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Todo feminicídio é vingança, pode apostar

Por Flávia Azevedo para o Jornal Correio

O relato da fisioterapeuta que sobreviveu a 69 facadas – numa tentativa de assassinato encomendado pelo ex – é exatamente o desenho da motivação masculina nessa nova onda de feminicídios. Coisa que sempre existiu, sabemos, mas agora ganha volume e requintes de crueldade. Assim como muitas de nós, Isabela cansou do namorado encostado, não topou se vestir como ele queria, é bem sucedida na vida e descobriu que não precisa de macho. Em cada uma dessas afirmações, na opinião dele (e de muitos outros), há um crime imperdoável.

Saímos do lugar de objeto utilitário. Há cada vez menos mulheres que, além de bancar financeiramente, ainda cumprem ordens dos caras. Entre muitas coisas, retomamos o controle dos nossos corpos, aprendemos a fazer os consertos de casa ou pagamos para isso, com o dinheiro do nosso trabalho. Derrubamos o mito da “competição feminina”, ressuscitamos a palavra (que eles odeiam) sororidade. Deixamos de ser do jeito que “homem gosta” e passamos a viver, finalmente. Como eles sempre fizeram, aliás. Acontece que mulher vivendo, para eles, é algo insuportável.

Há um susto, um ódio coletivo explicitado em atitudes e falas. “Você só faz o que quer, isso é chato”, escutei recentemente, de um rapaz saudoso do tempo em que toda mulher era boneca sexual. Eu não sou. Não somos mais. A expressão “a casa caiu” nunca pôde ser tão bem empregada. Estão caindo os lares erguidos sobre mulheres exaustas, relações sustentadas por mulheres traídas, interações doentias entre mulheres carentes e homens canalhas. Estamos deixando no vácuo, dando linha, ralando o peito, abrindo o gás.

“Vai morrer sozinha”, ainda nos dizem, enquanto programamos envelhecer, alegremente, entre amigos(as), se for o caso. Finalmente, entendemos que não basta ser um cara. Para a maioria de nós, não há mais motivos pra suportar o que sempre foi insuportável. Todo dia uma nova mulher posta mensagens do tipo “quem manda em mim sou eu”, nas redes sociais. Até nos concursos de miss (pasme!), surgiram os discursos de equidade. Mulheres mais velhas soltam seus gritos abafados por décadas. As mais jovens já nem se imaginam dependentes de macho. As da minha geração, que viveram a transição, respiram aliviadas um “deu certo, acabou bater palma pra maluco dançar em minha cara”.

Diante da realidade irrevogável, os consultórios de terapia deveriam estar lotados de homens que se descobriram desnecessários. No entanto, em vez de entender a necessidade de uma reorganização interna, eles reagem como aprenderam em sua tosca definição de masculinidade: estrebucham, agridem. Em casos extremos (porém comuns), matam. Terrível, grave. Porém, era o esperado. Conhecemos profundamente esse modelo e é dele que fugimos, foi isso que abandonamos. Eu sabia que eles viriam nos cobrar a comida na mesa, o estupro que chamam de sexo, a dependência que não vai rolar mais.

Portanto, como fez Isabela, enquanto recebia as 69 facadas, proteja a sua jugular. É sério: feche a guarda. Não é hora de pensar que em cada encontro de padaria pode estar um grande amor. Não é hora de achar que “ele não faria isso comigo”. Faria, sim. Muitos fariam e estão fazendo. É preciso se fortalecer e aprender a ler os sinais. Há um exército de homens “ofendidos” reagindo da pior maneira possível ao nosso movimento de liberdade. É preciso descobrir um novo romantismo para relações heterossexuais, em novas bases. Não agora. Mais tarde. Até lá, respire e se mantenha viva no território conquistado. Por enquanto, basta. E não se esqueça: também isso – mas não sem luta – vai passar.

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