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Sista Kátia: A mulher gorda tem que entender o seu corpo, não aceitá-lo.

Sista Kátia (31 anos) é grafiteira, conectora urbana, influenciadora digital, cozinheira vegana, feminista, atuante pelo empoderamento das mulheres gordas… Ela é um pouquinho de tudo!

Multifacetada, teve inspiração nas mulheres com quem conviveu ao longo da sua formação e tem sua mãe como principal referencial – uma mulher, que sozinha, precisou fazer várias coisas para sustentar a família.

Nascida em São Paulo, vinda de um contexto social periférico, se mudou pra Salvador bem pequena com a família, após o termino do relacionamento de seus pais. (O clichê social, do homem que abandona a família e a mulher assume todas as responsabilidades).

Foi na adolescência, após conhecer a cultura hardcore punk, através do skate e hip-hop que ela se inseriu nos movimentos políticos. Começou a entender sobre feminismo, luta de classes, anarquismo, veganismo, combate ao racismo, homofobia e transfobia, se tornando hoje uma referência em autoestima e militância para muitas mulheres.

Convidamos a inspiradora Sista Kátia para batermos um papo e para falarmos sobre bullying, autoestima e o espaço da mulher gorda na sociedade.

Confira e inspire-se!

PapoDelas: Você já sofreu bullying ou algum outro tipo de violência física ou psicológica por ser gorda? Como você lidou com essa situação?

“É impossível, que alguém, não tenha sofrido bullying em algum momento da vida.”
“Sempre fui gorda, desde criança. Com direito a todos os apelidos associados à fofura e a gordura.”

Quando criança, os apelidos eram bonitinhos. Já na adolescência, eles começaram a ficar mais pesados: Baleia, Free Willy, obesa, saco de areia e por aí vai. Todas as coisas que eram relacionadas aos padrões estéticos. Na infância eu era gorda, mas era uma criança. Já na adolescência, que é o período dos hormônios e transformações do corpo, as exigências da sociedade mudam.

As mudanças corporais acontecem de forma igual em todas as meninas. Minhas amigas passaram pela puberdade, magras. No meu caso, por ser gorda, as roupas eram diferentes e a pressão era para eu emagrecer – tanto por parte da família, quanto das amigas: “É… Mas Kátia é gorda”. Como se fosse ruim eu ter um corpo diferente das demais.

Já na escola, a pressão vem através de apelidos e xingamentos, mas como eu sempre fui muito desenvolta usava o ataque como defesa. Se me davam apelidos, eu criava outros muito piores para eles.

É comum contarmos sempre a parte onde sofremos bullying, mas nunca falamos sobre as opressões que também cometemos. Eu acabei propagando muito o bullying. Criava apelidos e brigava muito, principalmente com os meninos. Isso não me orgulha, mas muitas vezes precisamos passar por esse endurecimento para poder descobrir quem realmente somos. Não acredito que tenha sido um processo saudável – não indicaria isso a ninguém – mas foi o caminho que encontrei para sobreviver ao que passava.

Na vida adulta, essa opressão se dá de forma mais sutil. Não vão te falar diretamente, mas você vai sentir no dia-a-dia: quando for passar por uma catraca de ônibus; quando entrar em uma loja de roupas e ninguém te atender por achar que não vai ter nada lhe caiba; quando um atendente lhe pergunta: “É pra você?”

Pra mim, o mais impactante disso tudo é a reprodução desses “ranços” na mídia e como isso chega até as crianças. Em todas as brincadeiras, novelas, desenhos animados… Sempre pintam de heroína a menina que se encaixa no padrão socialmente imposto; a menina branca, magra, que vem de um contexto social específico. Ela é a princesa. E se tiver uma irmã que é mais gordinha, a irmã será a coadjuvante. A gorda nunca vai ser a personagem principal ou a personagem que é amada. Ela sempre vai ser a engraçada. A maneira que isso é apresentado às crianças me preocupa bastante.

Foto: Reprodução/ Instagram

PD: É uma luta ser mulher gorda em um mundo onde o “padrão” vigente são os manequins 36-38. Fica difícil não se sentir um peixe fora d’água quando existe pouca representatividade na mídia, é um risco para a autoestima. Como ocorreu o seu processo de entendimento do seu corpo?

“Eu acho que a mulher gorda tem que entender o seu corpo, e se não estiver satisfeita com esse corpo, ela tem todo o direito de emagrecer, de fazer cirurgia, de fazer o que ela quiser”.

Eu sempre fui muito criativa para lidar com essas coisas, principalmente em relação à moda. Sempre criei meus looks, customizei minhas roupas. Costumava chamar de “Roupas Frankestein”, porque era uma mistura das roupas masculinas do meu irmão, as roupas antigas da minha mãe, meus garimpos em brechós, mais roupas masculinas e algumas peças que eu ganhava de presente, geralmente de lojas de departamento, que quase nunca cabiam em mim, mas eu as transformava.

