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Sara Campos: mulheres na publicidade

No dia 08 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher. Diante de uma data tão simbólica, é indispensável analisar a contribuição da mulher no mercado de trabalho. Elas passaram por incontáveis lutas em busca de representatividade e espaço no século XX. O resultado deste processo de empoderamento ainda é tímido se comparado com a presença masculina em determinados setores, mas já é sentido em diversos ambientes, dentre eles o da comunicação.

Em termos gerais, é possível afirmar que a presença da mulher nesse mercado traz grandes benefícios, uma vez que são bastante criativas, focadas e objetivas. Características como estas estiveram presentes na vida de Sara Campos, que se viu muito cedo no mercado de trabalho e ganhou destaque como publicitária e empresária.

Confira no #ElasInspiram de hoje como ela encarou e desafiou os obstáculos da área e conseguiu se tornar uma mulher empoderada e bem-sucedida.

Foto: Reprodução/ Instagram

PD:         Sendo mulher e publicitária, da área de criação, como se deu a sua relação no mercado de trabalho – em que a área de criativos é composta, em maioria, por homens? Foi fácil encontrar trabalho nessa área?

A área de criação sempre me encantou. Inclusive troquei a faculdade de Relações Internacionais pela de Publicidade justamente pelo apelo criativo. Logo que comecei a buscar estágio, direcionei meu currículo ao setor de criação, mas sempre nas entrevistas me ofereciam uma vaga na parte comercial da agência. Neguei boas oportunidades por não querer atuar nessa área. Hoje acabo fazendo a parte comercial lá da empresa, mas minha paixão mesmo é criar. Adoro debater ideias e estratégias. Ver as ideias saírem do papel e ganharem vida é muito realizador. Poder inspirar outras pessoas, profissionais e até agências, é o que me motiva. Acordo sempre pensando: que arte podemos aprontar hoje? (risos). Trabalhar com ideias é excitante. Temos uma possibilidade infinita de poder influenciar pensamentos e, até mesmo, promover mudanças.

PD:         Em sua área de atuação, você possui referenciais femininas? Quais?

Fiquei surpresa por não conseguir lembrar o nome de uma mulher na minha área. Que triste! Quando pensamos em profissionais brasileiros no meio da propaganda sempre surgem nomes masculinos, como Washington Olivetto, Marcelo Serpa e Nizan Guanaes. Mas é inquietante perceber que no mercado, dificilmente alguém se lembre de pelo menos uma mulher publicitária. Temos que mudar isso!

PD:         O mercado da publicidade é famoso por casos de assédios, sejam sexuais e/ou morais. Você já sofreu algum deles? Conte um pouco, caso sinta-se à vontade.

Eu sempre fui muito bem recebida nas agências que trabalhei. As dificuldades vieram mesmo quando resolvi abrir minha própria empresa. Iniciei a Tríade com minha ex-sócia Mariana. Éramos duas mulheres novas de idade e novas no mercado. Aos 23 anos tinha reunião com donos e diretores de empresas – majoritariamente homens – e fui inúmeras vezes estereotipada e objetificada.

O mercado corporativo tem uma grande tendência a subestimar a força da mulher. Como se fossemos frágeis demais para segurar as rédeas ou dar conta do trabalho. Mas eu já virei noites carregando cadeiras e mesas nos eventos que produzíamos; e sempre entregamos tudo com igual habilidade e excelência. Um dos projetos mais bacanas que fiz, por exemplo, o Festival Foodstock, foi desenvolvido juntamente com mais cinco mulheres incríveis. E foi um grande sucesso.

Foto: Reprodução/Instagram

PD:         Agora, na posição de chefe, como você enxerga a mulher no mercado? Você emprega mulheres? Existe algum tipo de dificuldade em encontrar profissionais do sexo feminino? Caso haja, a que você atribui essa falta?

Nunca busquei mulheres especificamente para a vaga de criação, a não ser quando comecei a implantar o Papo Delas. Queria uma visão feminina e poder trazer mais mulheres para o meio da publicidade. Mulheres são melhores? Não. Nem piores. Mas podem trazer pontos de vista, histórias, perspectivas e ideias diferentes.

No entanto, sempre que surge uma vaga no setor de criação a maioria dos currículos que recebo são de homens. Talvez porque o fluxo de informação chegue logo a eles, através dos próprios colegas. Ou quem sabe não foi devido ao grande número de mulheres servindo cerveja nas propagandas que a publicidade passou a fazer tanto sucesso no meio masculino?

Recentemente, o Meio e Mensagem realizou uma Pesquisa nas 30 maiores agências do país e detectou que a presença feminina é inferior a 20% no departamento criativo, e as que ocupam alguma função de liderança resulta em apenas 6%.

Colocar mais mulheres na publicidade não é só mudar a representatividade, mas é também promover uma mudança cultural.

Uma das maiores surpresas que tive, e continuo tendo, foi perceber que aprendo diariamente com minha equipe. É muito legal poder conviver com outras mentes criativas e evoluir com essa diferença entre os pensamentos.

