Imagens: Reprodução/Twitter

Logo depois do protesto, Eduardo Bolsonaro resumiu a lógica que a direita tentava colar às feministas. Disse, sem nenhum pudor, que “mulheres de direita são mais bonitas e higiênicas”. Nos grupos de WhatsApp, a máquina de memes da campanha bolsonarista não economizou criatividade para divulgar montagens comparando os dois tipos de mulheres. Funcionou.

Quando um tipo de discurso não funciona mais, a direita é eficiente ao praticar o desapego. Ela está constantemente se reinventando para continuar existindo.

Vejamos o exemplo do Democratas, o DEM. Hoje ele se vende como “o partido das novas ideias”. Mas o DEM  existe desde 1965 e foi criado para dar apoio à ditadura. Chamava-se Arena até 1980, quando foi rebatizado de PDS. Cinco anos depois, mudou para PFL e, em 2007 – quando estava desgastado demais para eleger algum dos seus membros – passou a se chamar DEM. Atualmente, o partido das novas ideias já tem três ministros indicados para o governo de Jair Bolsonaro, um grande defensor da ditadura militar. As ideias são as mesmas do passado – só o marketing que mudou.

Não queremos dizer que os defensores de causas progressistas devem abandonar seus ideais. Só precisamos encontrar o melhor tom para comunicá-las, especialmente em um contexto de guinada à direita na política e nos costumes.

Derrube os muros ao redor

A quarta onda feminista, pautada em grande medida pela internet, não chega para uma boa parcela da população. Por isso é preciso repensar estratégias. Não faz sentido falar sobre #8M (o movimento que começou na Argentina e ficou famoso nas redes sociais) com mulheres que não entram em greve em 8 de março sob o risco de perderem o emprego.

Alguns coletivos de mulheres já adaptam o discurso quando abordam temas feministas em eventos nas periferias ou nas escolas. Elas falam em movimento de mulheres em vez de dizer feminismo, por exemplo. Isso ajuda a romper a resistência das ouvintes e facilita a transmissão da mensagem. O que nós precisamos é aprender com esses coletivos e com a Marília Mendonça.

A artista consegue envolver uma parcela imensa da população com a sua música. Mesmo homens. Isso quer dizer que essas pessoas se sentem representadas, de algum jeito, com o que está sendo dito. E o que ela diz é, na base, feminismo – mesmo rejeitando o rótulo.

Quando Marília Mendonça se preocupa com a esposa do homem com quem ela fica, a mensagem é clara: esta outra mulher não é necessariamente sua inimiga. Pode parecer óbvio, mas é o oposto do que costuma ser dito em músicas populares. Ela resolveu, de uma forma popular e acessível, a questão da rivalidade entre mulheres, muito discutida em movimentos feministas.

E a música faz isso sem palavras difíceis, textões, lacração ou jargões esquerdistas. A mensagem foi passada adiante de um jeito que faz sentido para a vida real das pessoas. Quem se identifica com os valores propagados pelo feminejo também provavelmente se identifica com os valores do movimento feminista – só não sabe disso ainda.

A esquerda precisa escutar as necessidades do público que ela quer alcançar. Caso contrário, continuará cercada pelos seus próprios muros.