O entendimento do meu corpo foi gradativo. Eu não curto o termo “aceitação”. A aceitação está muito ligada à acomodação e eu acho que a mulher gorda tem que entender o seu corpo e se não estiver satisfeita com ele, ter todo o direito de emagrecer, de fazer cirurgia, de fazer o que ela quiser. Acho que não vamos combater um padrão imposto construindo outro padrão. Ela não tem que se aceitar, ela tem que entender o seu corpo e se achar que deve mudar, ela tem que mudar. Se eu quiser mudar, eu posso treinar, procurar métodos estéticos (que não é o meu caso), mas eu gosto do meu corpo, eu cuido dele, principalmente por dentro. Sou vegana, então tento lidar com a saúde de outra forma – não só estética. A parte física e mental vai muito além de ir à academia e ter um corpo esculpido.

Foto: Reprodução/ Instagram

PD: Percebemos alguns avanços ao longo do tempo, mas ainda assim, gordura é tabu? 

“O avanço mais notório é na indústria da moda com o surgimento de novas marcas, modelagens com tamanhos maiores, modelos plus size, mas na sociedade eu ainda não percebo esse avanço”.

Enxergamos uma evolução sim, existe um avanço para vários debates. A internet, por exemplo, é um espaço onde as pessoas são formadoras de conteúdo, podendo compartilhar suas vivências, experiências e conteúdos que são pertinentes a elas. Isso fez com que muitas mulheres gordas começassem a falar e mostrar para o mundo que elas podem ser como quiserem (modelos, sensuais, fotógrafas, comunicadoras, críticas, artistas…), mas essa mudança se dá a nível individual, cada pessoa em sua bolha, se movimentando em torno de temas que as cercam.

O avanço mais notório é na indústria da moda com o surgimento de novas marcas, modelagens com tamanhos maiores, modelos plus size, mas na sociedade eu ainda não percebo esse avanço. Acredito que, a nível de consciência social coletiva, faltam políticas públicas, falta acessibilidade, falta um olhar da sociedade para esses problemas.

Foto: Reprodução/ Instagram

PD: O sistema quer que acreditemos que somos feias, mas a web e as plataformas de geração de conteúdo são grandes aliadas, quando bem usadas, no processo de contato com outras mulheres, suas histórias e percepções. Quais são suas referências na internet?

“Antigamente as mulheres gordas, principalmente as mais gordas, ficavam em casa. Todo mundo no bairro sabia que existia uma mulher gorda morando ali, mas ela não era vista.”

As mulheres sempre foram apontadas. Suas vidas sempre tiveram a influência de terceiros e a mulher nunca teve um controle total sobre sua vida. Geralmente começa com a opinião da família, depois o chefe, depois o marido, depois os filhos… Essa autonomia sempre foi difícil para mulher e hoje a inserção digital tem feito com que, principalmente a juventude, se atente e resolva falar por ela mesma. São outras formas de beleza que são possíveis, que são admiráveis e divulgadas. Outras formas de corpos, outras formas de amar, outras formas de se mostrar, outras formas de trabalhar.

Antigamente as mulheres gordas, principalmente as mais gordas, ficavam em casa. Todo mundo no bairro sabia que existia uma mulher gorda morando ali, mas ela não era vista. Ela não existia para a sociedade. Hoje isso mudou. As pessoas têm saído mais e se mostrado mais. Tem se tornado mais comum, ao menos na internet, esses outros tipos de corpos, outros tipos de pessoas e isso faz com que percebamos que não estamos sozinhos no mundo. Que mais pessoas são como nós e pensam como nós. Isso tem sido uma forma de unir e fortalecer pessoas, mesmo que seja só no ponto de vista estético.

Eu tenho muitas referências de pessoas que eu acho incríveis nesse meio do body positive:

Naiana Ribeiro
 

corpo: instrumento de resistência 👊🏽💜 #gordasim #gordofobianãoépiada #corpãoquerido

Uma publicação compartilhada por Naiana Ribeiro (@itsnaiana) em

Carla Galrão

Kika Maia
 

Ela sempre soube… 😍

Uma publicação compartilhada por Kika Maia (@kikamaiaplus) em

Erica Almeida

Anderson Nascimento

Alexandra Gurgel

Beth Ditto

Tess Holliday

São tantas pessoas maravilhosas, que fica difícil listar, mas temos muitas referências no meio da música, da arte, da dança, no rolê de influencers digitais, moda… Gosto de todo mundo e não acompanho só pessoas gordas, porém essas que citei, eu estou sempre dando uma olhadinha.

 PD: Qual mensagem você deixa para as mulheres que ainda não se entenderam?

“Sinta-se abraçada e acolhida, porque você é INCRÍVEL, você é especial.”

O que eu queria dizer para todas as pessoas, para todas as mulheres que estão ainda no processo de entender o seu corpo, é que conversem com outras pessoas, se dispunha a ouvir, a entender as especificidades que o seu corpo tem e também troquem informações. Absorva o que você puder para formar o seu caráter, a sua personalidade a respeito de você mesma e sinta-se livre. Sinta-se abraçada e acolhida, porque você é INCRÍVEL, você é especial. 

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