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Tayná Leite: ser mãe de um menino me fez questionar a relação dos homens com o feminismo

Foi difícil disfarçar a decepção quando soube que estava grávida de um menino. 

Mãe de um M E N I N O? Logo eu! Vítima das mais cruéis formas de machismo que a sociedade nos proporciona: abuso, assédio, mansplaining, gaslighting e todos os demais termos em voga e que nada mais são do que boa e velha misoginia de cada dia decupada e desenhada! 

Eu saberia exatamente como agir se minha filha fosse assediada, abusada ou humilhada. Saberia como defendê-la e, principalmente como ensiná-la a lutar! Saberia abraça-la e chorar com ela! Precisei aprender a me defender dos homens muito cedo e saí vitoriosa nessa guerra! Pergunte a qualquer um que me conhece desde sempre qual adjetivo melhor me descreve e muitíssimos dirão: “guerreira”. Pois então, quando pensava em uma menina estava preparada a ter uma “companheira de luta” ao meu lado e sabia exatamente o que a esperava. 

Agora, mãe de M E N I NO? 

E se o meu filho for o cara que manda nudes sem autorização? O cara que pega a mulher e a objetifica? O cara que ilude? Que se gaba de ter “pego” várias menininhas. E se ele achar que o mundo é dele por direito e que a voz dele deve ser sempre ouvida quando tem uma mulher falando? 

Refletindo mais e mais sobre o assunto enquanto a gravidez avançava e eu já me via completamente louca de amores por esse bebê, me deparei com o maravilhoso documentário “The Mask You Live In” que mostra o quanto a construção de uma masculinidade tóxica faz refém além das meninas, também os meninos. 

Passei a olhar o mundo com outros olhos.

Passei a olhar o sistema com outros olhos. 

Passei a olhar o feminismo com outros olhos. 

E se meu filho achar que não pode chorar? Ou que os sentimentos dele devem ser abafados, que seu coração deve ser silenciado e que afeto não é coisa de macho? E se ele sofrer por amor por ser “sensível demais”? E se ele quiser “fazer coisas de menina”? E se ele achar que sexo e amor são coisas distintas e que ele precisa estar sempre “a ponto de bala” e não pode se negar a nada (a não ser que a mulher seja lida como feia ne?!). A gente sempre fala que não tem nada mais frágil que ego de omi e eu nunca havia compreendido o quão triste é essa constatação até olhar para o meu bebê. 

Como militante eu estou careca de saber que a socialização machista traz a nós mulheres consequências incomparáveis e infinitamente maiores do que aos homens, mas era no meu bebezinho que eu estava pensando e em como fazer dele um homem minimamente decente, livre para ser quem ele é, livre para simplesmente ser e, de quebra, não ser um escroto com mulheres.

De todas as formas de opressão, o machismo talvez seja das mais perversas justamente por subjugar oprimidas e opressores. Além de ser capaz de perpassar absolutamente todas as classes sociais, raças e etnias. O machismo é tão estrutural e encralacado que é até difícil visualizar com profundidade todas as suas faces. Trabalhei um bocado isso na terapia até entender que meu desconforto residia justamente na possibilidade de deparar-me com o opressor dentro de casa e sob a minha responsabilidade. A sociedade já começa nos fodendo aí: se a culpa do machismo do meu marido é da mãe dele, a do meu filho é claro será minha…! 

“Fica tranquila que teu filho com certeza não será machista” e aquele suor de pavor escorre no canto da testa. Que pressão! Eu não quero essa responsa só para mim! Dispenso os méritos e to de boas em compartilhar essa tarefa! Mas com quem? O marido é até mediamente desconstruído, mas ainda é muito pouco! Temos que encarar a indústria do entretenimento em geral, de quadrinhos a filmes cult passando pela música clássica, o mercado de trabalho, da construção civil ao mercado financeiro, o sistema de ensino e a indústria inteira (ok, quase!) de brinquedos nos dizendo que: lugar de menina é lavando louça e cuidando de neném “igual a mamãe” e lugar de menino é qualquer outra coisa mais interessante e conveniente! 

E onde eu quero chegar com tudo isso? O que me motivou a escrever esse texto após o nascimento do bebê que transformou de tantas formas meu mundo, minhas perspectivas e paradigmas?

Aconteceu que no dia 31 de julho de 2017, a Revista Azmina publicou uma coluna nova cuja curadoria é feita por um homem, com o objetivo de falar para homens sobre questões relacionadas à construção (ou desconstrução) do que significa ser homem.

Não faltaram críticas, xingamentos e o título de biscoiteras por estarem dando espaço e voz a quem o tem de sobra na nossa sociedade machista. “Mas e as mulheres negras? E as indígenas? E as quilombolas? E as lésbicas quilombolas gordas e trans?”muitas bradaram com raiva.

