que no campo das relações privadas revelam indiferença, incapacidade de terminar relações etc.. Desconfio que esses comportamentos levaram as mulheres a formularem o termo “responsabilidade afetiva”. Se um homem considerado um canalha não podia ter seu comportamento enquadrado como estupro, assédio etc., era preciso criar um novo termo para legitimar a denúncia.

Não sou fã dessa invenção. Mas uma vez que ela está presente em muitos textos que leio nas redes sociais, comecei a me perguntar duas coisas. Por que a responsabilidade afetiva é tão citada? E como podemos lidar com ela sem necessariamente recorrer (apenas) à difamação pública dos homens?

Quando comecei a ler as denúncias, desconfiava que parte delas expressava a dor do luto amoroso. Mas acho que essa hipótese é insuficiente para falar da responsabilidade afetiva. O que vejo hoje é que muitas mulheres saem machucadas de relações e têm dificuldade, justamente, de viver esse luto. O que é vivido não é o sofrimento de um fim (que faz parte de toda relação), mas a angústia de ter vivido algo e não poder nomear seu fim, uma vez que o parceiro, muitas vezes, não reconhece o que houve como uma relação afetiva. Penso aqui nos muitos relatos de mulheres que viveram um certo tempo com homens que, de repente, passaram a agir como se a relação não tivesse acontecido. Viagem à praia, declarações, mensagens diárias no WhatsApp para, de repente, tudo ser tratado como nada. Aqui, penso que o efeito do gaslighting talvez se repita: a mulher que tem muita certeza que viveu uma relação concreta, mas que, ao falar disso, é tratada como louca por seu ex parceiro.

Não acho, de forma alguma, que esta dor seja pequena. Acho também que, ainda que não haja agressões graves, é possível que haja sim dinâmicas extremamente nocivas às mulheres. Afinal, desconheço mulheres que nunca tenham passado por uma relação abusiva. Mas o que nós podemos fazer com tudo isso? O que espanta é que, muitas vezes, repetimos essa escolha, como se desejássemos essas relações. Qual parte desses homens capazes de nos maltratar nos atrai? Essas perguntas são doloridas, porque nos levam a assumir o quanto participamos da construção de relações abusivas. Uma relação é sempre uma aposta, claro, e nunca sabemos como o outro vai agir. Mas não me parece errado pensar que repetimos padrões e que, depois de alguns relacionamentos, conseguimos identificar certos comportamentos masculinos.

Nada me parece mais terrível do que achar que estamos na janela, esperando aquele que chega e nos escolhe, nos ama ou nos ilude, como se não estivéssemos na posição de quem também sai à procura de parceiros, como se não fôssemos capazes de repensar relações ruins e escolher melhor com quem queremos nos relacionar

O lugar de denúncia, sem dúvida, é um lugar de depoimento. Muitas denúncias que acompanho vilanizam o homem e desimplicam a mulher: vejam este monstro, namorou comigo, me fez mal e me deixou arrasada. Algumas pessoas dizem que é perverso acabar com a reputação de um indivíduo a fim de isolá-lo, impedir que outras mulheres fiquem com ele, porque essa medida pressupõe que ele não é capaz de mudar, de viver relações mais saudáveis no futuro.

Mas tenho percebido que a denúncia é perversa também – e sobretudo – conosco, mulheres. Quando denunciamos alguém (com quem vivemos uma relação adulta e consentida) e apontamos esta pessoa como inteiramente responsável pela nossa desgraça, quando dizemos que fomos vítimas do mau caratismo, da falta de ética de um homem, também ficamos desprovidas da nossa condição de sujeitos. Nada me parece mais terrível do que achar que estamos na janela, esperando aquele que chega e nos escolhe, nos ama ou nos ilude, como se não estivéssemos na posição de quem também sai à procura de parceiros, como se não fôssemos capazes de repensar relações ruins e escolher melhor com quem queremos nos relacionar. Fazer essas perguntas duras tentando entender por que gostamos de viver algumas roubadas, me parece, é um caminho interessante para transformarmos o cenário das relações heterossexuais.

Em relação aos homens, em vez de dar um monte de conselhos, eu pergunto: o que vocês podem fazer em relação a essas repetições, pra além de criticar o modo complicado em que as denúncias estão sendo feitas? Já tentei apontar questões na conduta de amigos homens. Fui bem-sucedida APENAS UMA VEZ. No geral, é um inferno. O ápice foi um amigo que disse “eu sei que sou machista, mas não quero ser julgado por isso”. A amizade obviamente acabou. Então, digam vocês, que costumam ser tirados do lugar de fala nessas discussões: o que vocês pensam em fazer? Aliás, pensam efetivamente em fazer alguma coisa? Honestamente, há muito homem com anos de divã que nunca se perguntou sobre seu comportamento com mulheres. Eu acho que uma das perguntas que deveriam ser feitas é: por que é tão bom ficar nesse lugar do cara que agora corre o risco de ser denunciado por ser um canalha? Que função isso cumpre para vocês? E qual espaço outro, longe das redes sociais e das denúncias e difamações, vocês têm aberto para discutir – entre vocês e conosco – essas dinâmicas abusivas?

Reduzir essa discussão sobre as relações a um certo tipo de denúncia aponta para um horizonte em que os homens, de um lado, serão denunciados, punidos e isolados e as mulheres, de outro, ficarão reduzidas à posição passiva de puramente vítimas, incapazes de se implicar nas relações que vivem. Ou, parodiando uma frase bastante usada no carnaval: se organizar direitinho, ninguém mais se relaciona.

Por: Natália Leon Nunes

Via: Hysteria

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