PD:         O que te motivou a criar o Papo Delas? E o que você pretende conquistar com esse projeto?

Fora a experiência pessoal, uma das minhas maiores motivações foi o desejo pela igualdade em tratamento. Não só no mercado corporativo, como também, no dia-a-dia. Acredito que estamos em um novo tempo. Certos comportamentos e intolerâncias já não cabem mais. 

Eu espero contribuir para mudanças. Quero que as mulheres se inspirem uma nas outras, seja por possuírem histórias de vida parecidas ou por se espelharem em alguém. Pessoas com o interesse genuíno em serem agentes de mudanças, fomentar um mercado com mais diversidade em todos os sentidos, e ajudar a criar um mundo mais justo para elas próprias.

PD:         Como você enxerga o seu projeto daqui a 5 anos?

Se eu disser que consigo enxergar o que será o Papo Delas daqui a cinco anos, estaria mentindo. Eu sei que nossa vontade de falar, sempre existiu. Talvez faltasse espaço, oportunidade ou até mesmo coragem, mas eu acredito que mais do que nunca estamos todas clamando por mudanças. Estamos juntas na busca de um mesmo objetivo. Vemos isso claramente nas manifestações que andam acontecendo, como a Womens March, no discurso de Oprah no Golden Globes e no discurso de Frances McDormand no Oscar esta semana. Hoje a questão da desigualdade de gênero incomoda e pede mudanças.

Foto: Reprodução/ Think Olga

PD:         Sou mulher e achei o seu projeto interessante. De que forma eu posso colaborar para essa rede?

Meu desejo é que cada vez mais mulheres participem do Papo Delas, dividindo suas histórias de vida, lutas e conquistas. Existem tantas mulheres com histórias lindas a serem contadas. Muitas vezes não percebemos, mas temos uma mulher “foda” bem do nosso lado – uma amiga, colega de trabalho, mãe, professora, etc. Há tantas mulheres fazendo coisas extraordinárias por aí. Seja na criação de um filho, no trabalho ou em situações de superação. O que queremos é que essas histórias sejam contadas e sirvam de inspiração para que mais e mais mulheres possam ver que elas TAMBÉM PODEM!

PD:         Sou homem e achei o seu projeto interessante. De que forma eu posso colaborar?

Convidar o homem para dentro das nossas conversas e debates é muito importante. A igualdade só existirá se for algo visto e aplicado por homens e mulheres. Mas temos um caminho grande a percorrer ainda. Os homens precisam enxergar que a submissão – de nenhuma das partes – é comum. Somos diferentes, pensamos diferente e a graça toda está nisso. Aprender a respeitar o outro e o seu espaço é algo necessário para evoluirmos como seres humanos e sociedade.

PD:         Quais mulheres lhe inspiram? De que forma?

Marise Campos em anúncio do Shopping Iguatemi.
Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Eu tenho algumas mulheres que me servem de inspiração. Personalidades como Oprah Winfrey, por exemplo. Sua história de vida emociona. Foram muitas lutas para chegar onde ela está hoje. Mulher, negra, vinda de família pobre. Lutou contra adversidades e atualmente é uma das mulheres mais poderosas nos Estados Unidos. Sem dúvida, uma inspiração, porém as grandes inspirações da minha vida foram às mulheres da minha família.

Cresci com duas mães, no meio de três tias, três primas e três irmãs. Sim! No meio de uma “renca” de mulheres (risos). E quando digo que tive duas mães, faço referência a minha avó. Sou filha de pais separados e minha avó teve grande participação na minha criação. Hoje aos seus 84 anos talvez ela nem saiba da sua importância.

Mãe de cinco filhos, casada duas vezes, ela foi uma das primeiras lojistas do antigo Shopping Iguatemi (hoje Shopping da Bahia). Tinha uma loja de alta costura e sempre foi de arregaçar as mangas. Aliás, todas as mulheres da minha família são assim.  Lembro dela impecavelmente bem vestida, com seus cabelos loiros trabalhado no laquê e seu batom vermelho, sentada numa mesa de bar – bebendo cerveja e fumando cigarro – junto com minha mãe e seus amigos. Ela sempre foi daquelas mulheres de presença forte. Agora pense, se até hoje estamos debatendo sobre mulheres nas mesas de bar, imagina naquela época?

PD:         Como exemplo de mulher bem-sucedida, dona do seu próprio negócio e com um projeto que tem como objetivo a criação de uma rede de fortalecimento e empoderamento; Que mensagem você deixa para essa nova geração de mulheres que estão cada vez mais insatisfeitas com a condição que lhes é imposta? O que devemos fazer para sermos bem sucedidas?

Devemos primeiramente acreditar em nós mesmas. Somos capazes de tudo quando acreditamos. Devemos ser nossas maiores incentivadoras. Afinal, se não acreditarmos em nós mesmas, quem irá? Lembremos que as dificuldades surgirão – elas surgem para todos -, que receberemos “nãos”, que iremos querer em algum momento desistir… Mas persistência e trabalho duro nos levam a conquistas inimagináveis. Como bem dizia minha mãe: Se você não fizer, ninguém fará por você!

 

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