Antes de mais nada eu fiquei um tanto chocada (embora não devesse) com a quantidade de pessoas que criticou a coluna sem se dar ao trabalho de checar 1) se as críticas procediam (visto que há sim espaços diversos para as minorias citadas); 2) qual a missão e objetivos da Revista (já que ela não é debater correntes de feminismo ou se tornar um espaço de debate acadêmico sobre conceitos feministas e sim: “usar o jornalismo e a educação para ajudar a melhorar o mundo, principalmente para nós, mulheres!” e 3) qual o real público da Revista.

Parece até verdade às vezes que parte da militância está muito mais preocupada em gritar, em esbravejar e lacrar do que em encontrar soluções.

Eu poderia estar dizendo tudo isso apenas pelo fato de conhecer a Nana e o material humano do qual ela é feita, ou pelo fato de eu mesma já ter sofrido críticas de quem está preocupado em conceituar enquanto eu estou arregaçando as mangas e sujando as mãos, mas eu estou dizendo tudo isso hoje porque eu tenho um filho. Eu tenho filho e até que se prove o contrário ele é homem e ele vem pra uma sociedade que parece se dividir entre homens escrotos e esquerdomachos com flor no cabelo que continuam sendo escrotos com uma roupagem mais bonitinha (embora às vezes ainda mais pérfida).

Não, eu não acho que precisamos de mais homens falando para mulheres. Eu acho mesmo que precisamos de cada vez mais mulheres e das mais diversas falando para homens. Mas sim, precisamos também de homens falando para homens sobre as nossas pautas. Precisamos que eles sejam parte da solução do problema que eles criaram e do qual eles são ao mesmo tempo algoz e por vezes vítimas.

Ficar encastelada na discussão semântica e acadêmica sobre feminismos não fará com que as mulheres deixem de morrer, de serem vítimas de abusos e violências em suas casas ou ocupem mais espaço no mercado de trabalho. Discutir até a exaustão a maternidade compulsória entre mulheres é necessário, mas conscientizar pais a ocuparem seus espaços e assumirem suas responsabilidades é infinitamente mais útil para nós mães exaustas.

Outro dia eu estava dizendo para meu marido que Cacá precisava ter uma boneca “para aprender a ser pai e que isso também é coisa de menino”. Ele me respondeu: “ele vai aprender a ser pai vendo o pai dele trocar fralda, fazer ele dormir, dar banho, brincar. Ele vai aprender olhando para nós que a mãe trabalha, o pai trabalha e todos nos cuidamos uns dos outros.” Sim, ele vai aprender isso em casa e eu fico feliz que ele veja isso também na mídia! Que ele veja o Rodrigo Hilbert ser também um “omão da porra”, ou o Lázaro Ramos, ou o pai do amiguinho.

Eu, enquanto mãe de um menino quero sim ajuda de outros homens para mostrar ao meu filho o caminho da desconstrução e da igualdade. Eu quero que meu filho leia homens em uma revista feita por mulheres. Eu quero que ele veja homens sendo subordinados. Homens que não nos interrompem. Homens que se questionam! Eu quero que, além de ver a mãe dele sendo foda, ele veja o pai dele se questionando e outros homens como o pai dele falando que não sabem, que querem aprender sem terem que a cada palavra ouvirem “cala boca seu macho bosta”.

Se eu achei a coluna excelente? Não! Dá para ver o quanto é difícil para eles falarem sobre esses temas sem escorregar. E aí que podemos contribuir. Podemos e devemos criticar a fala dele. Expor as incoerências e inconsistências. “Melhora omi!” é o nosso papel. Indicar caminhos facilita.

“Mas eu não sou obrigada a ensinar macho”. Não! Não é! Aliás ninguém é obrigada a nada!

Agora, se o cara se dispõe a aprender comigo e com todas nós eu me proponho a ensinar sim! Eu vou dar a mão sim! Porque mais do que tombar, eu quero é mudar o mundo! E estou começando por mim mesma enxergando as minhas inconsistências e incoerências e me abrindo para a mudança. Eu quero ajudar a construir um lugar mais digno para todas as mulheres e meninas e quero que todas que venham a cruzar o caminho do meu menino saibam que a mãe dele não queria lacrar! Que ela botava a mão na massa e ia à luta ao lado de todas e todos que se dispusessem a co-construir esse lugar!

Entender que nem sempre a luta é com o escudo e a espada foi mais um dos aprendizados que Cacá me trouxe e eu sou pura gratidão.

Por um mundo com mais Nanas, mais Azmina e Ozmano! Por um mundo com menos lacre e tombamento e mais troca e aprendizado! Quem vem?

Texto: Tayná Leite

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