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WhatsApp nas eleições: o uso por candidatos e eleitores

 

O Brasil enfrentou no fim de maio de 2018 uma das piores crises dos últimos anos: a paralisação dos caminhoneiros e das empresas de transporte. Durante cerca de dez dias, houve bloqueios nas estradas, motivados, entre outras questões, pela alta no preço do óleo diesel.

 

A crise afetou todo o país. Postos de combustível, supermercados e hospitais ficaram desabastecidos, serviços públicos foram interrompidos e setores da indústria pararam a produção. Foi uma grande manifestação organizada via WhatsApp, o aplicativo de conversa instantânea para celulares. Analistas vêm no movimento algo inédito não só no Brasil, mas também no mundo.

 

A ferramenta funciona de maneira diferente de outras redes sociais. O Facebook e o Twitter, por exemplo, são plataformas abertas, nas quais o internauta tem livre acesso aos conteúdos publicados. Já o WhatsApp, não. O aplicativo só permite que usuários específicos consigam acessar os conteúdos. No caso, esses usuários são aqueles aquém se dirige uma mensagem, ou aqueles que integrem um grupo onde informações são compartilhadas.

 

Esses grupos podem conter, no máximo, 256 pessoas. Em entrevista à BBC, a pesquisadora da Escola de Governo de Harvard, nos Estados Unidos, Yasodara Córdova, comparou o WhatsApp a “uma sala de jantar”.

 

“O Twitter e o Facebook são como uma vida pública, uma praça onde você abre uma banquinha e as pessoas podem te ver e interagir com você. Já o grupo do WhatsApp é como a sala de jantar da sua casa, não entra todo mundo.” Yasodara Córdova, pesquisadora da Escola de Governo de Harvard em entrevista à BBC.

 

 

Por restringir o acesso às informações, o WhatsApp permite que as pessoas se organizem de maneira que outras não fiquem sabendo. Foi exatamente por ter essa característica que as autoridades tiveram dificuldade na hora de identificar quem eram os líderes da paralisação dos caminheiros para negociar uma trégua.

 

As eleições de outubro

O episódio da crise dos caminheiros mostrou, na prática, o poder que o WhatsApp tem de compartilhar informações e mobilizar pessoas em torno de uma ideia.

 

A mobilização foi um sucesso que pode se repetir em momentos cruciais para o país, como durante a campanha presidencial, que começa no dia 17 de agosto e cuja votação de primeiro turno está marcada para 7 de outubro. Às vésperas do início de uma campanha, que além do presidente vai escolher governadores, senadores e deputados, a forma como o WhatsApp vai ser usado pelos eleitores e também pelos candidatos ainda é incerta.

 

Vale lembrar que esse aplicativo de mensagem já foi usado para tentar interferir num resultado eleitoral no brasil. Foi no dia da votação do segundo turno de 2014, quando Dilma Rousseff (PT) tentava reeleição em disputa direta contra Aécio Neves (PSDB). Naquele dia – 26 de outubro de 2014 -, o WhatsApp de centenas de milhares de pessoas amanheceu com a seguinte notícia: Alberto Youssef, doleiro que se tornara delator da Operação Lava Jato e que havia dito dias antes que Dilma sabia da corrupção na Petrobras, havia sido “envenenado” na prisão.

 

Era uma notícia falsa, um boato que se espalhou entre os eleitores a ponto de ser necessário autoridades do governo fossem a  público desmenti-lo.

 

Duas perguntas sobre o uso do WhatsApp nas eleições

Diante dos precedentes e das perspectivas para a eleição de 2018, o Nexo entrevistou o coordenador de um grupo especializado em tecnologia e democracia. Trata-se de Marcelo Issa, coordenador do Movimento Transparência e mestre em ciência política pela PUC-SP.

 

Como os candidatos devem usar o WhatsApp nas eleições?

MARCELO ISSA: A gente não tem o costume de entender o WhatsApp como uma rede social. Ele é compreendido, na maior parte das vezes, como um instrumento de comunicação. Mas ele também é uma rede social e muito provavelmente seja hoje a mais importante utilizada do país. Por meio dele, forma-se os grupos. É uma rede social fechada, mas não deixa de ser uma rede social. E, sem dúvida, pela agilidade da ferramenta, ela tem um impacto direto nas questões relativas à política, especialmente quando se trata de engajamento.

 

A greve dos caminheiros deixou isso bastante em evidência. A grande dificuldade do WhatsApp é a análise do fluxo de informações. Por ser fechado, nós não conseguimos estudar a utilização da ferramenta. Diante disso, ele pode ser entendido como um ambiente muito fértil para disseminação de conteúdos duvidosos, as chamadas de fake News, ou até como forma de impulsionar conteúdos – sejam eles verdadeiros ou não.

 

Essas funções do WhatsApp também estarão à serviço das candidaturas. Os candidatos vão utilizar o aplicativo tanto para apresentação de propostas e fazer propaganda política – o que é legítimo – quanto também para disseminação de conteúdos impróprios do ponto de vista da veracidade. Podem fazer isso ao disparar mensagens fazendo eventuais acusações – que possam até configurar crimes de calúnia.

 

Trata-se de um instrumento que vai ter um impacto muito grande e com o adicional de ter a dificuldade quanto à transparência que ele proporciona. O que se espera é que os candidatos façam um uso ético dessas tecnologias durante as eleições.

 

No que os eleitores precisam prestar atenção no uso do WhatsApp?

MARCELO ISSA: É muito importante que o eleitor busque checar a procedência da informação, verificando se aquele dado vem de fonte confiável. É preciso se atentar também para o contexto. Muitas vezes, algumas falas disparadas pelo WhatsApp são retirados do contexto original delas e isso faz toda a diferença.

Outra questão importante é a temporalidade. Vários episódios ocorridos no passado podem ser recuperados com objetivo de prejudicar uma candidatura. Processos judiciais são um exemplo. Eles podem já terem sido encerrados e os envolvidos terem sido absolvidos. Mas mesmo assim, esse material pode ser usado para denegrir a imagem de alguém.

 

Fonte: Nexo Jornal

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