papo_delas_logo

SIGA O PAPO NOSSO CANAL /PAPODELAS
sem_filtro

Vanessa Kiki: “A moda para mim é a expressão da nossa identidade”

O universo da moda mobiliza o mundo inteiro em prol do consumo do que é tendência, do que é novo nas passarelas. Porém, nem sempre o que é apresentado pela indústria da moda e vestuário promove o consumo consciente. Nesta linha entre mercado e sustentabilidade que entra em cena Slow Fashion, um movimento que traz consigo uma alternativa de redução da produção em massa, com peças diferenciadas e ecológicas.

Quem também segue essa tendência de consumo consciente e sustentabilidade é a Vanessa kiki, dona e criadora da marca Alend. Uma marca de roupas femininas e masculinas que tem um compromisso direto com o meio ambiente.

P.D – Conta para a gente um pouco da sua vida, de onde você veio, onde nasceu, sua formação e as coisas que você fez até chegar onde chegou.

V.K – Eu nasci em Salvador e morei minha vida toda aqui. Minha formação é em arquitetura e urbanismo. Hoje ainda atuo na área de arquitetura, mas também trabalho com moda, que é a minha grande paixão. Uma área pela qual sempre me identifiquei, desde a época da faculdade, quando criava roupas para mim e algumas coleções a pedido de amigas. O retorno foi sempre positivo. Depois disso veio minha formatura e tive que exercer a profissão de arquiteta, deixando um pouco de lado a moda. Porém, em 2016, quando fiz um intercâmbio, voltei com uma vontade muito grande de exercer esse meu lado criativo na moda. Comecei a criar e desenvolver esse projeto, pesquisar por algo voltado para sustentabilidade e inovação. Um pouco à frente eu me conectei com a minha atual sócia, e juntas desenvolvemos o projeto da Alend. Hoje a marca já tem dois meses de lançada. Acreditamos e temos fé de que vamos conseguir alcançar muitas pessoas, e que elas consigam trazer essa nova consciência para o consumo de roupas.

P.D –  O que é moda para você e como ela reflete na sua vida?

V.K – A moda está refletida no meu dia a dia pela constante busca de autoconhecimento, da forma pelo qual utilizo da indumentária para expressar a minha verdadeira identidade. A partir do momento que estou escolhendo uma peça para vestir e transmitir alguma mensagem, eu estou buscando me conhecer melhor. O que aquilo vai falar sobre mim, qual a mensagem que eu quero passar com aquela roupa. Muitas vezes não percebemos, mas acredito que muitas pessoas já passaram ou passam por uma falsa conexão da indumentária com a verdadeira essência, passamos uma mensagem através da roupa que não reflete realmente quem somos. Muitas vezes isso ocorre para se auto afirmar, para se inserir ou por insegurança. Isso é muito natural do ser humano, mas é algo que tem que ser avaliado e corrigido. A pessoa precisa olhar para dentro e ter esse autoconhecimento.

 A moda para mim é a expressão da nossa identidade.

Foto: Reprodução

P.D – Hoje você tem sua própria marca de roupas, a Alend, que estimula o consumo consciente e a sustentabilidade. O que te inspirou a criar sua própria marca? E porquê focar nessas características?

V.K – O que me inspirou a criar a Alend foi a necessidade de tornar a moda mais significante na minha vida. Algo que hoje é tão banalizado e causa tanto impacto negativo. Existem pessoas que estão construindo projetos ótimos na área da moda, mas que causam impactos muito negativos não só social como ambiental. O desejo de fazer com que esse cenário seja reconstruído e ressignificado, trazendo através de uma marca de roupa, uma construção de peças que diminuam o impacto ambiental e tragam benefícios sociais.

P.D – Você se considera parte do movimento slow fashion? Se sim, qual é o principal objetivo dele na sua opinião? Você acredita o slow fashion é capaz de fazer o fast fashion entrar em desuso?

V.K – Sim, acredito que a Alend faz parte do Slow Fashion. O Slow Fashion é basicamente um ato disruptivo para o Fast Fashion. Optamos por frear esse consumo que vem acontecendo há muitos anos após a revolução industrial. A revolução estimulou o consumo para suprir essa indústria. Quando criamos a Alend, nossa intenção era fazer com que esse consumo fosse visto de uma forma mais consciente, por meio de um pensamento a curto, médio e longo prazo. Peças atemporais, porque você pode usar tanto no verão, inverno, primavera ou no outono. Além de trazer um produto que não está conectado com tendências vigentes. Isso não quer dizer que a Alend não se inspire, que não traga algo que seja moderno. Nós não seguimos uma tendência que vai passar daqui a dois, três ou seis meses, tornando uma peça descartável ou porque aquilo ali não faz mais sentido. Nossa intenção é criar peças que as pessoas possam usar a longo prazo. Porque ela vai estar fazendo bem não só a ela como também vai estar causando menos impacto socioambiental.

