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Giovana Madalosso: “Sou feminista, minha literatura, não”

Rabudinha é uma paulistana classe média, com interesses medíocres e mediana em tudo mais. A virada da narrativa, o momento que faz o leitor pensar “eita!”, é quando descobre que, como toda personagem (e pessoa), Rabudinha guarda um segredo. O dela é curtir sair com clientes do restaurante onde trabalha pra roubar objetos de luxo e revender para Tiana, sua amiga trans que também é dona de um brechó. A história segue quando ela recebe uma proposta louca e irrecusável (leia-se: muita grana) para roubar um livro raríssimo avaliado em dezenas de milhares de reais.

Arrisco dizer que nada disso importa. O enredo é sim maravilhoso e pronto para versões cinematográficas (não à toa os direitos já estejam sendo negociados para o audiovisual), mas o coração do livro é como aquele momento em que descobrimos que a personagem é apelidada de Rabudinha.

É a irreverência da narrativa, os diálogos certeiros, o descaso com suicídio, com drogas, com mortalidade, com a vida, com tudo – essa iconoclastia vazia tantas vezes acusada como a patologia do século exposta de forma inteligente que transforma “Tudo pode ser roubado”, primeiro romance de Giovana Madalosso, em um livro que merece muito ser lido. 

De leitura gostosa, prazerosa, e rápida – daquelas que é difícil parar – ele vira um amontoado de questionamentos que vão do individual ao social com uma naturalidade ímpar. Você nem sente que está pensando o mundo e quando vê, eita, lá vem um monte de ideias sobre onde estamos e pra onde vamos. Esse tipo de efeito que bons livros conseguem gerar. “Eu acho que o vazio existencial independe do estilo de vida”, Giovana fala em entrevista à CartaCapital.

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TUDO PODE SER ROUBADO, Giovana Madalosso

Todavia Livros, 2018

192 páginas

R$49,90

Mas, bom, a expectativa era inegavelmente grande: seu livro de estreia, “A teta racional”, vai além do título genial para explorar questões da mulher com uma profundidade visceral.

Talvez o melhor livro de contos da literatura nacional dos últimos tempos, ele não tem medo da sujeira e se despe de maquiagens para mergulhar na crueza da vida em grandes metrópoles na rapidez e opressão do novo milênio. “A humanidade nunca foi tão diagnosticada. Ou seja: não dá para saber se estamos mais doentes ou se sempre fomos assim e apenas não sabíamos. Mas imagino que o estresse das grandes cidades e a cobrança para sermos bem-sucedidos e magros e dignos de receber mil likes estejam gerando quadros de ansiedade nas pessoas”, Giovana fala.

Suas personagens são mulheres. Não mulheres fortes, ou mulheres com algum aposto amigável à moda capitalista de apropriação de um feminismo raso e palatável. São mulheres, e ponto, mulheres reais, boas, ruins, fracas, fortes. Humanas.

“Todos os dias eu acordo e vejo na rua personagens femininas incríveis que nunca foram representadas na literatura, ou ao menos não por escritoras mulheres. Então o que me move e continuará me movendo por muitos anos é trazer essas figuras para as minhas páginas.” Ela explica, e completa: “Eu me sinto à vontade para escrever sob o ponto de vista de um homem, mas não tenho vontade de fazer isso porque o homem já está muito bem representado na literatura.” 

Sozinha no meio da gigantesca São Paulo, Rabudinha e as protagonistas de “A teta racional” passam por amizades, relacionamentos, ilusões e desilusões. “Solidão e amizade, de fato, são dois temas recorrentes para mim, e não os vejo de forma antagônica, como veneno e antídoto.”

A noite paulistana é outro ponto que cresce nas suas histórias, tanto que poderia ser uma de suas personagens também. “Dramaticamente, acho a noite interessante pelos seus extremos: a euforia, a busca por diversão e felicidade e a frustração por sermos incapazes de sustentar o tempo todo esse estado de espírito. Mas o que mais me encanta na noite é o seu caráter subversivo, não no sentido de acolher o que é ilícito, mas de quebrar a rotina funcional e hiperprodutiva da pessoa contemporânea. Nesse sentido, acho que a noite oferece uma oportunidade quase ritualística: dançar por horas a fio, relegar a mente a favor do corpo, esquecer o tempo, cantar com outras pessoas. E não importa que a motivação para tudo isso seja hedonista. A noite é o que nos sobra, é o que temos e, não à toa, é frequentada por tantas pessoas.”

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A TETA RACIONAL, Giovana Madalosso

Editora Grua, 2016

130 páginas

R$34,90

A maternidade é outro desses temas poderosos. Não a maternidade comercial de margarina, da formação de uma família perfeita, da bênção divina de ser mãe. É a barriga grande, a dor nas costas, os peitos cheios de leite endurecido, a criança chorando, a fralda suja.

“A maternidade me colocou num lugar de extrema vulnerabilidade, algo que eu nunca tinha experimentado antes. Tornei-me exposta, frágil e mais empática ao sofrimento alheio”, explica. Tudo isso transparece no texto.

E, ainda em conexão com o contexto social do Brasil do mundo, Giovana completa: “Estamos vivendo um momento histórico de retrocessos e intolerância, e me alegra saber que não estou fazendo uma literatura cheia de julgamentos, que se coloca acima do leitor, mas uma literatura que olha com interesse e respeito para o lado vulnerável das pessoas.” 

A pergunta que não poderia faltar é talvez a mais óbvia de todas. Você considera sua literatura feminista?, pergunto. “Eu sou feminista, minha literatura, não”, declara. “Eu me recuso a taxá-la de feminista ou de qualquer outra coisa porque, para mim, a maior virtude da literatura é ser um terreno livre, onde podemos nos reinventar infinitamente, inclusive no âmbito ideológico. O meu desejo de repensar padrões de gênero e discutir a posição da mulher não vai mudar e continuará vazando para dentro da minha ficção, mas rotular minha literatura a partir disso iria apequená-la. Não tenho por que fazer tal coisa.” 

É verdade. Seus textos se sustentam sozinhos, sem necessidade de nenhum suporte. 

Fonte: Carta Capital

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