P.D – O conceito da Alend vai além do vestir, não é apenas um estilo, mas sim uma forma de como o indivíduo interage com o mundo em sua volta. De qual forma você acha que a marca de vocês pode influenciar a vida das pessoas?

V.K – A Alend é uma marca de roupa que vai muito além de um consumo, da aquisição de um produto. Buscamos fazer com que as pessoas se autoconheçam, conectem com sua essência e busquem se vestir de acordo com o que elas são, de uma forma mais consciente no sentido de buscar causar menos impacto.

O que nossa marca propõe é isso, não só trazer a indumentária, mas trazer peças que são feitas em um processo mais sustentável. É por isso que estamos cada vez buscando e inovando para que essa mudança aconteça. Porém, acredito que as pessoas através dessa consciência no consumo possam melhorar essas relações diárias. As pessoas dedicam muito tempo ao fato de estar com roupas bonitas – se aquela roupa vai estar adequada para o local, se os outros vão olhar –  mas o que realmente importa naquele momento é o fato de estar presente, se conectar com as pessoas, interagir e curtir. Com um design simples e básico acreditamos que as pessoas consigam estar em qualquer lugar com qualquer pessoa de uma forma mais saudável. Não criamos roupa que chamem atenção pela própria roupa e sim pelo que a pessoa representa com ela.

P.D – Você acha que o consumidor brasileiro está disposto a pagar um pouco mais para ter um produto diferenciado, de maior durabilidade e que causa menos danos ao meio ambiente? Por quê?

V.K – Eu acredito que sim, o consumidor brasileiro está cada vez mais consciente na hora de consumir. É um caminho sem volta, estamos cada vez mais conectando e informando sobre todos os impactos que nós causamos através do nosso consumo. O brasileiro tem que compreender que os produtos mais baratos não são realmente mais baratos. Todos nós de alguma forma acabamos pagando por esses custos – sociais e ambientais – que não são contabilizados no custo real.

Esse é um padrão de produção e consumo insustentável. O meio ambiente e a sociedade não conseguem sustentar esse tipo de produção no qual a cadeia não é justa nem honesta. A importância de você pagar por um produto consciente, não é que seja caro, mas que é o preço justo e honesto para que toda cadeia seja suprida, de forma que ninguém saia perdendo. É essa a ideia, não é a consciência de você estar pagando mais caro e sim você estar pagando um valor realmente justo para que aquilo seja realmente sustentável.

Foto: Reprodução

P.D – Conta para a gente quais são as dificuldades de apresentar um produto de impacto social e ambiental? Como essa vertente pode incentivar uma mudança no universo da moda?

V.K – Acredito que a dificuldade maior é conseguir quebrar um padrão. A Alend está nascendo como uma marca, trazendo essa quebra de paradigmas que é sair de um padrão já existente, uma cultura de consumo desenfreado que é o Fast Fashion. Seguimos para um consumo consciente pensado a longo prazo, porque não é um produto imediatista. É o consumo consciente no qual você adquire um produto para ser usado em qualquer momento, que não será descartável. Algo que você precisa e vai realmente lhe trazer benefícios. Por esse motivo a dificuldade também é na comunicação, de levar essa informação para o consumidor e ofertar esse produto.

Para o universo da moda eu acredito que essa nova tendência vai trazer muitos benefícios, porque ela vai voltar a ser o que realmente ela nasceu para ser. A moda nasceu para servir a vida das pessoas, fazer da indumentária um meio para elas comunicarem a sua identidade. O universo da moda vai ser menos banalizado, voltado para sua verdadeira essência.

P.D – Você como mulher já encontrou alguma dificuldade no mundo dos negócios? Para você quais são as maiores dificuldades em empreender?

V.K – Não acredito que por eu ser mulher eu tenha dificuldade de empreender. Os resultados veem quando você soma muito esforço, muito trabalho e amor pelo que você faz.

Se você ama o que faz, se dedica e trabalha para poder alcançar esses objetivos o sucesso é inevitável, ele vem!

P.D – Qual conselho você pode dar as pessoas para que elas adotem o consumo responsável no seu dia a dia?

V.K – Que as pessoas busquem o autoconhecimento, se conectar com elas mesmo e através dessa busca elas consigam entender o que realmente são seus valores e o que realmente é essencial para elas. Para que dessa forma possam se conectar e eliminar tudo que excede para consumir cada vez menos e melhor.

Insira suas palavras-chave de pesquisa e pressione Enter.